Gerente de produto de TI, de profissão, mas apaixonada pelo desenvolvimento pessoal e pelas relações humanas, Na Astou Fall assina seu primeiro livro dedicado às realidades da vida conjugal. Através de sua experiência, de suas observações e das confidências de muitas mulheres, ela convida a superar as ilusões do casamento para construir relações mais conscientes, fundamentadas na comunicação, no autoconhecimento e no respeito mútuo.
Você é gerente de produto de TI por profissão. Como chegou à escrita?
Muitas pessoas ficam surpresas quando digo que sou Product Owner e que escrevi um livro sobre casamento. Costuma-se imaginar que a escrita é privilégio de quem fez estudos de literatura. No entanto, acredito que a paixão pela leitura, pela escrita e pela reflexão não depende da profissão.
Mas para além da minha profissão, sou acima de tudo uma mulher, uma esposa, uma mãe, apaixonada por leitura, escrita, desenvolvimento pessoal, autoconhecimento e relações humanas. É essa paixão que me deu vontade de escrever este livro.
Por que ter escolhido dedicar o seu primeiro livro ao casamento?
Escolhi dedicar este primeiro livro ao casamento porque estou convencida de que se trata de uma das decisões mais importantes da vida, e, ainda assim, de uma das menos preparadas.
Tinha a sensação de que se preparava os futuros casados para o dia do casamento, mas muito pouco para a vida que começa depois. Como se falar das dificuldades, das desilusões ou do trabalho que o casamento exige tivesse se tornado um tema tabu.
Quis romper esse silêncio. Compartilhar o que aprendi, as reflexões e os insight que me fizeram crescer, com a esperança de que outras pessoas, à sua vez, possam tirar algo para o seu próprio caminho.
Não pretendia ter todas as respostas. Apenas desejava abrir uma reflexão e abordar o casamento com mais sinceridade e profundidade.
Optei por tornar isto num livro porque acredito profundamente que as palavras atravessam o tempo. Um livro é um legado. Ele continua a existir, a fazer pensar e a acompanhar leitores bem depois de o autor ter escrito a última palavra.
O título, O casamento, o que não nos é dito, chama particularmente a atenção. O que, na sua opinião, não nos contam?
Esse título surge de uma constatação bem simples. Não acho que nos escondam deliberadamente coisas sobre o casamento. No entanto, existem muitas realidades sobre as quais falamos pouco, ou que só compreendemos verdadeiramente quando as vivenciamos.
“O que não nos contam” são justamente as lições que o casamento nos ensina ao longo do tempo: o que ele revela sobre nós mesmos, o que nos obriga a aprender, os questionamentos que provoca e a maneira como nos faz crescer.
É justamente isso que abordo nos primeiros e nos últimos capítulos do livro. Nele compartilho, entre outras coisas, o que eu gostaria de saber antes de me casar e o que o casamento me ensinou ao longo dos anos.
No fundo, esse título é um convite para abrir uma conversa que às vezes tendemos a adiar. Não foi escrito para desfazer o sonho do casamento, mas para ajudar cada um a entrar nele com um olhar mais consciente.
No seu prefácio, você escreve que não é « nem especialista, nem psicóloga, nem conselheira conjugal ». Por que era importante esclarecer isso?
Foi importante esclarecer isso por honestidade com meus leitores. Não queria fazer crer que detenho uma verdade absoluta ou que posso falar em nome de profissionais cuja profissão é essa.
Este livro é acima de tudo o compartilhamento de uma reflexão, alimentada pelas minhas observações, leituras, experiências e muitos diálogos. Não pretendo ter todas as respostas. Espero apenas que as minhas palavras permitam a alguns fazerem as perguntas certas.
Você afirma que este livro nasceu de suas observações, de suas experiências e de inúmeras conversas com mulheres. Quais constatações surgiam com mais frequência?
Ao longo de minhas conversas, a constatação que surgia com maior frequência era a de mulheres emocionalmente profundamente cansadas. Não porque já não amavam mais seus maridos, mas porque acumulavam, ao longo de anos, incompreensões, decepções, silêncios não ditos e feridas que nunca foram expressas, ou pelo menos não de uma forma que lhes permitisse ser realmente ouvidas.
Também percebi que alguns casais tinham, gradualmente, substituído as trocas pelo silêncio, a proximidade pela distância. No entanto, através desses testemunhos, sentia-se que o amor ainda estava presente. O que os afastava nem sempre era a ausência de sentimentos, mas mal-entendidos que se acumulavam, feridas não curadas e uma comunicação que já não era construtiva.
Essas constatações deixaram-me profundamente marcada. Pensei que se aprendêssemos mais a comunicar, a ouvir e a entender uns aos outros antes que as feridas se tornem profundas demais, muitos casais poderiam evitar sofrer em silêncio.
Em que momento você disse: « Preciso escrever este livro »?
O estopim foi-se desenvolvendo ao longo do tempo. Uma mesma pergunta voltava sem cessar: por que nos preparam tão pouco para a vida que começa depois do casamento? Depois, um dia, outra pergunta surgiu para mim: « E por que você não falaria sobre isso, se isso é tão importante para você? »
Foi nesse momento que entendi que este livro precisava ser escrito. Não sabia qual seria a recepção, mas sabia que não queria mais guardar tudo isso para mim. Só me restava escrevê-lo.
Você diz que preparamos mais os jovens para a cerimônia do que para a vida conjugal. Por que essa preparação continua sendo insuficiente, na sua visão?
A meu ver, essa preparação continua insuficiente porque costuma centralizar-se no casamento como evento, ao invés de no casamento como relação. Dedica-se muito tempo para organizar a cerimônia, mas muito menos para falar de comunicação, gestão de conflitos, expectativas ou autoconhecimento. Contudo, são esses aspectos que ocupam o dia a dia de um casal muito tempo depois das festividades.
Não acho que seja falta de vontade. Creio apenas que esses temas ainda são discutidos de forma insuficiente antes do casamento, quando poderiam preparar os futuros cônjuges com mais lucidez e enfrentar melhor as realidades da vida conjugal, depois que as emoções dos primeiros tempos passarem.
Quais são as principais ilusões que os futuros cônjuges têm sobre o casamento?
Acredito que, antes de se casar, todos alimentamos certas ilusões. Sonhamos que nossa história se parecerá com os melhores filmes românticos ou com contos de fadas que terminam com: “Viveram felizes para sempre e tiveram muitos filhos.”
Imaginamos que, por termos encontrado o verdadeiro amor, ele será suficiente para superar todas as dificuldades. Contudo, o amor é indispensável, mas não substitui a comunicação, o respeito, o esforço ou as escrutinos que exige uma vida a dois.
A meu ver, entender isso não torna o casamento menos belo. Pelo contrário, permite amá-lo pelo que ele é de fato: uma relação que se constrói a cada dia.
Para você, o casamento parece ser mais uma escola do que um destino. O que quer dizer com isso?
Quando digo que o casamento é uma escola em vez de um destino, quero dizer que, uma vez celebrado o casamento, tudo ainda há de ser aprendido. Aprende-se a viver com outra pessoa, a comunicar, a gerir desentendimentos, a fazer concessões, a perdoar, mas também a conhecer melhor a si mesmo. Cada experiência, seja feliz ou difícil, torna-se uma lição que nos faz crescer.
É por isso que falo de uma escola, pois é uma aprendizagem permanente.
Segundo você, quais são as dificuldades para as quais os jovens casais estão menos preparados hoje?
A meu ver, os jovens casais estão pouco preparados para várias realidades: comunicar de forma construtiva, gerir desentendimentos, deixar de lado o ego e entender que cada um chega com a sua história, educação e feridas da infância. O amor é essencial, mas não dispensa esforços.
Um dos mensagens fortes do livro é que é preciso “amar sem se perder”. Como preservar a própria identidade no casamento?
Preservar a identidade não é amar menos o cônjuge. É continuar a existir como pessoa, enquanto se constrói um “nós”. O casamento nunca deve exigir que renunciemos aos nossos valores, à nossa personalidade ou à nossa relação com Deus. A meu ver, um amor equilibrado é aquele em que cada um cresce sem se apagar.
Onde fica a fronteira entre o compromisso necessário e o sacrifício de si?
Para mim, a fronteira é simples: o compromisso aproxima as duas pessoas, enquanto o sacrifício de si apaga uma. Num casal, cada um deve, por vezes, ceder. Mas quando uma única pessoa renuncia repetidamente ao que é para manter a relação, não é mais um compromisso, é um desequilíbrio.
As mulheres estão mais expostas a se apagar no casal?
Acredito que isso pode acontecer tanto com homens quanto com mulheres. Entretanto, as mulheres costumam estar mais expostas, especialmente na nossa cultura senegalesa. Desde muito jovens, muitas são criadas para cuidar dos outros, preservar o lar e colocar as necessidades da família à frente das próprias. São valores nobres, mas quando vividos sem equilíbrio, algumas acabam esquecendo de si mesmas.
Para mim, amar o cônjuge nunca deveria significar apagar-se. Um casal é mais sólido quando cada um cuida do outro, sem deixar de ser quem é.
Você aborda o casamento pela lente do desenvolvimento pessoal. Por que essa escolha?
Porque estou convencida de que o casamento é, acima de tudo, um encontro consigo mesmo. Frequentemente temos a tendência de pensar que as dificuldades vêm apenas do outro, enquanto o casamento também revela uma parte de nós que nem sempre conhecemos.
É por isso que optei pela abordagem do desenvolvimento pessoal. Queria convidar o leitor a questionar-se e a entender-se melhor antes de tentar entender o outro. Essa abordagem surgiu naturalmente, pois o desenvolvimento pessoal e o autoconhecimento me fascinam há vários anos.
Como o autoconhecimento influencia o sucesso de uma vida a dois?
O autoconhecimento é essencial, porque não podemos comunicar com clareza aquilo que não compreendemos em nós mesmos. Quando conhecemos nossos valores, limites, necessidades e feridas, reagimos com mais prudência e maturidade.
Por outro lado, quando não nos conhecemos, corremos o risco de esperar que o nosso parceiro preencha as nossas carências ou cure feridas que nos pertencem. A meu ver, uma relação torna-se mais saudável quando cada um aprende primeiro a conhecer-se melhor.
É possível construir uma relação saudável quando se carrega feridas pessoais não curadas?
Não penso que seja preciso estar totalmente curado para construir uma bela relação. Cada um chega ao casamento com a sua história. Para alguns, essa história é marcada por feridas ou fragilidades. No entanto, é essencial ter consciência disso. Uma ferida que ignoramos pode expressar-se na relação, através de nossas reações, medos ou na maneira de comunicar.
A meu ver, uma relação saudável não é a de duas pessoas perfeitas, mas a de duas pessoas que avançam juntas, com humildade e benevolência.
Você acha que as redes sociais ajudam a manter uma visão idealizada do casamento?
Infelizmente, sim. Hoje em dia, as redes sociais ajudam bastante a manter uma visão idealizada do casamento. Vemos sobretudo os momentos mais bonitos dos casais. Isso pode levar solteiros a moldar expectativas com base nessas imagens, e casados a comparar a vida diária com o que veem online. Porém, o que é mostrado raramente reflete toda a vida de um casal.
Para mim, o verdadeiro perigo não reside nas redes sociais em si, mas no ato de confundir o que elas mostram com a realidade do dia a dia.
Em nossas sociedades, o casamento continua a ser uma grande expectativa social. Essa pressão pode levar a más escolhas?
Sim, eu acho. Quando uma pessoa sente uma forte pressão para casar, pode sentir-se tentada a aceitar um relacionamento que não condiz realmente com ela, por medo de ficar sozinha ou de decepcionar o entorno.
O casamento é uma decisão importante que merece ser tomada livre e com consciência. Claro, ninguém pode prever o futuro, e apenas Deus sabe o que cada escolha reserva. Mas acredito que é essencial não deixar que a pressão social decida por nós.
Quais conversas deveriam ter com os jovens antes do casamento?
Do meu ponto de vista, seria importante falar mais de comunicação, gestão de conflitos, autoconhecimento e as expectativas de cada um. Também é essencial discutir sobre valores, visão do casamento, projetos de vida e como cada um expressa as suas emoções. Muitos mal-entendidos surgem apenas porque pensamos que o outro vê o mundo da mesma forma que nós, quando cada pessoa tem a sua maneira de pensar, de amar e de se comunicar.
Estou convencida de que comunicar é uma habilidade que se aprende. Esse é, aliás, um dos fios condutores do meu livro, porque uma comunicação melhor costuma evitar muitos mal-entendidos.
Seu livro traz exercícios de reflexão. Por que escolher esse formato interativo em vez de apenas um ensaio?
Incluí esses exercícios porque não queria que o leitor se contentasse apenas em ler o livro. Queria que ele pudesse dialogar consigo mesmo. Perguntas de introspecção o convidam a recuar, a conhecer-se melhor e a transformar a leitura numa verdadeira reflexão pessoal.
Queria também iniciá-lo na escrita, pois tenho a convicção de que a escrita é uma poderosa ferramenta de libertação. Colocar em palavras as próprias emoções, medos ou feridas costuma trazer mais clareza e permitir avançar com mais tranquilidade.
Qual exercício parece mais importante para um futuro noivo ou noiva?
Vaguei entre dois exercícios. O primeiro é “O que eu teria gostado de saber”, pois leva o futuro noivo ou noiva a pensar antes de se comprometer. O segundo é o “diálogo interior” porque ensina a identificar e expressar as emoções com precisão. Se eu tivesse de escolher apenas um para um futuro noivo ou noiva, escolheria o primeiro. Mas, depois de casado, recomendaria retornar com muita frequência ao segundo.
Ao escrever este livro, o que você descobriu sobre si mesma?
Ao escrever este livro, descobri que eu também tenho ainda muito a aprender. Cada capítulo me levou a questionar minha forma de pensar, de comunicar e de amar. Eu pensava em escrever um livro para transmitir uma reflexão, mas percebi que este livro também me fez crescer.
Ele me ensinou que nunca se termina de aprender sobre si mesmo. Acredito que é essa evolução permanente que nos permite avançar, tanto no casamento quanto na vida.
Existe algum capítulo que tenha sido particularmente difícil de escrever?
O capítulo mais difícil de escrever foi o último, o da renascença. Eu queria que o leitor encerrasse o livro com esperança. Não queria terminar pelas dificuldades, mas pela possibilidade de crescer, de reconstruir-se e de seguir em frente com mais consciência.
É um capítulo que escrevi, reescrevi e refinei muito. Procurava as palavras certas. Queria que fosse ao mesmo tempo sincero, tranquilizante e portador de esperança. Sem dúvida, foi o que mais tempo me exigiu.
Qual é a mensagem que você gostaria que cada leitor levasse após fechar o seu livro?
Gostaria que cada leitor fechasse este livro com mais esperança do que medo. Que entenda que o casamento não é apenas um encontro com o outro, mas também um encontro consigo mesmo. E que o verdadeiro amor não consiste em amar mais, mas em amar com mais consciência.
Se este livro puder, ao menos, despertar em uma pessoa o desejo de fazer as perguntas certas antes de buscar as respostas certas, ele terá cumprido a sua missão.
Este livro é dirigido apenas a pessoas casadas ou também a solteiros, noivos e casais em construção?
Este livro dirige-se principalmente às mulheres, seja solteiras, noivas, casadas ou em reconstrução após uma provação. É a elas que escolhi falar com prioridade.
Mas estou convencida de que muitos homens também se beneficiariam de lê-lo, pois os temas nele abordados dizem respeito a todos. Ele pode também ajudá-los a compreender melhor o olhar e as expectativas de muitas mulheres frente ao casamento.
No fundo, este livro é destinado a todas as pessoas que desejam construir relações mais conscientes, mais equilibradas e mais tranquilas, independentemente do seu estado civil.
O que diria a alguém que acredita que o amor, por si só, basta para fazer durar um casamento?
Diria que o amor é um ponto de partida muito bonito, mas que não basta por si só para manter um casamento. Um casal precisa também de comunicação, de confiança, de respeito, de paciência, de perdão e de uma vontade comum de crescer juntos. O amor dá o impulso para construir, mas são as escolhas que fazemos a cada dia que permitem que essa construção dure.
Propos recolhidos por Arame NDIAYE
