É a história de um marionetista. Ele não tem corpo nem rosto. É apenas uma voz. São as tribulações de dois americanos que carregam bombas em Dakar e precisam cumprir missões sob o controle do marionetista para voltarem a ser livres. «Zero» é um filme de ação com tom político, inteiramente gravado em Dakar e dirigido por Jean-Luc Huberlot. «Zero» é também, ao fundo, um apelo à reapropriação de nossa narrativa.
«Mas, ei, acorda, ricain! Não dormimos quando temos um explosivo como sob as roupas. Especialmente, não num ônibus, em Dakar, em pleno dia.» Mas ele permanece no papel de «Sleepy Joe». Também é a sua liberdade: foi assim que o diretor Jean-Luc Herbulot resolveu apresentar o seu «Zero». Com, portanto, uma sequência que diz que neste filme as coisas vão detonar.
Uma bomba, nessas condições, é certamente muito séria. Felizmente, Jean-Luc, também autor de «Saloum», sabe rir. Um toque de leveza bem senegalês, que circula pelos transportes públicos, ajuda o diretor a mesclar o «muito grave» com o «muito engraçado». E assim será ao longo de todo o filme.
«Zero», é a história de duas bombas-humanos que percorrem a capital senegalesa, guiadas por uma voz misteriosa que lhes atribui missões por meio de chamadas e mensagens. Esse personagem invisível, sustentado por uma voz onipresente, é Willem Dafoe. Sim, o mesmo que interpretou o Duende Verde em Spider-Man. Em «Zero», veremos também Gary Durbin (no papel de Daniel) que muitos senegaleses conheceram como investigador em «Les Experts».
«Vos morts servent un grand dessein»
Ngor, Mbeubeuss, Colobane, Le Plateau… É na cidade de Dakar que a intriga se move. O jogo, bastante arriscado, desenrola-se numa capital senegalesa transformada em mapa, como diriam os gamers e fãs de GTA (série de jogos).
E eis que surge uma bomba humana que é pilotada pela voz pelas ruas de Ngor, sob uma trilha sonora que, por vezes, lembra os sons que se ouvem quando, com o controle, tentamos situar-nos no mapa de GTA San Andreas. Assim, o background do artista que já mergulhou no mundo dos jogos faz-se sentir, na narrativa de «Zero» por Jean-Luc.
O primeiro americano encontrará um compatriota. Os dois Yankees devem colaborar, apesar de suas diferenças de temperamento. Caso contrário, detonação, fim da missão.
Neste longa-metragem, não há contenção. Um deles massacra, batendo com uma pedra sobre cabeças. O outro explode. O outro jorra sangue. Um não hesita em sacar a lâmina. Socos? Claro. Curiosidade: um certo Kader Gadji é literalmente esmagado numa dessas belas cenas de coreografia guerreira do filme.
Toda essa violência parece apenas uma ostentação estética. Mas essa violência não é apenas exibicionismo artístico. «Vos morts servent un grand dessein» lê-se no diálogo de uma cena. O que é certo é que não se morre sem propósito em «Zero».
Uma tonalidade de fundo político
Neste thriller, sabe-se também morrer de forma bonita: sob uma árvore, de boubou branco, cercado de crianças, no pátio de uma escola, sob um sol radiante, como… Seria preciso ver o filme para saber quem!
No «Zero», também há falas fortes. Como este sermão: «Levantem-se e respirem. Pois a morte não é o fim quando a vossa vida tem um sentido. O que vão realizar acenderá um fogo tão grande que abalará a ordem das coisas».
Todas as mortes, então, respondem a um projeto amplo, muito amplo, do qual apenas a voz parece conhecer as linhas de chegada e de partida. O final do longa ainda sugere que, depois de «Zero», possa haver um Um, e um Dois, que poderiam se desenrolar em Paris.
Quem sabe se a voz não pretende criar um terremoto planetário orquestrando corridas de bombas humanas e explosões meticulosamente pensadas…
Observa-se que os dois corpos aprisionados são atribuídos à morte dos dirigentes do Front de Libération de l’Afrique de l’Ouest (Flao), um partido pró-democracia muito popular no país e além.
«Os meios de comunicação de todo o mundo receberam imagens de drones anônimos que mostravam dois homens identificados como americanos, nos locais dos ataques pouco antes de cada explosão. Esses dois homens também foram identificados durante a execução de um professor…»
Contar tudo seria spoiler… Retorno à ação.
Ouakam (perto da Mesquita da Divindade, isso dá uma ideia do que não se quer contar integralmente aos curiosos), em outros lugares de Dakar, explode. A população resmunga. A polícia patrulha. Um helicóptero sobrevoa e aumenta a ansiedade na tensão.
Toda essa paleta de imagens e sons ajudou a reproduzir em Dakar uma atmosfera de filme bastante americano. O filme é, em grande parte, tecnicamente conduzido por mãos senegalesas. Orgulho.
Os rostos senegaleses que o carregaram, como Roger Sallah (no papel de Onaye), viram nele um projeto artisticamente desafiador, que foi gravado sob as condições restritivas do Covid-19. Retorno à mensagem.
Médina, Daniel arrasta seus dois americanos. Ele tem com eles Emmanuel, um ladoum (Jean-Luc é livre para fazer o que quiser, não é?).
Médina, que a Wikipédia ocidental apresenta de certa forma, mas que Daniel narra de outra forma. Para este último, Médina é o centro a partir do qual irradia a Estátua da Liberdade.
«Quero ensinar para iluminar e libertar, não para dominar», diz o homem de óculos, que não parece gostar muito deste outro país do outro lado do Atlântico.
Um país? Não, antes “uma doença” em detrimento do mundo.
Moussa ECK
