A Assembleia Municipal do Porto aprovou uma parceria de 14 anos que torna a cidade sede mundial e ponto de partida da The Ocean Race, com compromissos municipais totais fixados em 22 milhões de euros espalhados pelos eventos até 2040.
A votação de terça-feira contou com oposição da CDU, Grátis e o Bloco de Esquerda (BE), com a abstenção do Partido Socialista (PS) e do independente Fernando Cardoso. A proposta foi aprovada com o apoio da maioria governante.
O que o acordo contém
O Porto acolherá a largada da volta ao mundo em três edições: 2030, 2034 e 2038. Antes disso, a cidade sediará uma “Corrida Especial” em 2028 e pelo menos seis outros eventos, incluindo etapas da The Ocean Race Europe, nos próximos 13 anos.
O acordo confere à cidade um papel permanente numa das principais competições de vela e converte um edifício vazio à beira-mar numa atracção pública durante todo o ano.
O primeiro Kasa da Praialocalizado entre o Castelo do Queijo e Praia Internacionalse tornará o sede operacional global da The Ocean Race. A adaptação do edifício está orçada em até 3 milhões de euros.
O local também abrigará um novo Museu dos Oceanos — um espaço público permanente dedicado ao património marítimo, à história da raça e à ciência dos oceanos. As atividades abertas ao público estão previstas para começar lá em 2028.
O dinheiro e o que ele compra
O pacote de 22 milhões de euros aprovado pela assembleia divide-se da seguinte forma:
• Mínimo de 12,025 milhões de euros em contribuições municipais diretas distribuídos entre eventos até 2040.
• Os custos adicionais incluem a remodelação do Kasa da Praiaconstrução do museu, e isenção de taxas de serviços municipais, licenças e ocupação de espaço público.
Hugo Beirão, vereador da Economia e Empreendedorismo do Porto, descreveu o projeto como “transformador e marcante”, que deixaria um “legado único” e criaria novas infraestruturas a par de um programa regular de atividades.
Projeções econômicas fornecidas pela estimativa do município cerca de 30 milhões de euros em impacto anual para a região Nortecom um retorno total de cerca de 390 milhões de euros entre 2028 e 2040. Este valor inclui contribuições diretas para o PIB, aproximadamente 170 milhões de euros em exposição mediática e efeitos indiretos.
A título de comparação, Alicante – a cidade espanhola que acolheu seis vezes a largada da corrida – registou um impacto económico estimado de 71,6 milhões de euros apenas na etapa de abertura de 2022–23.
Desentendimento político
Os partidos da oposição levantaram preocupações sobre a escala dos gastos públicos e o que consideraram benefícios pouco claros.
• CDU: Francisco Calheiros expressou “divergências fundamentais”, argumentando que o benefício concreto para a cidade não tinha sido demonstrado.
• Grátis: Diamantino Raposinho alertou para uma “lista de obrigações onde, basicamente, o município paga tudo e os benefícios vão para a empresa privada”.
• SER: Susana Constante Pereira questionou se o projecto entra em conflito com o existente Programa da Orla Costeira Caminha-Espinhoque havia programado o Kasa da Praia prédio para demolição.
O prédio está vazio desde 2021 e foi transferido do controle estadual para o municipal em julho.
O que acontece a seguir
A próxima edição da The Ocean Race começa em Alicante, no dia 17 de janeiro de 2027. Antes de a frota chegar ao Porto, fará escala em Cascaisonde termina a quarta etapa da Flórida. De lá, os barcos partem para a etapa final até o Mar Vermelho em AmaalaArábia Saudita.
Lisboa acolheu escalas de corrida em 2012, 2014 e 2017.
A imagem mais ampla
O presidente da Race, Richard Brisius, disse que o Porto e Portugal têm “uma identidade marítima profunda, uma ligação poderosa com o Atlântico e um papel crescente e importante no desporto, na ciência, na inovação e na economia azul”.
O autarca do Porto, Pedro Duarte, citado pela organização da prova, sublinhou que o Atlântico “faz parte da nossa história e identidade, mas cada vez mais também faz parte do nosso futuro”.
A parceria coloca o Porto ao lado de Alicante como base de longo prazo para o evento e visa estabelecer a cidade como um centro para a ciência, educação e sustentabilidade dos oceanos – com o novo museu concebido como um elemento permanente que liga residentes e visitantes a essa ambição.
