Produtor visionário, descobridor de talentos, construtor de um império musical entre a África, a Europa e as Caraíbas, Ibrahima Sylla deixou uma marca profunda na história da música africana contemporânea. Fundador da Syllart Records, ele contribuiu para tornar conhecidos, no cenário internacional, várias gerações de artistas vindos do Senegal, do Mali, da Guiné, da Costa do Marfim ou do Congo. Mais de quinze anos após a sua morte, a sua obra permanece, contudo, pouco conhecida do grande público…
No final dos anos 1970, Paris era um dos grandes entrepostos das diásporas africanas. Nos cafés, estúdios e salas de concerto, os ritmos vindos de Dakar, Bamako, Abidjan ou Kinshasa entrelaçam-se com sonoridades afro-cubanas e influências ocidentais. Foi nesse contexto de efervescência que um jovem produtor senegalês, formado em gestão pela faculade Tolbiac, Ibrahima Sylla, decidiu estruturar esse borbulhar musical. Em 1980, ele fundou em Paris a Syllart Records, um selo que viria a tornar-se um dos pilares da música africana moderna. Nascido em 1956 em Kaolack, no Senegal, numa família maraboutique à encruzilhada de culturas oeste-africanas, Ibrahima Sylla cresceu num ambiente marcado pela circulação de sons entre a África e a diáspora. A aventura Syllart nasceu da paixão de Ibrahima Sylla. Fascinado pela música cubana, esse jovem produtor senegalês mudou-se para Paris em 1974 com a ambição de fazer brilhar as sonoridades africanas muito além do continente.
Em 1978, ele abriu « Kubaney Music », uma pequena loja de discos situada na rue de Rocroy, em Paris. Rapidamente, o local tornou-se um verdadeiro carrefour cultural onde se reuniam muitos membros da diáspora africana. Mais do que um simples comércio, esse espaço transformou-se num laboratório de ideias e encontros, onde amadureciam projetos que viriam a tornar-se famosos na trajetória do produtor.
Criação do grupo Africando
No mesmo ano, em Dakar, Ibrahima Sylla lança o seu primeiro selo, batizado « Jambaar », que significa « guerreiro » em wolof. Essa estrutura evoluirá alguns anos depois para se tornar Syllart Records, depois Syllart Productions, uma casa de produção que marcará de forma duradoura a história da música africana. Desde o início, o produtor acompanha formações importantes da cena oeste-africana. O selo pretende profissionalizar a produção musical africana.
Sylla aposta em estúdios de alto desempenho, arranjos sofisticados e uma qualidade sonora capaz de competir com os padrões internacionais. A sua abordagem baseia-se numa convicção forte que volta a demonstrar que as músicas africanas não devem ficar confinadas a uma categoria exótica, mas impor-se como expressões artísticas contemporâneas em pleno direito.
Ele mesmo dirá na entrevista «Le grand invité Afrique», de 24 de julho de 2011 na RFI: « Eu estou mais no artístico do que no financiamento da produção ».
Claudy Siar, na emissão « Couleurs Tropicales », lembrará que a primeira produção de álbum da Syllart data de 1979 com a Orchestra Baobab, sob a impulsão de Francis Senghor. Outro dos primeiros marcos importantes ocorre em 1987 com o álbum « Soro » de Salif Keïta. Esse disco marca a entrada da pop africana nos circuitos internacionais da « world music ». A voz singular de Keïta, aliada a uma produção moderna, abre novas perspetivas ao mercado europeu. Esse sucesso confirma ainda mais a pertinência da estratégia de Sylla.
Ao longo dos anos, a Syllart acompanhou figuras importantes da cena africana. Youssou N’Dour, então membro da Étoile de Dakar, beneficiou de um suporte estruturante nos seus primeiros anos e destacou-se com: « The birth of Mbalax » Vol 1 e 2 no período de 1979-1981. Fala-se também de Ismaëla Lo com o seu famoso « Taajaboon ». Oumou Sangaré impõe-se como uma voz feminina poderosa do Mali, impulsionada por produções que valorizam o estilo « wassoulou ». Baaba Maal, Alpha Blondy e muitos outros artistas veem a sua música cruzar fronteiras graças à rede da gravadora. Syllart desempenha também um papel determinante na difusão do « soukous » e da « rumba congolaise ». A gravadora trabalha com artistas como Nyboma, Pepe Kallé, Tshala Muana ou Madilu System, contribuindo para fazer circular esses estilos nas diásporas e nos mercados internacionais. Esta dimensão panafricana constitui uma das forças principais do catálogo. A fascinação de Ibrahima Sylla pelos intercâmbios transatlânticos concretiza-se na criação do grupo Africando na década de 1990. Reunindo músicos africanos e latino-americanos, o projeto ilustra os laços históricos entre ritmos africanos e salsa nova-iorquina.
Africando encontra um sucesso notável, notadamente nos Estados Unidos, demonstrando que a música africana pode dialogar de igual para igual com outras tradições globalizadas. No mesmo espírito patrimonial, Syllart participa da salvaguarda e reedição de arquivos importantes. A gravadora contribui para preservar catálogos históricos africanos, evitando assim o desaparecimento de tesouros sonoros gravados nas décadas pós-independência. Com projetos como « Orchestra Baobab » ou o coletivo « Kékélé », ele traz à luz estéticas por vezes esquecidas, ao mesmo tempo que as reintegra numa dinâmica contemporânea. No total, o catálogo da Syllart chega a várias dezenas de milhares de títulos, incluindo quase mil produzidos diretamente por Sylla. Fala-se de 33.000 títulos, 534 artistas produzidos e acompanhados e 1.400 álbuns produzidos em seu nome, ou seja, 100 álbuns por ano. Essa envergadura confere à gravadora um estatuto singular.
Mas, em 30 de dezembro de 2013, Ibrahima Sylla falece em Paris após uma longa doença. Seu falecimento causou uma comoção profunda no mundo da música. Muitos o descrevem como o equivalente africano de um grande arquiteto sonoro, comparável a Quincy Jones pela sua influência sobre as produções e carreiras.
Forças Principais do Catálogo
A direção da gravadora fica então a cargo de sua filha, Binetou Sylla. Nascida em 1988, ela herdou um catálogo monumental numa altura em que a indústria musical passava por uma mutação radical. Sob a sua direção, a Syllart empreende um trabalho de digitalização e de relançamento. Clássicos são recuperados em formato vinil e digital.
A gravadora desenvolve ainda compilações temáticas e abre-se às novas expressões afro-urbanas, buscando ligar o legado histórico às dinâmicas contemporâneas. Hoje em dia, enquanto as músicas africanas dominam cada vez mais os palcos internacionais, a história da Syllart surge como fundadora. Muito antes da era das redes sociais e do streaming, o selo já tinha demonstrado que uma estratégia independente, exigente e visionária podia propulsar artistas africanos para um reconhecimento mundial.
Amadou KÉBÉ
