Nascido em 1º de janeiro de 1923 em Ziguinchor e falecido em 9 de junho de 2007 em Dakar, Ousmane Sembène permanece uma das figuras intelectuais mais influentes. Escritor, cineasta, roteirista e militante, ele é amplamente reconhecido como o “pai do cinema africano” por ter contribuído para o surgimento de uma produção cinematográfica independente, engajada e enraizada nas realidades do continente.
Originário de um meio modesto de pescadores da Casamance, Sembène conhece muito cedo as realidades do trabalho manual. Depois de ter exercido várias profissões em Dakar, principalmente como pedreiro e mecânico, ele é mobilizado pelo exército francês durante a Segunda Guerra Mundial. Desmobilizado, ele estabelece-se em Marseille, onde trabalha como estivador e se envolve no sindicalismo. Essa experiência operária alimentará profundamente sua obra literária e cinematográfica.
É pela literatura que ele adentrou o mundo da criação. Seu primeiro romance, Le Docker noir (1956), inspira-se diretamente de sua vida na França. Em seguida, ele lança várias obras importantes, incluindo Ô Pays, mon beau peuple! (1957) e sobretudo Les Bouts de bois de Dieu (1960), considerado um clássico da literatura africana francófona. Através de seus romances, ele denuncia as injustiças coloniais, as desigualdades sociais e os mecanismos de opressão que atingem as populações africanas.
Consciente, no entanto, de que os livros atingem um público limitado em uma África ainda fortemente marcada pela analfabetização, Sembène volta-se para o cinema no início dos anos 1960. Formado em Moscou, ele realiza em 1963 Borom Sarret, frequentemente apresentado como um dos primeiros filmes africanos pós-coloniais. Três anos depois, La Noire de… (1966) lhe traz reconhecimento internacional. Este longa-metragem, que narra a história trágica de uma jovem senegalesa empregada por uma família francesa, é considerado o primeiro grande filme realizado por um africano subsaariano.
Amante da sétima arte
Ao longo de sua carreira, ele usa o cinema como uma ferramenta de educação popular e crítica social. Com Mandabi (1968), filmado em wolof, ele rompe com a dominação do francês na tela e afirma a importância das línguas africanas na criação cultural. Seus filmes Xala (1975), Ceddo (1977), Camp de Thiaroye (1988) ou ainda Guelwaar (1993) questionam os desvios das elites pós-independência, as relações de poder, a religião, a memória colonial e as contradições das sociedades africanas. Diversas de suas obras foram, aliás, censuradas no Senegal pela sua abrangência crítica.
Entre suas lutas mais marcantes está também a defesa dos direitos das mulheres. Seu último grande sucesso, Moolaadé (2004), premiado no Festival de Cannes, denuncia as mutilações genitais femininas e evidencia a resistência das mulheres diante de tradições opressivas.
Além de sua obra, Ousmane Sembène influenciou profundamente várias gerações de cineastas africanos. Sua ambição era permitir que os africanos contassem a própria história, longe dos olhares exteriores e das representações herdadas da colonização. Ainda hoje, seu legado continua a inspirar o cinema africano contemporâneo e os debates sobre cultura, memória e justiça social.
A.N
