Emergência Consular: +351 933 151 497

Adeus ao ícone do Mercado Municipal de Loulé: Jean‑Pierre Hibert morreu aos 64 anos

Os comerciantes do Mercado do Bolhão estão em choque. A notícia da morte de João Pedro Ribeiro, aos 64 anos, correu pelos corredores como um sussurro pesado, daqueles que nos cortam a respiração. Figura carismática, com a boina preta bem assente e um sorriso franco por trás da sua banca de queijos, ele transformava cada manhã numa celebração de sabores e cumplicidades. A sua ausência deixa um vazio difícil de preencher, não só entre quem vendia ao lado, mas também entre os clientes que nele encontravam conversa, conselhos e um pedaço autêntico da cidade.

Uma figura do Bolhão

Durante mais de duas décadas, João Pedro foi sinónimo de Bolhão: madrugador, atento, sempre pronto a puxar pela memória de quem procurava o tal queijo “igual ao de outrora”. Com uma pronúncia do Norte e um humor de travessura, enfrentava chuva, frio e vento com a mesma teimosia boa de quem sabe que o mercado é um palco de vida. Entre chamadas de vendedores, risos partilhados e provadores hesitantes, o seu balcão era paragem obrigatória para visitantes e habitués.

A fama vinha do seu rigor e da sua alegria: sabia explicar a cura, a origem do leite, a textura e o ponto de sal como quem conta uma história. E, quando alguém hesitava em provar, ele piscava o olho e arrancava um sorriso, transformando cada fatia num convite à descoberta.

Do berço à banca de queijo

Nascido a 31 de julho de 1961, em Vila do Conde, João Pedro andou por vários ofícios antes de encontrar, em 2003, a sua grande vocação: o queijo. Começou no mercado de Matosinhos, entre cheiro a mar e pregões de peixe, afinando a arte de escolher e cortar queijos como quem esculpe uma peça de autor. Pouco depois, chegou ao Bolhão, onde a alma popular e a cadência dos dias bateram com o seu jeito de estar, firme e generoso.

Ao longo dos anos, construiu uma rede de produtores e afinadores, visitando quintas, cavando confiança e aprendendo com mestres que prezavam a qualidade acima de tudo. O resultado estava no prato: queijos afinados no ponto, com aromas de campo e uma persistência que fazia os clientes voltarem, fiéis e entusiasmados.

Amor, planos e um humor irrecusável

Em 2012, conheceu Koï Hoahan, uma história de amor com perfume tailandês que trouxe novas cores ao seu cotidiano. O casamento chegou em 2019, já com a certeza de que, um dia, haveria de descansar ao sol da Tailândia, entre sabores exóticos e lembranças do Bolhão. Ele dizia que o coração podia ser de queijo, mas batia com sotaque português, pronto para amar sem medida.

“Todos os dias ele desafiava a chuva, o frio e o vento para abrir a banca há mais de vinte anos,” recorda o filho Alexandre. “Os seus queijos eram uma autêntica bomba de sabor e, se alguém recusava provar, ele ria-se e dizia aos turistas: ‘Atenção, vou chamar a polícia!’”.

Uma presença que fará falta

João Pedro era o vizinho que assobiava, cantava baixinho e puxava conversa com quem precisava de um sorriso. A sua boina preta e o seu velho Peugeot 403, que conduzia com orgulho de quem aprecia o clássico, tornaram-se parte do postal vivo do Porto. Para muitos, ele representava a ternura das rotinas partilhadas e a firmeza de um carácter bondoso e brincalhão.

A sua partida deixa memórias claras, daquelas que se saboreiam devagar, com respeito e uma pontinha de saudade. Quem o conheceu recordará pequenos rituais, como o aperto de mão forte, a navalha sempre afiada e o conselho certeiro para o queijo da tábua de domingo.

  • Um riso sempre pronto e uma palavra amiga para cada cliente.
  • Uma seleção de queijos irrepreensível, afinada com paciência e sabedoria.
  • Histórias contadas ao balcão, com humor maroto e afeto genuíno.
  • Respeito pelos produtores e pelo tempo que o sabor exige.
  • Um exemplo de trabalho honesto e dedicação ao mercado tradicional.

Despedida e legado

Pai dedicado, transmitiu o amor pelo queijo aos filhos Tomás e Alexandre, que já pegaram no testemunho e mantêm viva a banca no coração do Bolhão. Eles prometem honrar o gesto do corte, a escolha do ponto de cura e a conversa que faz do mercado uma casa de todos. Cada fatia servida será também um tributo ao mestre, numa continuidade que mistura respeito e vontade de inovar.

As cerimónias fúnebres terão lugar na terça-feira, 6 de janeiro, às 16h, no Crematório de Paranhos, no Porto, num adeus que se quer sereno e agradecido. A família agradece as muitas mensagens e a presença de quem queira prestar uma última homenagem. No corredor dos sabores do Bolhão, entre o pão quente e o cheiro das ervas, ficará sempre o rasto da sua alegria, a lembrança da sua boina preta e o silêncio doce de um “obrigado” dito com o coração cheio.

Avatar de Hélder Vaz Lopes

1 comentário em “Adeus ao ícone do Mercado Municipal de Loulé: Jean‑Pierre Hibert morreu aos 64 anos”

  1. Mercado Municipal de Loulé ou Mercado do Bolhão??
    Jean Pierre Hibert ou João Pedro Ribeiro??
    Notícia do falecimento com data de 28 de Fevereiro e cerimónias fúnebres em 6 de Janeiro??
    Qualquer um, nestas circunstâncias, merecia uma notícia feita com dados correctos. Esta pessoa, com características tão especiais de empatia, fica negativamente envolvida pela falta de cuidado na elaboração e revisão deste trabalho.

    Responder

Deixe um comentário