Como passar de um imaginário desejável à sua materialização? Esta pergunta está no cerne da última obra de Felwine Sarr, « A fábrica do presente », publicada pelas Edições Philippe Rey/Jimsaan. O autor apresentou a obra ao seu público senegalês durante uma cerimônia organizada, no sábado, 6 de junho, na livraria 4 Vents, em Dakar.
Felwine Sarr apresentou ao seu público senegalês sua última obra « A fábrica do presente », publicada em abril passado pelas edições Philippe Rey e Jimsaan. Após uma conversa com o universitário senegalês Ibrahima Wane, no sábado 6 de junho, em Dakar, durante a qual comentou os diferentes capítulos do livro, o autor respondeu às perguntas do público e realizou uma sessão de autógrafos.
Para ele, esta obra é o prolongamento de uma reflexão iniciada em « Afrotopia », publicada em 2016. O processo de amadurecimento durou dez anos, mas a escrita levou apenas um ano.
« Afrotopia não era um projeto de receitas, visava ampliar o imaginário das sociedades africanas. Este novo livro pretende materializar essa utopia por meio de uma reflexão sobre presenças e futuros que estejam à altura das expectativas », explica Felwine Sarr. Em outras palavras, trata-se de passar de um processo utópico para uma máquina de transformação social, de não se deter apenas na formulação das utopias, mas de pensar a sua fabricação no presente.
Se a questão dos imaginários é importante, a da economia política é preponderante. Ao contrário do capitalismo que se apresenta como a economia política da prosperidade e do socialismo (economia política da igualdade), o desafio africano, diz ele, é edificar uma economia política da dignidade.
De forma concreta, escreve ele, trata-se de criar as condições econômicas, políticas, ecológicas e sociais para que todos os indivíduos tenham acesso aos meios de uma vida decente (capital social, proteção social, rendimentos, ativos); lhes garantir acesso à saúde, à segurança e à educação, preservar seus direitos e liberdades.
Essa economia política da dignidade deve ser articulada a uma economia do viver. Trata-se de uma economia neutra em carbono, cuja cadência de produção se ajusta aos ritmos de regeneração do biótopo e cuja ação é neguentrópica (que se opõe à entropia).
Síntese dos saberes
A questão, evidentemente, é como passar da teoria à prática? A esse respeito, Felwine Sarr acredita que é preciso fazer prova de engenhosidade econômica.
Isso significa que o caminho passa pela saída do capitalismo, como sugere o filósofo Bado Ndoye? Se essa desconexão parece difícil de imaginar nas condições atuais por causa da potência imaginária do capitalismo, o autor observa que a reflexão em direção a uma economia simbiótica – uma economia cujo metabolismo não afeta negativamente as ordens sociais, ambientais e relacionais – evoluiu bastante nos últimos anos.
A questão dos saberes endógenos voltou com força nos debates. Mas a forma de integrá-los em uma nova ordem epistemológica é uma questão muito mais complexa, reconhece o autor. No entanto, ele considera imperativo reinvestir esses saberes africanos para uma pluralidade epistemológica.
Para Felwine Sarr, a pergunta é: o que queremos nos tornar? O que, diz ele, deve nos levar a abandonar a obsessão pela identidade e a investir em novos paradigmas por meio de uma síntese dos saberes, engajando o diálogo, como sugere Edgar Morin, a partir do âmago de cada disciplina.
Ele também convoca a explorar o patrimônio africano para reinventar as formas do político e da democracia na África. No entanto, Felwine Sarr expressa discordância em relação ao caminho seguido por alguns regimes militares na África Ocidental que, em nome de um ideal revolucionário, aprisionam as liberdades.
« O caminho da libertação passa pela dignidade », insiste Sarr, lembrando que os corpos das populações africanas foram tão vulnerabilizados ao longo da história que é inconcebível acrescentar mais.
« Felwine Sarr está pronto para passar da teoria à prática ao engajar-se politicamente? », provoca um interveniente.
« O político transcende a política », responde o autor, lembrando que escrever é um ato eminentemente político. Resta saber que muitos intelectuais (Senghor, Césaire…) sucumbiram a essa tentação com destinos diversos.
A realidade, reconhece Felwine Sarr, é que os melhores pensadores nem sempre são bons políticos, porque a ação política é muito mais complexa do que a teoria.
Atuar na fábrica do presente é também refletir sobre os limites da ação. Felwine Sarr admite que falta um capítulo sobre o tema que atua. Ele promete continuar a reflexão para adicionar novos capítulos ao livro na forma de podcasts. A fábrica continua.
Seydou KA
