O Dr. Diomaye Faye, professor-pesquisador em geopolítica, especialista na política africana, das ciências políticas e da política externa, tendo lecionado em várias universidades norte-americanas, entre elas o City College de New York, retorna nesta entrevista para discutir a necessidade de redefinir os conceitos de panafricanismo, unionismo e continentalismo. Para quem se define como panafricanista, unionista africano e continentalista, essa empreitada é indispensável para o surgimento de uma entidade supranacional capaz de restabelecer a soberania da África e conduzir seu renascimento.
Você conduziu, no dia 22 de julho passado, em Dakar, uma conferência pública sobre “Panafricanismo, unionismo africano e continentalismo: três ideologias distintas, mas complementares”. Pode nos dizer as especificidades desses conceitos?
Constatamos muita confusão entre o unionismo africano, o panafricanismo e o continentalismo. O unionismo africano é uma ferramenta para alcançar os objetivos do panafricanismo. O Prof. Cheikh Anta Diop havia teorizado isso ao indicar que o objetivo do panafricanismo é caminhar rumo ao renascimento africano. É preciso ser independente para alcançar a soberania africana e impor-se na esfera internacional. A tomada de consciência do panafricanismo serve para nos fazer respeitar como africanos. O panafricanismo serve ao unionismo e vice-versa. O unionismo e o panafricanismo se completam. Por outro lado, o continentalismo fortalece as capacidades do unionismo africano. Do ponto de vista econômico e de segurança, é preferível ter todo o continente reunido para influenciar nas grandes decisões do mundo.
Qual é a sua visão sobre o panafricanismo, que você definiu como uma tomada de consciência da solidariedade panafricana frente à necessidade do unionismo?
O panafricanismo é a tomada de consciência de uma solidariedade entre pessoas negras e também da necessidade de proteção para os negros. O panafricanismo alcançará seu objetivo quando os negros tiverem controle total sobre um Estado que seja suficientemente forte para figurar no mapa geopolítico mundial e negociar de igual para igual com as outrasPotências. O panafricanismo visa restaurar a soberania das pessoas negras. Ele se define pela luta contra o neocolonialismo. O alvo principal do panafricanismo é o sistema neocolonial, um sistema político que se impôs a nós. Devemos saber que o objetivo do panafricanismo também é estabelecer vínculos com a diáspora africana. Na diáspora, as pessoas negras nasceram africanas: temos Afro-americanos nos EUA, Afro-brasileiros no Brasil e Afro-cubanos em Cuba.
Qual é a sua visão sobre a Aliança dos Estados do Sahel (AES)?
Estamos diante de uma certa tentativa de implementação do unionismo africano. Mas enquanto não for criado um grande Estado federal africano, nossos micro-Estados ficarão condenados à impotência diante das iniciativas das grandes potências. Sem essa unificação, não pode haver restauração da dignidade dos negros nem renascimento africano.
Beaucoup d’analystes estiment que le panafricanisme, brandi aujourd’hui dans plusieurs pays pour justifier un État fort et autoritaire, est aux antipodes du projet panafricain originel, qui était fondamentalement anti-despotique. Comment analysez-vous cela?
O panafricanismo não é um conceito anti-despótico. Pode-se estar à frente de um regime autoritário e ser panafricanista. São duas coisas distintas. Tivemos Jean-Jacques Dessalines (nota: pai da independência haitiana de 1804) que foi um panafricanista. O panafricanismo é a consciência de que os negros devem ser reconhecidos em sua dignidade. O despotismo e a ditadura são modos de sistema político que não têm relação com o panafricanismo. É a soberania que pode ser associada ao panafricanismo.
A ascensão do soberanismo e do populismo em muitos países africanos é uma ameaça para a realização de um projeto de Estado federal africano?
À luz do que ocorre no Níger e no Mali, pode-se dizer que a juventude africana é fundamentalmente soberanista. Os jovens sentem que, se não houver emprego ou se estiverem na precariedade, é por falta de soberania. Durante esse período, podem ser influenciados por qualquer pessoa. No Mali, os militares enfatizaram o sentimento soberanista para se atribuírem uma certa legitimidade. Ao se proclamarem soberanistas, captaram assim a aprovação popular. Contudo, não conseguem formar um bloco viável, pois estão cercados. A África Ocidental Francesa (AOF), no pós-independências, poderia ter sido um Estado viável. Poderia desenvolver-se com economias complementares. Já os países da AES, que são enclave, têm dificuldade de sobrevivência.
Des entités régionales comme la CEDEAO, la CEMAC, l’EAC ou la SADC, supposées favoriser l’intégration économique et la sécurité dans leurs zones, font face à des difficultés. Cela ne remet-il pas en cause la théorie des cercles concentrisches qui devait nous conduire vers le grand État fédéral africain ?
Entidades regionais como a CEDEAO, a CEMAC, a EAC ou a SADC, supostamente destinadas a favorecer a integração econômica e a segurança em suas zonas, enfrentam dificuldades. Isso não põe em xeque a teoria dos círculos concêntricos que deveria nos conduzir ao grande Estado federal africano?
Quand on regroupe des entités viables et souveraines, elles peuvent s’insérer dans une grande union économique. Mais quando se tomam micro-Estados como é o caso na África, isso pode funcionar com dificuldade. Nossos Estados não dispõem dos meios para conduzir suas políticas, então, quando decidimos formar uma zona econômica, isso não muda muito. Além disso, são entidades vulneráveis que vivem permanentemente com o risco de golpe de Estado. As entidades mencionadas são frutos do unionismo econômico. Em última análise, não há uma construção política que as una. Não se fala de um governo da África Ocidental ou da África Central. Esses espaços, como a CEDEAO, a CEMAC ou a SADC, possuem programas econômicos, mas sofrem com a ausência de uma administração e de um aparato para organizá-los.
Pensez-vous que des programmes tels que la Zlecaf et l’Agenda 2063 de l’Union africaine peuvent faciliter la relance du projet panafricain ?
Essa aspiração resulta do unionismo, onde existem três grandes correntes: existem os unionistas culturais, como os kemítistas, que defendem o retorno aos valores culturais africanos. Também existem unionistas que acreditam na necessidade de construir um grande conjunto econômico para avançar na integração africana. A Zlecaf e o Plano de Lagos são programas econômicos. A Agenda 2063 é fruto dos unionistas econômicos. Mas, para Cheikh Anta Diop, é como colocar a carroça na frente dos bois. É necessário um aparato político para coordenar os grandes conjuntos econômicos.
Entrevista realizada por Mamadou Makhfouse NGOM
