Ela tinha 97 anos e vivia e trabalhava há meio século em um hospital psiquiátrico em Tóquio. Yayoi Kusama faleceu no dia 14 de agosto passado e a notícia da sua morte só foi tornada pública nesta noite. Artista de vanguarda, obcecada, ela havia se tornado desde os anos 90 uma das ícones mais procuradas e mais valorizadas da arte contemporânea.
A artista de vanguarda conhecida como a rainha das bolinhas, que faleceu no dia 14 de agosto, transformou suas alucinações e traumas em obras deslumbrantes que retratavam seus motivos icônicos de bolinhas, redes e infinito. Uma obsessão íntima nascida de uma fragilidade mental que, ao longo das décadas, tornou-se um dos símbolos mais lucrativos e mais poderosos da arte contemporânea.
Nascida em 1929, numa família abastada, Yayoi Kusama era adolescente quando viu um motivo de flores vermelhas desenhado em uma toalha. O desenho se solta, invade o espaço e o cobre por completo. A alucinação se repete, fragilizando sua percepção da realidade. Ela poderia ter afundado, levada por essas visões, mas transformou-as em força e em arte.
Yayoi desenha muito rapidamente a famosa abóbora coberta de bolinhas, que virá a tornar-se sua assinatura. Para ela, esse motivo decorativo é, antes de tudo, uma visão íntima da alma. Em 1958, ela muda-se para Nova York. Seu trabalho, inclassificável e vanguardista, desconcertou uma América que, mesmo aberta ao imaginário, não estava preparada para aquilo.
Internação voluntária
Ela retorna a Tóquio em 1973 para estabelecer-se voluntariamente em um hospital psiquiátrico, bem ao lado de seu ateliê. Um isolamento que se torna uma maneira de viver e trabalhar. O reconhecimento viria ainda mais tarde. Em 1993, na Bienal de Arte Contemporânea de Veneza.
A mulher de peruca vermelha encanta com suas salas de espelhos infinitos, onde as mesmas obsessões se refletem sem fim. Grandes marcas, como Louis Vuitton, passaram a explorar seu trabalho. Os mercados, tanto o de arte quanto o de luxo, admiram sua obra. Ela continua a pintar, até seus últimos dias, enclausurada no seu universo colorido.
Com a RFI
