Hoje, Albert Camus morreu. A frase seria digna de Meursault, exceto que Camus, ele, provavelmente acharia a situação um pouco irônica. O homem que passou a vida a escrever sobre o absurdo, a morte, a liberdade e a revolta acabou por receber o Nobel de Literatura em um smoking alugado, em Estocolmo, enquanto a sua esposa Francine vestia um vestido para a ocasião. O acaso, de fato, tem o sentido da encenação. Sob as luzes douradas da Academia Sueca, Camus falava, no entanto, de algo muito menos cerimonial: a responsabilidade do escritor diante dos homens e de sua época. Da Argélia pobre de sua infância às ruas de Orã atingidas pela peste, do Sísifo condenado a empurrar a pedra ao homem revoltado que se recusa a sacrificar o semelhante por uma ideia, Camus passou a vida buscando como viver num mundo que não oferece respostas, com a única certeza de que a morte, ela, nunca falha um encontro.
Em 10 de dezembro de 1957, Estocolmo encontrava-se coberta de frio quando Albert Camus recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Ele tinha quarenta e quatro anos e, nesse dia carregado de cerimônias, havia um homem vestindo um smoking que ele alugara, enquanto Francine, sua esposa, vestia um vestido para a ocasião. Anos mais tarde, a filha Catherine lembraria desses detalhes com a afetuosa precisão das memórias familiares, conferindo à cerimônia uma humanidade que as fotografias oficiais não podiam conter. Camus chega a Estocolmo com a glória que a Academia Sueca lhe oferece, mas também com tudo o que antecedeu essa consagração. Ao tomar a palavra diante da Academia Sueca, Camus fala com o coração de um homem que sabe que a literatura não constitui um território privado e que uma obra pertence também àqueles a quem carrega feridas, esperanças e silêncios. Ele pensa em seus mestres, em seus companheiros de resistência, nos escritores que o precederam e naqueles que trabalharam na sombra sem conhecer as honras. «A arte não é uma alegria solitária», afirma ele, e essa frase resume uma concepção inteira do escritor, chamado a entrar na comunidade dos homens, a participar de seu destino sem renunciar à liberdade da sua consciência. A cerimônia se encerra, os aplausos se dispersam, o smoking voltará ao dono, as fotografias entram nos arquivos e o discurso retornará às bibliotecas. Mas o pensamento de Camus retorna imediatamente para uma interrogação mais antiga, aquela que acompanha sua obra desde «O Mito de Sísifo»: como viver quando o mundo não dá respostas à nossa busca de sentido? Para entender essa interrogação, é preciso voltar a Argel.
O avesso e o direito
O homem conhece o seu fim e é precisamente esse conhecimento que confere, a cada instante, um valor especial. Sísifo empurra a rocha, a pedra desce novamente e o seu trabalho recomeça, sem realização definitiva nem repouso prometido no topo. No entanto, Camus pede que se imagine Sísifo feliz, não porque estaria resignado à sua má sorte, mas porque possui a consciência do seu destino. Ele sabe o que o aguarda e retoma a sua marcha, mestre desta existência que não lhe oferece qualquer consolação externa. A luz mediterrânea pertence a essa filosofia. Agnès Spiquel, uma das grandes especialistas de Camus, trabalhou, entre outras coisas, essa aliança entre o absurdo e a afirmação da vida. Em Camus, a consciência da morte acompanha uma vontade intensa de viver, e a beleza não vem apagar a tragédia; ela lhe confere uma profundidade nova. O absurdo abre outra questão, a da ação. O que fazer quando o mundo não garante nem justiça nem sentido? Em «O Homem Revoltado», Camus responde pela revolta, esse recusa da humilhação, da opressão e da violência que pretende dispor do indivíduo. Aquele que diz não por si próprio reconhece no outro a mesma dignidade e transforma seu recusa individual numa exigência coletiva. «Eu me revolto, então somos nós», escreveu ele, conferindo à revolta uma dimensão fraterna. Jean-Yves Guérin sublinhou a importância dessa dimensão política no itinerário de Camus, desde a Resistência até ao jornalismo, de Combat aos debates sobre o comunismo e aos choques em torno da Argélia. É aqui que se situa um dos grandes conflitos de Camus com a sua época e com Sartre. O desacordo deles envolve a violência, a revolução, o comunismo e os direitos que a História pode reclamar sobre os indivíduos. Camus recusa que um futuro supostamente melhor sirva de justificativa para as mortes do presente, que uma causa justa possa dar o direito de sacrificar homens em nome de uma verdade superior. Michel Onfray insiste nessa dimensão em «A Ordem Libertária, a vida filosófica de Albert Camus», onde defende a figura de um Camus libertário, apegado à liberdade, à medida e à vida concreta, profundamente hostil aos sistemas que submetem o indivíduo a uma verdade coletiva. «A Peste» dá a essa pensamento o rosto mais humano. Em Orã, uma doença aprisiona uma cidade, separa as famílias e transforma os mortos em números, enquanto o médico Rieux trabalha entre os doentes sem conhecer o sentido da epidemia nem saber se a vencerá. Ele cura porque um homem sofre diante dele, sem esperar uma justificação metafísica para o seu trabalho e sem exigir da dor uma explicação antes de tentar aliviá-la. Essa convicção adquire uma dimensão dolorosa quando se trata da Argélia.
Elegia camusiana
Camus pertence a esta terra não apenas pelo nascimento, mas pela memória e pelo corpo; conhece a sua luz, a pobreza e as injustiças do sistema colonial, contudo a guerra de independência coloca-o numa posição que não satisfaz nem uns nem outros. O apego à sua mãe, as suas posições sobre a violência e as hesitações quanto à independência alimentam as críticas que lhe são dirigidas. Em 4 de janeiro de 1960, Albert Camus morre num acidente de carro em Villeblevin. Tinha quarenta e seis anos. No compartimento de choque encontra-se o manuscrito de «O Primeiro Homem», o livro no qual ele retorna à sua infância, à mãe, ao pai desaparecido, à escola e a essa pobreza que marcara seus primeiros anos. A morte interrompe-o justamente quando ele retorna ao seu começo, como se o escritor, depois de percorrer o mundo, as guerras, as ideologias e as honras, tivesse voltado a buscar a criança que fora. Essa imagem tem uma força singular. O escritor, celebrado três anos antes em Estocolmo, coberto de honras, passa agora a trabalhar sobre o menino pobre de Argel, retorna à mãe que não lia seus livros, ao pai de quem quase não se lembra, às ruas e aos silêncios de sua infância. A glória literária dissolve-se diante dessa busca íntima e o manuscrito sobreviverá ao homem, enquanto o romance permanecerá inacabado. Camus oferece uma forma de permanecer de pé. Quando a pedra desce de novo e tudo recomeça, ainda resta a possibilidade de empurrá-la. É aí que reside a elegia camusiana, na fidelidade a uma vida que ele conhecia o fim, no amor pelo mundo sem ilusões sobre o mundo, na vontade de servir aos homens sem jamais dominá-los por uma ideia.
Por Amadou KÉBÉ
