Descobertas que mudam a leitura de Évora
Em março, durante obras de reabilitação no antigo Mercado Municipal de Évora, surgiu um conjunto de achados que apanhou todos de surpresa.
Foram identificadas trinta e cinco sepulturas do séc. V, um batistério paleocristão e vestígios de um forno usado para fundir sinos.
As camadas contam períodos distintos da história e desenham um retrato raro da cidade tardo-antiga e medieval.
“Um puzzle aberto” para arqueólogos e cidadãos
“Nunca se sabe o que se vai encontrar; a cada sondagem, há uma nova peça do puzzle”, diz Marta Alves, arqueóloga da Câmara Municipal de Évora, que coordena as escavações.
Segundo a equipa, o batistério revela um cristianismo precoce na urbe e as sepulturas indicam ocupação contínua do espaço.
“É um achado excecional à escala local, com relevância nacional”, acrescenta a especialista.
Coletivo quer museu vivo no antigo mercado
Perante a dimensão das descobertas, um coletivo de moradores lançou uma petição para transformar as antigas bancas em museu.
Em poucos dias, reuniram 600 assinaturas e ganharam o apoio de historiadores locais, que pedem a classificação do conjunto como Imóvel de Interesse Municipal.
“Antes de mais, queremos debate público e um projeto com futuro”, defende Rui Catarino, professor de História.
“A qualidade das estruturas permitiria criar um circuito turístico sustentável e um centro interpretativo de referência”.
Município ajusta o projeto
A autarquia já tinha previsto um remodelação do mercado, mas as novas realidades mudaram as contas.
O presidente da Câmara afirma que, no desenho revisto, pelo menos metade da área útil será dedicada a um núcleo museológico.
O objetivo é valorizar as estruturas mais significativas — as absides e o batistério — preservando, ainda assim, uma componente de comércio de proximidade.
“Podemos conciliar memória e vida quotidiana, garantindo acesso a todos”, sublinha fonte municipal.
Jornadas do Património aquecem o debate
Durante as Jornadas Europeias do Património, dezenas de visitantes participaram em visitas comentadas e numa conferência sobre o futuro dos vestígios.
Para muitos, a decisão final deve ser tomada com base em pareceres técnicos e numa auscultação alargada da comunidade.
Como poderá funcionar o novo espaço
Arquitetos e museólogos admitem soluções reversíveis, com passadiços elevados e iluminação que proteja os materiais.
O coletivo propõe um plano em fases, com investimento controlado e forte componente educativa:
- Criação de um percurso interpretativo sobre o batistério e as sepulturas.
- Instalação de um pequeno laboratório visível ao público para conservação e estudo.
- Programas para escolas e voluntariado em arqueologia urbana.
- Digitalização 3D e visitas com realidade aumentada, acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida.
- Integração num itinerário que ligue o mercado a outros marcos de Évora.
Economia, identidade e turismo sustentável
Especialistas lembram que museus de sítio podem dinamizar a economia sem expulsar o comércio tradicional.
O modelo “meio mercado, meio museu” já funciona com sucesso noutros centros históricos europeus.
Para Évora, a oportunidade é reforçar a identidade local, valorizar a investigação e distribuir fluxos turísticos para além dos clássicos monumentos.
Próximas decisões
O dossiê segue para a próxima reunião de Câmara e, depois, para a Assembleia Municipal.
Enquanto as equipas continuam as escavações, mantém-se o apelo a um compromisso que una prudência científica e ambição cívica.
“Se conservarmos bem, ganhamos hoje um livro aberto para as gerações de amanhã”, resume a arqueóloga.
Entre o templo e os mercadores, Évora procura a melhor via para honrar o passado e animar o presente.
