E se a vida fosse insuportável exatamente porque ela nunca volta? Em A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera transforma essa irreversibilidade numa questão filosófica vertiginosa. O homem atravessa uma existência sem repetição, condenado a escolher sem saber o valor de suas escolhas. Entre o peso do destino e a leveza do acaso, o amor, o desejo e a morte tornam-se os lugares onde se revela toda a fragilidade do ser.
Um homem está sentado numa pequena cidade de província quando uma mulher entra em sua vida. Ela trabalha em um restaurante, ele é médico. O encontro deles ainda não carrega nenhum sinal de necessidade. Nada, nesse instante, permite adivinhar que uma existência inteira irá erguer-se ao redor dele.
Ela poderia permanecer uma desconhecida entre tantas, ele poderia retomar seu caminho, reencontrar seus hábitos, suas aventuras e essa liberdade afetiva a que ele se apegava com uma fidelidade paradoxal, enquanto ela poderia retornar à sua vida e deixar que esse encontro somasse-se às coisas esquecidas e indistintas.
Mas uma existência humana possui essa estranha peculiaridade de conferir retrospectivamente aos acasos uma aparência de destino. Quando olhamos para a nossa vida a partir do presente, temos a tendência de ordenar os acontecimentos.
Reconstruímos nosso passado como se uma lógica secreta tivesse guiado nossos passos, enquanto, no instante em que as coisas aconteciam, essa lógica nos escapava.
É nessa lacuna entre o acaso vivido e a necessidade reconstruída que Milan Kundera ergue L’Insoutenable Légèreté de l’être.
O seu romance começa com uma pergunta que remonta a Nietzsche e atinge o cerne da condição humana. O que aconteceria com a nossa existência se tivéssemos de a reviver em todos os seus detalhes, com as mesmas vidas, os mesmos encontros, os mesmos erros, as mesmas dores, sem qualquer possibilidade de modificar um único segundo?
A leveza torna‑se, então, insuportável
A hipótese do « eterno retorno » confere então ao menor ato uma gravidade absoluta. Uma decisão não seria mais um evento perdido no tempo, ela nos acompanharia pela eternidade.
Kundera inverte essa hipótese. Nossa vida não tem rascunho. A « leveza » vem daí. Uma existência que não retorna não carrega o peso metafísico de uma existência condenada a se repetir.
O que fazemos desaparece com o tempo que o produziu, nossos atos não voltam para nos cobrar contas em uma eternidade circular, somos livres porque nada se repete.
Mas essa liberdade carrega uma crueldade. Se a nossa vida não volta, nunca poderemos saber como teria sido de outra forma.
Kundera percorre o desejo de Tomas, os sonhos de Teresa, as saídas de Sabina e os ideais de Franz. A filosofia deixa de ser uma construção intelectual distante do mundo para tornar‑se uma forma de compreender por que um homem ama uma mulher, por que uma mulher sofre com a infidelidade do homem que ama, por que um ser humano foge do apego e por que outro busca desesperadamente atribuir ao amor um valor absoluto.
Tomas quer a leveza. Sua relação com as mulheres baseia‑se numa distinção que ele procura preservar por muito tempo. Ele pode desejar um corpo sem querer possuir uma existência, conhecer uma mulher sem aceitar que esse encontro se torne uma obrigação.
Seu erotismo repousa sobre uma forma de curiosidade que recusa a repetição sentimental.
Teresa chega a essa existência como uma perturbação. Ela não quer ser uma experiência entre tantas. Ela quer ser aquela que importa, de quem o amor possui uma gravidade capaz de distinguir uma relação de todas as outras.
Onde Tomas busca a liberdade de movimento, Teresa busca a profundidade de um vínculo.
Tomas busca amar sem pertencer por completo, Teresa busca amar de modo a dar à sua vida uma forma definitiva.
Um teme que o amor transforme a liberdade em servidão, o outro teme que a liberdade transforme o amor em um evento intercambiável.
Ela também explica o papel de Sabina, figura essencial para entender o pensamento de Kundera. Sabina transforma a traição numa autêntica filosofia pessoal.
Ela abandona as pertenças antes que elas se tornem prisões, recusa fidelidades impostas, símbolos que pretendem falar em nome de todos, identidades coletivas que exigem uma adesão total.
Para ela, a traição significa mais do que uma infidelidade amorosa. Sabina trai o pai, o país, seus amantes, as ideologias às quais poderia pertencer, porque quer conservar a possibilidade de romper.
Sua liberdade repousa nessa capacidade de não deixar uma pertença tornar‑se definitiva.
Mas Kundera leva essa lógica até seu ponto doloroso. Aquele que recusa todo peso acaba por descobrir o peso da leveza.
Sair protege do aprisionamento, mas partir também significa perder os lugares aos quais poderíamos retornar. Recusar os vínculos preserva a liberdade, mas essa liberdade pode acabar parecendo uma forma de solidão.
Franz, por sua vez, pertence a outra constelação. Ele ama grandes ideias, grandes movimentos, manifestações coletivas, as causas que conferem à existência uma dimensão histórica.
Ele sente a necessidade de crer que as ações humanas podem possuir uma grandeza que ultrapassa os indivíduos.
Sabina desconfia dessa grandeza. Ela vê nos grandes relatos uma maneira de simplificar a realidade.
Os indivíduos são símbolos, as contradições desaparecem por trás de uma imagem coletiva, a vida deixa de ser feita de desejos, de corpos e de fraquezas para entrar em uma representação mais nobre de si mesma.
É aqui que aparece o kitsch no romance, sem constituir o seu centro único. Kundera atribui a ele uma dimensão que vai muito além da ideia de mau gosto.
O kitsch designa uma maneira de apagar da realidade tudo o que perturba a imagem que desejamos construir dela.
Essa contradição atravessa toda a obra
O corpo, a morte, as funções fisiológicas, a vergonha, o grotesco e a contradição são afastados da cena para produzir uma representação harmoniosa da existência.
O kitsch pretende um mundo onde tudo possa ser amado sem segundas intenções. Sonha com uma humanidade reunida ao redor de uma emoção comum.
Por isso Kundera lhe atribui uma dimensão política. O poder quer que as pessoas caminhem juntas, pensem juntas, sorriam juntas, adiram à mesma representação do mundo.
Sabina compreende isso instintivamente. Sua recusa de símbolos e de grandes encenações coletivas corresponde a uma defesa do indivíduo contra imagens que querem pensar por ele.
Mas o romance ainda se opõe a qualquer solução cômoda. Sem algumas representações comuns, como poderia uma sociedade viver junta? Sem símbolos compartilhados, como formar uma comunidade?
O kitsch consola porque dá ao mundo uma forma imediatamente legível, transforma o caos da existência em imagem e evita o mal‑estar de precisar olhar simultaneamente a beleza e a trivialidade, o amor e o desejo, a grandeza e o ridicule, a fidelidade e a infidelidade.
O desfecho do romance confere a essa contradição uma doçura inesperada. Tomas e Teresa reencontram‑se numa vida rural, distante das agitações que haviam estruturado a sua existência.
As suas aspirações mudaram. A paixão já não precisa de justificativa. A vida quotidiana assume um valor que as grandes interrogações haviam impedido de ver.
Tomás, que procurava a leveza, acaba por encontrar uma forma de felicidade no peso da presença de alguém.
Teresa, que queria conferir ao amor uma gravidade absoluta, descobre uma paz que não depende mais da vitória sobre Tomás.
A ideia do eterno retorno de Nietzsche permitia imaginar uma existência em que tudo tivesse um peso infinito.
Kundera imagina o nosso mundo real, aquele em que nada retorna e onde, ainda assim, temos de atribuir valor ao que passa.
Estamos condenados a viver sem saber, sem saber se amamos corretamente, se escolhemos a pessoa certa, se a nossa partida foi necessária, se deveríamos ter ficado, se uma outra decisão teria produzido outra vida.
Mas Kundera não nos oferece nenhum consolo definitivo. Ele nos deixa com essa ideia ao mesmo tempo magnífica e terrível.
Nós temos apenas uma vida, e é precisamente por ela não se repetir que jamais saberemos qual seria o seu valor.
Amadou KEBE
