E se a população fosse um fator de desenvolvimento? Essa pergunta é legítima hoje, quando os países mais populosos detêm peso econômico, diplomático e estratégico significativo. Ainda mais, durante muito tempo, tentaram nos convencer de que uma população numerosa poderia frear o desenvolvimento econômico. De fato, uma população grande pode constituir um poderoso motor de crescimento. Trata-se de um grande mercado interno do qual uma economia nacional pode se utilizar para prosperar. É o dividendo demográfico. O exemplo de vários países corrobora essa tese. A China representa o exemplo mais completo de uma transformação demográfica em potência econômica. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, o Império do Meio soube converter seu imenso contingente de mão de obra em motor industrial mundial. A população, então, tornou-se uma vantagem comparativa decisiva, permitindo uma industrialização rápida e o surgimento de uma ampla classe média.
Também como consumidores. Hoje, a China é a segunda maior potência econômica mundial e almeja dominar setores tecnológicos estratégicos. A Índia segue uma trajetória diferente, mas igualmente reveladora. Com seus 1,4 bilhão de habitantes, ligeiramente à frente da China, o país mais populoso do mundo dispõe de um imenso potencial graças a uma população jovem e dinâmica. Contudo, ao contrário da China, seu desenvolvimento depende mais de serviços, das tecnologias digitais e da inovação. O desafio indiano, portanto, consiste em transformar seu dividendo demográfico em um verdadeiro motor de prosperidade inclusiva. No entanto, o país faz parte das economias emergentes.
Ainda na Ásia, a Indonésia, quarto país mais populoso do mundo, ilustra, por sua vez, a ascensão gradual de uma potência intermediária. Graças à sua estabilidade relativa, aos recursos naturais e ao crescimento de sua classe média, ela tem experimentado um crescimento sustentado há várias décadas. Seu vasto mercado interno atrai investimentos diretos estrangeiros e favorece a industrialização. Da mesma forma, a Turquia e o Brasil demonstram que uma população expressiva pode sustentar o surgimento de grandes economias regionais.
Na África, a questão demográfica revela-se ainda mais determinante. E os países mais desenvolvidos, aqui, são, em menor grau, os mais populosos. É o caso da Nigéria, com mais de 220 milhões de habitantes, do Egito, da Etiópia, da Tanzânia, do Quênia ou do Gana. Além disso, dois desses países, a saber o Egito e a Etiópia, juntaram-se recentemente ao grupo dos BRICS. Nos países populosos, um empreendimento vencedor pode tornar seu proprietário rico da noite para o dia, apenas confiando no mercado interno. De fato, a população é também uma importante fonte de arrecadação para um país. A cobrança de um imposto de 18%, por exemplo, aplicado a um mercado de 1,4 bilhão de consumidores, como ocorre na Índia ou na China, é amplamente superior à mesma taxa aplicada a 19 milhões de consumidores, como no Senegal, ou a 500 mil habitantes, isto é, a população de um país como Cabo Verde.
A primeira arrecadação pode construir várias infraestruturas estruturantes, como portos, aeroportos, estradas e ferrovias; enquanto a segunda mal consegue servir para erguer um hospital moderno. E aí está toda a diferença. Além disso, entre os quinze países com o maior número de bilionários, encontramos cinco com uma população relevante. Trata-se da China, da Índia, do Brasil, da Indonésia e da Tailândia. Ou seja, uma população robusta pode favorecer o crescimento por meio da abundância de mão de obra, do consumo interno e da inovação. Contudo, é preciso reconhecer que o envelhecimento demográfico e a queda da taxa de natalidade demonstram que, se não houver renovação adequada da população, ela também pode se tornar um fator de desaceleração.
