Um piloto de uma grande companhia aérea nacional, que prefere manter o anonimato, ajuda a perceber o que se passou no domingo à noite no Aeroporto do Porto. A análise aponta para um encadeamento de fatores que se cruzaram sob chuva intensa, luzes em alta intensidade e uma aproximação que acabou por se alinhar com a via de circulação paralela à pista.
O encadeamento de fatores
No contexto de um incidente aeronáutico, quase nunca há uma única causa. É, regra geral, um conjunto de pequenas falhas e más perceções que se acumulam sob pressão operacional. No domingo, a chuva forte e a visibilidade degradada criaram um ambiente propício a erros de perceção.
Segundo o piloto, o avião envolvido terá alinhado, por engano, com a via de circulação paralela, numa aproximação noturna com luzes de pista em alta intensidade. Ao aperceber-se do equívoco, a tripulação executou uma remissão de potência e voltou a subir, evitando uma possível incursão de pista com outra aeronave da easyJet em fase de rolo.
Chuva, brilho e a “armadilha” luminosa
Com chuva, a balizagem luminosa em alta intensidade pode criar um efeito de encandeamento incomodativo. A água nas superfícies e no para-brisas multiplica os reflexos, e as luzes parecem ainda mais fortes, causando aquilo a que muitos pilotos chamam “o buraco negro” no campo de visão. Nessa situação, a referência visual mais brilhante pode “puxar” o olhar para o sítio errado.
“Em noite chuvosa, se a balizagem estiver no máximo, é muito fácil ficar ofuscado,” explica o comandante. “Se o piloto não levantar a cabeça a tempo e não cruzar os instrumentos, o erro pode passar despercebido por segundos cruciais.”
Gestão da iluminação e decisões no cockpit
A intensidade das luzes de pista pode ser ajustada a pedido do piloto ou por iniciativa do controlo de tráfego. Em condições de chuva e noite, é muitas vezes recomendável reduzir um ou dois níveis, mitigando o brilho. Ainda assim, nada substitui a disciplina de confirmar a pista com instrumentos e cruzar o alinhamento do localizador com referências externas de forma iterativa.
Quando o erro é detetado, a manobra de arremetida é a atitude mais segura. É um procedimento normal, treinado e sem qualquer estigma, precisamente para quebrar a cadeia de erros antes que chegue ao ponto de não retorno.
Papel da torre e a responsabilidade última
A torre de controlo dispõe de radares e de uma visão privilegiada do movimento no solo e no ar, mas a separação e a condução segura do voo são, em última análise, responsabilidade do comandante. “Os controladores podem e devem levantar dúvidas, pedir confirmação do alinhamento e, se necessário, ordenar uma arremetida,” nota o piloto. “Mas penalmente e operacionalmente, quem responde pelo avião é o piloto.”
No Porto, a proximidade entre a pista e a via de circulação paralela, combinada com chuva e brilho, pode dificultar a discriminação visual. Uma chamada de atenção precoce da torre pode ajudar, mas a prevenção começa sempre no cockpit, com a verificação cruzada de procedimentos.
Quão perto estivemos do pior
Os relatos sugerem que a separação foi curta, mas a decisão de arremeter evitou uma colisão. “Tivemos muita sorte,” admite o comandante. “Se um avião se tivesse posado sobre outro, com combustível e estrutura sob carga, o risco de incêndio e perdas humanas seria enorme.”
Este tipo de cenário remete para a tragédia de Tenerife em 1977, onde nevoeiro, más comunicações e decisões precipitadas levaram dois 747 a chocarem na pista, provocando 583 vítimas. As lições desse acidente sublinham a importância da clareza de comunicações, da confirmação visual e da ação assertiva quando algo não bate certo.
O que vai investigar-se
As autoridades vão procurar uma visão completa: gravações de torre, dados de voo, meteorologia local, configurações de iluminação e o desempenho humano de todos os intervenientes. Interessa perceber se a tripulação introduziu a referência de pista correta, se houve confusão com a via paralela, e se a intensidade luminosa foi adequada às condições.
Pontos-chave que os investigadores costumam analisar:
- Configuração e intensidade das luzes de pista face à meteorologia do momento.
- Coordenação entre cockpit e torre, incluindo chamadas de atenção e leitura de radar.
- Respeito pelos mínimos operacionais, uso de instrumentos e disciplina de arremetida.
- Fadiga, carga de trabalho e fatores humanos na tomada de decisão.
Como evitar a repetição
A prevenção passa por formação contínua em ameaças e erros, ênfase na gestão de iluminação e no “aviate, navigate, communicate”. Para os aeroportos, é útil rever políticas de intensidade em noite chuvosa e reforçar a sinalização que distingue pista de via paralela. Para as companhias, checklists de aproximação que incluam uma confirmação explícita da pista e do eixo, com chamada cruzada entre piloto e copiloto.
Em voo, uma arremetida é sempre mais barata do que um incidente. E no domingo, a decisão rápida e a disciplina de procedimentos fizeram toda a diferença entre um grande susto e uma tragédia evitada.
