Apenas 26 anos, Allan Petre já realizou o que milhares de jovens entusiastas de astronomia ao redor do mundo sonham: trabalhar na NASA. Por trás dessa trajetória extraordinária esconde-se uma história de dúvidas, de sacrifícios e de resiliência. A de uma criança oriunda de um meio humilde que se recusou a permitir que sua origem social definisse suas ambições.
Convidado pela segunda edição do Senegal Space Week, realizada em Dakar entre os dias 19 e 22 de maio passados, o engenheiro aeroespacial franco-senegalês deixou marcas. Não apenas pela sua expertise científica, mas também pelo seu testemunho, no qual muitos jovens africanos podem se reconhecer.
Nascido em Villemomble, na Seine-Saint-Denis, de pais de origem senegalesa, Allan Petre cresceu num ambiente onde os modelos de sucesso nas carreiras científicas são raros. O bairro que o viu crescer costuma ser apresentado como um dos mais desfavorecidos da França. Uma realidade que pesa sobre as trajetórias de muitos jovens. «Não tinha exatamente modelos ao meu redor no campo espacial», confessa. «Era difícil projetar o meu futuro, conhecer as formações e os códigos que permitem aceder a essas carreiras».
No entanto, desde cedo ele desenvolveu uma fascinação pelo espaço. Uma excursão escolar, na qual observou o planeta Júpiter através de um telescópio, serviu como uma verdadeira revelação. A criança estabeleceu então um objetivo que parecia inacessível: ingressar algum dia na NASA.
Como muitos jovens provenientes de meios populares, Allan Petre foi confrontado pela autocensura. Chegou a abandonar temporariamente o sonho. Depois de concluir o ensino médio, ele orientou-se para estudos de marketing e economia, convicto de que as carreiras científicas mais prestigiadas ficavam reservadas a outros.
Um caminho cheio de obstáculos
«Frequentemente, criamos limites a nós mesmos. Pensamos: não é para mim, porque venho de um bairro popular, porque sou negro ou porque não tenho os mesmos recursos que os outros. Eu também passei por isso», conta ele.
O estalo surge quando ele percebe que está se distanciando da sua verdadeira paixão. Decide então recomeçar do zero e se orientar para as ciências da engenharia. Uma escolha corajosa que exige muitos sacrifícios.
Durante os seus estudos, o jovem teve de lidar com grandes dificuldades financeiras. Para suprir as suas necessidades, ele trabalha nos fins de semana enquanto continua a formação. Os dias sucediam-se entre as aulas, os deslocamentos e os empregos estudantis. «Eu sabia que enfrentava dificuldades maiores do que outras pessoas. Entre as horas de transporte, o trabalho e os estudos, nem sempre era simples. Mas nunca quis desistir», explica.
É essa determinação que impressiona Marame Kaïré, diretor-geral da Agência Senegalesa de Estudos Espaciais (ASES). «O percurso dele é uma verdadeira lição de perseverança, de determinação, de superação e de sacrifício», ressalta.
Os esforços de Allan Petre acabam por dar frutos. Ele ingressa numa escola de engenharia especializada em aeroespacial e realiza seu estágio de alternância na ArianeGroup, um dos pilares europeus do setor. Ele participa, nomeadamente, do desenvolvimento da Ariane 6, o novo lançador europeu destinado a assegurar a autonomia espacial do continente. Em 2023, ele obtém o diploma de engenheiro. Alguns meses depois, ele candidata-se à NASA.
Em 2024, com apenas 24 anos, Allan Petre junta-se à agência espacial norte-americana. Uma consagração para aquele que sonhava com as estrelas desde a infância. «Senti uma imensa satisfação. Realizar um sonho de infância tão cedo na minha vida foi incrível», recorda.
Na NASA, ele trabalha sobretudo em programas dedicados à exploração de Vênus. Uma experiência que lhe permite colaborar com alguns dos melhores especialistas mundiais do setor espacial.
O desafio vencido
Apesar desse êxito, Allan Petre não se esquece de onde veio. Muito pelo contrário. Ele faz de sua história uma ferramenta de transmissão. «O que importa não é de onde se vem, mas o que se quer realizar. É preciso concentrar-se na motivação, não no contexto social», afirma.
Durante a sua passagem por Dakar, ele manteve intensas trocas com estudantes senegaleses, insistindo na importância de acreditar em suas capacidades e de ousar agarrar as oportunidades. O seu apego ao Senegal é profundo. Seus pais são originários de Dakar e ele reivindica plenamente essa dupla cultura que moldou a sua identidade.
Para ele, o futuro do continente passa também pela maestria das tecnologias espaciais. «Uma nação espacial é uma nação soberana. O espaço permite atuar em áreas tão essenciais como a meteorologia, as telecomunicações, a gestão de desastres naturais, a navegação por satélite ou ainda a segurança. A África deve tomar o seu lugar nesta aventura».
Hoje, doutorando em engenharia espacial, divulgador científico e embaixador de vários projetos internacionais ligados à exploração lunar, Allan Petre continua a mirar mais alto. O seu próximo objetivo é claro: tornar-se astronauta e participar das grandes missões espaciais do amanhã.
O jovem garoto que observava Júpiter a partir de uma cidade da Seine-Saint-Denis tornou-se uma das figuras mais inspiradoras da sua geração. O seu percurso lembra que as fronteiras mais difíceis a vencer nem sempre são sociais ou geográficas. Muitas vezes são aquelas que nos impomos a nós mesmos.
Por Oumar FÉDIOR
