A introdução de « Dépense » é uma daquelas sequências musicais que os entusiastas da música senegalesa reconhecem já nas primeiras notas. Mesmo antes de a voz de Coumba Gawlo se erguer, a guitarra impõe uma atmosfera particular, ao mesmo tempo suave, melancólica e envolvente. Essa entrada, que se tornou cult, carrega a assinatura de um músico excecional chamado Assane Ndoye Cissé, mais conhecido pelo pseudónimo Dingouss.
Embora o grande público retenha sobretudo a atuação vocal de Coumba Gawlo, os músicos sabem que a identidade sonora de « Dépense » também repousa neste trabalho de guitarra de rara finesse. Dingouss ali deposita tudo o que sempre sustentou a sua força. Trata-se, na prática, de uma grande maestria técnica, de um sentido apurado de melodia e, sobretudo, de uma capacidade de criar frases musicais que ficam gravadas na memória. Mais de vinte e cinco anos após o seu lançamento, a introdução de « Dépense » continua a ser uma das mais célebres da música senegalesa contemporânea. Mas reduzir « Dingouss » a este único tema seria esquecer a amplitude do seu legado. Durante várias décadas, ele foi um dos guitarristas mais solicitados do Senegal. A sua guitarra acompanhou algumas das maiores vozes do país e contribuiu para moldar o som do mbalax moderno.
Ao lado de Baaba Maal, participou na aventura do « Dandé Leñol » e deixou a sua marca em vários temas que se tornaram clássicos, nomeadamente através da famosa introdução de « Deliya », frequentemente citada entre as mais belas sequências de guitarra da música africana moderna. « Dingouss » também trabalhou com Viviane Chidid, Wally Seck, Fallou Dieng e muitos outros artistas. Por onde quer que passasse, a sua guitarra trazia uma cor particular. Os cantores mudam, os estilos evoluem, mas o seu toque permanece reconhecível entre acordes límpidos, linhas melódicas elegantes e uma capacidade rara de valorizar uma canção sem buscar ocupar todo o espaço. Os músicos falam muitas vezes do «son Dingouss» para designar essa maneira única de fazer dialogar a guitarra com as percussões do mbalax. O seu modo de tocar bebia de várias tradições musicais do Senegal, mantendo-se, contudo, profundamente moderno.
Ele sabia fazer o seu instrumento cantar e dar-lhe um lugar central sem eclipsar a voz principal. É aí que reside a grandeza de « Dingouss ». Ao contrário dos cantores que ocupam naturalmente o primeiro plano, ele construiu a sua reputação nos bastidores dos estúdios e das orquestras. No entanto, a sua influência é imensa. Gerações de guitarristas senegaleses inspiraram-se nos seus fraseados, no seu sentido de ritmo e na sua abordagem de acompanhamento.
Quando ele faleceu em setembro de 2024, o Senegal perdeu um dos artesãos do seu património musical contemporâneo. Um músico cujo nome nem sempre era conhecido do grande público, mas cujas notas continuam a ressoar em canções intemporais. E entre todas estas obras, a introdução de « Dépense » permanece, sem dúvida, uma das mais belas cartas de apresentação de « Dingouss ».
A. KÉBÉ
