Publicado em 2021 pelas Edições Elyzad, «Bel Abismo» de Yamen Manaï é um romance de 112 páginas alçado pela voz de um adolescente que se tornou pária numa sociedade que não sabe mais como lidar com sua raiva. Sua narrativa começa na intimidade de uma relação profunda entre um garoto e seu cão, antes de se ampliar para uma reflexão sobre a violência, a injustiça e a brutalidade dos adultos. Com uma linguagem direta, tensa e entremeada pela ironia, Manaï faz desse jovem narrador um testemunho tão lúcido quanto revoltado de um mundo que condena sem buscar compreender. Por trás do destino singular desse garoto, desenha-se então uma crítica mais ampla à sociedade tunisiana, às suas fissuras e aos seus silêncios, num texto em que a infância não é sinônimo de inocência, mas o espaço de uma resistência desesperada diante da violência dos homens.
Com quinze anos, já é tarde demais para pedir que acredite nos adultos. Seu pai o humilhou, a escola ensinou-lhe a lei do mais forte, a sociedade ensinou-lhe o desprezo e, neste universo em que os fracos são obrigados a desaparecer, ele não encontrou senão uma presença capaz de lhe devolver um pouco de dignidade: Bella. Uma cadela. Um animal que as pessoas olham com repulsa, mas que, para ele, representa tudo o que os homens não souberam lhe dar.
Em «Bel Abismo», Yamen Manaï conta menos a origem de um criminoso do que a construção lenta de uma raiva. Publicado pela Elyzad em 2021, este romance de 112 páginas recebeu, entre outros, o Prix Orange du Livre en Afrique e o Prix de la littérature arabe em 2022.
O livro começa depois da catástrofe. O garoto está na prisão. Ele dirige-se ao seu advogado, a um psiquiatra, mas também, mais profundamente, a todos aqueles que gostariam de reduzir a sua história a um dossiê judicial. Ele não defende realmente a própria inocência. Ele narra. Sua fala recapitula o menino que foi, o medo que sentia, a sua fragilidade, a relação complexa com o pai e a descoberta decisiva de Bella.
O dispositivo lembra, em certos aspectos, o de O Estrangeiro, de Camus. É, portanto, a expressão de um homem diante de uma instituição judicial, uma fala que desloca constantemente a questão do crime para a do olhar que a sociedade dirige àquele que o cometeu. Mas, onde Meursault parece estranho ao mundo, o rapaz de Manaï está dolorosamente prisoneiro dele. Ele sente demais. Ele ama demais. Ele suporta demais.
Essa diferença é essencial. Meursault é atravessado por uma forma de indiferença que escandaliza quem o cerca. O narrador de «Bel Abismo», por sua vez, é tudo menos indiferente. Sua raiva nasce precisamente do que ele sente com uma intensidade que o entorno não suporta. Ele gostaria de ser reconhecido, amado e respeitado. Gostaria de poder erguer a cabeça.
Bella justamente lhe permite fazê-lo. Antes dela, o garoto é descrito como frágil, temeroso, sempre obrigado a reduzir sua presença para não atrair golpes ou humilhações. O encontro com Bella modifica a relação dele com o mundo. Ela o espera, o acolhe, dá-lhe uma razão para voltar para casa.
Essa relação não é apenas um episódio comovente destinado a tornar o personagem simpático. Ela constitui o verdadeiro aprendizado do garoto. Com Bella, ele descobre a amizade, a fidelidade, a responsabilidade e uma forma de amor que não exige justificativas. Estudos universitários dedicados ao romance já sublinharam essa dimensão de «romance de formação», construído em torno da relação entre o adolescente e seu animal.
Em nome da fidelidade
A literatura, há muito, conhece personagens que encontram no animal uma verdade que os homens perderam. Pensamos no Colóquio dos Cães de Cervantes, nas relações ambíguas entre o homem e o animal em Kafka, ou em Flush, de Virginia Woolf.
Mas Manaï desloca essa tradição para uma questão política muito contemporânea, isto é, revela a nossa maneira de tratar os animais pela nossa maneira de tratar os humanos?
Bella pertence aos fracos. O garoto também. Ambos são julgados incômodos por um mundo organizado em torno da força, da autoridade e das aparências. O animal, de certa forma, funciona como um espelho. O que os adultos acusam Bella—sua sujeira, sua presença, sua diferença—se assemelha ao que acusam no garoto, por sua fragilidade, por sua recusa em conformatar-se, por sua incapacidade de entrar docilmente no papel que lhe é atribuído.
O romance faz circular, assim, a violência entre vários espaços. Começa na intimidade familiar, estende-se pela rua, atravessa as instituições e retorna sob uma forma mortífera. Um estudo dedicado ao romance vê justamente nessa relação entre o homem e o animal uma reflexão sobre a crueldade humana, a violência contra o vivo e a nossa maneira de habitar o mundo.
O pai ocupa, nessa mecânica, um lugar central. Ele representa uma determinada concepção de poder, aquele que manda porque é pai, aquele que decide porque é o mais forte, aquele cuja palavra não admite contestação. Diante dele, o garoto, no começo, só tem a fuga, os livros e a imaginação.
A leitura oferece a ele um território interior. Ele descobre que as palavras podem fornecer aquilo que o ambiente lhe nega. Esse espaço conferido aos livros não é inocente. Em «Bel Abismo», ler já é resistir. O garoto compreende progressivamente que quem detém as palavras detém uma forma de liberdade.
É possivelmente por isso que sua palavra, uma vez confinado, se torna tão abundante. Ele foi fisicamente reduzido a uma cela, mas responde com uma fala que transborda.
O título, por si, concentra essa contradição. «Bel Abismo». A beleza e a queda reunidas em duas palavras. Bella está ao lado do belo. Ela é o elo, a confiança, a fidelidade. O abismo é aquilo que se abre ao redor dela como a família, a sociedade e o adolescente que descobre que a única relação verdadeira que ele possui pode ser retirada pelaqueles que pretendem saber o que é bom para ele.
Poderíamos então aproximar o romance da tradição do absurdo de Camus. Em O Mito de Sísifo, assim como em O Estrangeiro, o homem se vê diante de um mundo que não lhe oferece uma resposta satisfatória. Em Manaï, porém, o absurdo assume uma forma social.
E é isso que confere à ausência de Bella um significado tão decisivo. Enquanto ela existe, o garoto mantém um vínculo com algo de puro. Ela constitui seu último espaço de confiança. Sua morte destrói a última possibilidade de um mundo diferente.
Bella é morta em nome de um discurso de proteção, mas a violência que se queria impedir já estava instalada nas relações humanas. O garoto não a inventa. Ele a herda.
Essa ideia confere ao romance uma abrangência que vai além da Tunísia. Mas o mecanismo é mais amplo. Em toda parte, as sociedades produzem suas crianças frágeis, depois se espantam com a raiva delas. Exigem que os humilhados permaneçam dignos, que os pobres permaneçam pacientes, que os fracos permaneçam em silêncio. Depois, elas se indignam quando, um dia, alguém responde.
Há, por fim, em «Bel Abismo», uma reflexão ecológica que poderia passar despercebida por trás da intriga. A crueldade contra Bella não está separada do desprezo pelo ambiente e pela pobreza descritos no romance.
O homem que maltrata o animal pertence ao mesmo sistema daquele que degrada o seu meio. A violência contra o vivo e a violência contra os mais vulneráveis derivam de uma mesma lógica de dominação. O estudo de Keith Moser aproxima justamente o romance das preocupações ecológicas já presentes em L’Amas ardent, outro romance de Manaï.
O mérito de Yamen Manaï está em não responder a essa questão com uma moral pronta para uso. Ele deixa um garoto falar. Sua palavra é por vezes excessiva, injusta e violenta. Não é sempre confortável. Mas obriga a permanecer junto de alguém que poderíamos ter condenado rápido demais.
Bella, ela, permanece no centro de tudo. Cadela abandonada, companheira de uma criança humilhada, figura de fidelidade num universo de traições, ela é, no fim, a medida de uma sociedade que afirma proteger seus membros, enquanto sacrifica os mais frágeis.
Sua ausência aprofunda o abismo do título. E nesse abismo, não é apenas um adolescente que Yamen Manaï nos pede para observar. É o mundo que o fabricou.
Amadou KEBE
