A retomada do controle do campo de gás Yakaar-Teranga pelo Estado do Senegal, através da Petrosen, é amplamente vista como um passo decisivo na busca pela soberania energética do país. Para os especialistas do setor, essa decisão ultrapassa o simples âmbito da exploração de recursos naturais e se insere numa visão mais ampla de transformação econômica. «Estas decisões refletem uma orientação firme das autoridades: tornar a soberania energética um pilar central da soberania econômica nacional», analisa Mouhamadou Moustapha Mboup, engenheiro energétic o e chefe da Divisão de Planejamento e Acompanhamento na Agência Nacional de Energias Renováveis (Aner). A leitura é a mesma do lado de Malick Dramé, especialista em petróleo, que garante que «a decisão do Estado é muito ousada» e que marca «uma ruptura fundamental com o modelo clássico de concessão internacional». Segundo ele, a retomada de Yakaar-Teranga oferece ao Senegal a oportunidade de «transformar um recurso natural em um alavancador de competitividade econômica». No âmago das questões está a valorização do gás nacional. Com reservas estimadas em cerca de 25 trilhões de pés cúbicos, Yakaar-Teranga é visto como um elemento-chave da estratégia «Gas-to-Power» destinada a abastecer as usinas elétricas e a reduzir a dependência de combustíveis importados. Para Mouhamadou Moustapha Mboup, «o Senegal não pode possuir recursos gasíferos importantes de forma sustentável enquanto permanece fortemente dependente de combustíveis importados». Ele considera que «a estratégia «Gas-to-Power» torna-se essencial para produzir uma eletricidade mais estável, mais gerenciável e mais competitiva». O objetivo também é usar o gás como motor do desenvolvimento industrial. «A verdadeira soberania não se encerra na extração. Ela começa realmente no nível do transporte e da transformação», ressalta Malick Dramé. A seu ver, o desdobramento da rede gasífera nacional será determinante para conduzir esse recurso aos polos industriais e econômicos do país. No entanto, a soberania energética não se apoia apenas no gás. Os dois especialistas concordam quanto ao papel central que o solar deverá desempenhar no futuro mix energético senegalês. «A soberania energética do Senegal repousará sobre uma combinação estratégica e inteligente entre o gás e o solar», afirma Mouhamadou Moustapha Mboup. Ele lembra que o Senegal dispõe de «um potencial natural excepcional» com mais de 3000 horas de insolação por ano, tornando o solar uma das soluções mais competitivas para atender às necessidades energéticas do país. Para o engenheiro, «o gás traz estabilidade, potência pilotável e apoio à indústria, enquanto o solar proporciona competitividade, descentralização, sustentabilidade e cobertura territorial». Além dos recursos, os especialistas insistem na necessidade de fortalecer as infraestruturas, as capacidades de financiamento e o capital humano. «A soberania energética repousa sobre três pilares essenciais: o domínio dos recursos, o controle das infraestruturas e a assimilação do saber», resume-o.
Malick Dramé concorda na mesma linha ao lembrar que «sem engenheiros, técnicos, especialistas e juristas capazes de supervisionar operações complexas, a soberania continua teórica». Ele defende uma transferência de competências mais fortalecida e uma participação mais ativa dos atores nacionais no financiamento e gestão dos projetos energéticos.
O. FÉDIOR
