Eles eram dois, nunca um sem o outro. E tudo estava mais bem ajustado. Infelizmente, a mensageira das sombras nos levou Amadou, há um ano. Mariam, por sua vez, continua tomada por uma presença que não a deixa. Em suas palavras, o nome de Amadou é uma refrão constante. Como uma evidência impossível de calar. Em Dakar, ela veio apresentar, em abril passado, a pré-estreia do filme « Amadou et Mariam : Sons du Mali », que Amadou verá do além. Com a gente, Mariam fala de Amadou como quem fala de alguém que ainda está ali. Ela conta o homem, o artista, sobretudo o amor, esse amor imenso que persiste, resiste, e, através da música, recusa-se a se apagar.
O que você sente ao estar em Dakar?
Estou realmente muito feliz por estar em Dakar. Não é a minha primeira vez aqui, e a cada vez que venho, tenho a sensação de reencontrar uma família. Dakar é uma cidade que sempre nos recebeu com muito calor, com muito respeito e sobretudo com muito amor. Com Amadou, costumávamos dizer que o Senegal não é um país estranho para nós. É um país irmão. Hoje, mesmo que as circunstâncias tenham mudado, sinto essa mesma calor humano. Isso me toca profundamente. Estar aqui, nesse contexto, é ao mesmo tempo alegria e uma emoção muito forte.
Existe o filme « Amadou et Mariam : Sons du Mali » que vos é dedicado. O que representa essa homenagem para você hoje?
Este filme é, antes de tudo, uma imensa alegria. Porque ele conta a nossa história, o nosso percurso, desde o início, desde o nosso encontro no Instituto dos Jovens Cegos até hoje. É toda uma vida que é retratada, com seus combates, seus sacrifícios, mas também suas vitórias. O que me toca ainda mais é que esse filme seja exibido aqui, na África, e especialmente no Senegal. Nossa história não se construiu sozinha. Ela foi construída com os africanos, com os senegaleses, com todos aqueles que nos apoiaram desde o começo. Ao mesmo tempo, há uma parte de tristeza, uma grande tristeza. Este filme estreia hoje sem Amadou. E isso é algo difícil de aceitar. Eu gostaria tanto que pudéssemos estar juntos para falar sobre ele, rir dele, para lembrar como fazíamos sempre.
O que torna essa saída particularmente dolorosa para você?
O que é difícil é que esse documentário já foi filmado há vários anos. Começamos no Mali, depois viajamos pela França, pela Espanha… Vivemos tudo isso juntos. Compartilhamos esses momentos, essas lembranças, essas imagens. Hoje, ver o filme estrear sem ele é como se uma parte de mim estivesse ausente na tela. É como se estivéssemos contando uma história a dois, mas agora houvesse apenas uma voz para falá-la. Mas bem, não podemos nada contra a vontade de Deus. Não podemos contra a morte. Temos de aceitar, por mais duro que seja. Aqui estou para carregar essa memória, para continuar a fazer viver o que construímos juntos.
Como você encara hoje a cena sem Amadou?
É muito difícil. Realmente muito difícil. A cena era o nosso espaço a dois. Era ali onde nos entendíamos sem falar, onde nos olhávamos, onde ríamos, onde improvisávamos. Hoje, quando subo ao palco, ainda existe esse vazio. Sinto a ausência dele a cada instante. Há momentos em que tenho a impressão de que ele ainda está ali, ao meu lado. Por isso pedi que meu filho me acompanhasse. A presença dele me alivia enormemente. Ele me dá força. Ele reinterpreta algumas canções de seu pai, e isso cria uma continuidade, uma transmissão. O público também desempenha um papel muito importante. O apoio e o amor deles me carregam. Isso me ajuda a continuar. Sem isso, seria ainda mais difícil.
Como vocês trabalhavam juntos, na criação musical?
Funcionávamos como uma verdadeira dupla, em todos os sentidos. Componhamos cada um por nosso lado, mas nos encontrávamos sempre para construir juntos. Amadou gostava de trabalhar pela manhã, no silêncio. Eu, era mais à noite. Quando eu compunha uma música, eu mostrava a ele, ele pegava a guitarra, acrescentava seu toque. Ele me dizia: “Adiciona isso, tira isso, muda essa melodia.” Eu fazia o mesmo com as dele. Precisávamos um do outro naturalmente. Não havia competição entre nós, apenas amor e respeito artístico. Isso fazia a riqueza da nossa música. Era uma fusão de duas sensibilidades, de duas almas que caminhavam na mesma direção.
Quem era Amadou para você?
Amadou era tudo para mim. Meu marido, meu parceiro, meu amigo, meu cúmplice, toda a minha vida. Passamos mais de 40 anos juntos. Compartilhamos tudo: a música, as viagens, as dificuldades, as alegrias… Claro, como em qualquer relação, havia momentos complicados. Mas não guardávamos rancor. Conversávamos, resolvíamos as coisas, e seguíamos em frente. Ele tinha um coração imenso. Era paciente, compreensivo, sempre atento. Ele me trouxe muito, como pessoa e artisticamente. Hoje ainda, tudo o que eu faço, eu faço com ele no meu coração.
A sua música atravessou fronteiras. Como vocês construíram essa dimensão internacional?
Sempre fomos abertos. Escutávamos muita música diferente: blues, rock, música tradicional malinesa, música ocidental, etc. Amadou, com a sua guitarra, já tinha essa abertura musical. Misturávamos influências, mas sempre mantendo a nossa identidade malinesa. Também fizemos muitas colaborações, com artistas de todo o mundo. Esses encontros nos permitiram levar a nossa música em viagem, mantendo a fidelidade às nossas raízes.
Qual é a sua visão sobre a nova geração de artistas africanos, especialmente malineses como Fatoumata Diawara ou Sidiki Diabaté?
Tenho muito orgulho deles. Há muito talento hoje em dia. Fatoumata Diawara e Sidiki Diabaté são artistas que eu conheço, que vi evoluir. Meu conselho para eles é manterem-se pacientes, trabalharem, e principalmente ouvirem os mais velhos. A experiência é muito importante. É preciso aprender, observar, absorver. A música não é apenas talento, é também tempo, disciplina e muita humildade.
O que te impulsiona a continuar?
É a paixão. Sempre. Se eu continuo, é porque amo profundamente a música. É toda a minha vida. E depois existe o público. Enquanto as pessoas quiserem me ouvir, enquanto me apoiarem, eu continuará. Amadou deixou um legado imenso. Estou aqui para fazê-lo viver, para transmiti-lo.
Quais são as lembranças mais marcantes da sua carreira com Amadou?
São tantas! Lembro-me das TransMusicales de Rennes, das Victoires de la Musique, de todos os prêmios que recebemos, no Mali, na França, no Canadá… Mas além das recompensas, são os momentos partilhados que ficam. As viagens, os encontros, os palcos. Tivemos a sorte de colaborar com grandes artistas, de descobrir o mundo juntos. Foi uma vida rica, intensa, cheia de sentido.
Qual é a filosofia da sua música?
Nossa música é uma mistura de tudo o que vivemos e ouvimos. Alimentamo-nos de várias influências: a música maliana, claro, mas também blues, rock, música francesa… Escutávamos artistas como Johnny Hallyday, e muitos outros. No fundo, nosso objetivo sempre foi o mesmo: transmitir uma mensagem. Falar de amor, de paz, de tolerância, etc. Nossa música é a nossa identidade, a nossa história, a nossa maneira de tocar as pessoas. E hoje ainda sigo nessa direção.
Propos recueillis par Amadou KÊBÉ
