Portugal permitiu que as suas infra-estruturas estagnassem durante mais de 20 anos, segundo António Mendonça, chefe da Ordem dos Economistas Portugueses (Ordem dos Economistas), que alerta que o país carece do planeamento estratégico necessário para recuperar o atraso.
Falando em entrevista ao LusaExtra podcast, lançado a 22 de Outubro de 2026, o antigo Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (2009–2011) argumentou que os grandes projectos não servem de nada se não gerarem retornos económicos reais para as empresas nacionais.
Duas décadas sem direção
Mendonça afirma que Portugal tem sido paralisado em infraestrutura por pelo menos duas décadasacumulando lacunas de investimento significativas. O economista apontou decisões tomadas entre as décadas de 1950 e 1974 — no âmbito do planos de fomento (planos de desenvolvimento) — tal como a última vez que o país tinha objectivos genuínos a longo prazo. Esses planos concretizaram projetos como o complexo industrial de Sines e o Alqueva barragem.
Lamentou o fracasso na implementação do quarto plano de desenvolvimento após a revolução de 25 de Abril de 1974, que acredita ter quebrado o ciclo de planeamento de médio e longo prazo.
O líder da Ordem apelou ao regresso ao pensamento estratégico, alertando que não basta simplesmente gastar dinheiro. “Precisamos ver como esse dinheiro pode criar escala e produzir efeitos de transbordamento“, argumentou.
Orçamento 2027 sinaliza desaceleração do investimento
A crítica de Mendonça chega juntamente com a proposta de Orçamento do Estado para 2027 (OE2027), que o Governo entregou no parlamento no dia 8 de outubro. Investimento público na administração central deverá cair para 2,8% do PIB em 2027abaixo dos 4,3% estimados em 2026.
O ex-ministro descreveu o orçamento como preso “entre a inércia e a transformação”. Na sua opinião, o documento oferece continuidade e estabilidade financeira, mas prevê respostas limitadas às restrições estruturaisincluindo o défice de infraestruturas.
A desaceleração reflete o fim do Plano de Recuperação e Resiliência (Plano de Recuperação e Resiliência — PRR), o programa da UE de 21,9 mil milhões de euros que termina em 2026. Mendonça manifestou preocupação com a ausência de medidas compensatórias para preencher a lacuna.
Oportunidades perdidas em projetos atuais
Portugal não está completamente parado. Construção ferroviária de alta velocidade entre Lisboa e Porto começou em outubro de 2026, com o objetivo de reduzir o tempo de viagem para 1 hora e 15 minutos até 2030. O trabalho está avançando no novo Aeroporto Luís de Camões no Alcochete — com abertura prevista para 2035 — e o Governo aprovou o Plano Portugal + Preparado de Resiliência e Reconstrução (PTRR), no valor de 22,6 mil milhões de euros, na sequência das tempestades do início deste ano.
Apesar desta actividade, Mendonça insiste que o país continua a ser reativo e não estratégico.
«Certas infra-estruturas públicas, sejam elas ferroviárias de alta velocidade ou o próprio aeroporto, devem ser pensadas de forma a que produz efeitos na economia portuguesa”, disse ele ao podcast. O economista pediu aos planejadores que priorizem a maximização dos impactos para os fornecedores nacionais, em vez de simplesmente aprovar projetos.
Instituições internacionais ecoam o alerta
A crítica está alinhada com as conclusões do Fundo Monetário Internacional e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Ambos os organismos observaram que o investimento público em Portugal tem sido volátil desde 2012, não conseguindo acompanhar a depreciação dos ativos existentes.
A Avaliação da Gestão do Investimento Público do FMI identificou gargalos na execução de grandes projetos ao longo de todo o ciclo de investimento, juntamente com um planeamento sectorial fragmentado. O inquérito económico de 2026 da OCDE salientou igualmente que a resolução das lacunas em termos de infra-estruturas continua a ser uma prioridade, apesar das restrições de capacidade no sector da construção.
