Oumar Sow, seu nome sem dúvida já diz algo para muitos. Ele executou os solos mais belos da música senegalesa, desde as linhas de baixo profundas até os lamentos que marcaram gerações. Passando pelo Super Diamono, pelo Super Étoile, ao lado de figuras como Seydina Insa Wade ou Cheikh Lô, este músico discreto, porém essencial, consolidou-se como referência, um artesão das sombras capaz de fazer respirar uma faixa. Seu modo de tocar, atravessado por uma sensibilidade claramente jazzy, privilegia a nuance, a improvisação e essa liberdade que faz toda a diferença entre execução e interpretação. Seu fraseado é uma maneira de habitar a música que transcende os moldes, transformando-o em muito mais que um acompanhante, mas em um verdadeiro narrador sonoro.
Se você fosse hoje retornar ao seu reino de infância, que imagem lhe viria?
Acredito que a primeira imagem que me viria à mente seria a de uma casa muito estruturada e rígida, onde a prioridade absoluta eram os estudos. É preciso compreender o contexto, pois, à época, em muitas famílias, a música não era vista como um caminho sério. Meu pai via isso como algo marginal, ligado às boates, a uma certa instabilidade. Então, naturalmente, ele desejava para nós um percurso “seguro”, com uma profissão estável, respeitável. Cresci nesse ambiente. Fui formado no Colégio Sacré-Cœur até o quinto ano, depois nos Cours Saint-Michel. Fui um aluno sério, aplicado, e segui esse caminho sem questioná-lo de início. Mas, em paralelo, já havia algo mais construindo-se em silêncio.
Uma atração, uma curiosidade, algo que não passava pela escola. E é isso que é interessante. Tentei realmente seguir as regras. Cheguei a ingressar em um percurso que poderia me levar à área bancária. Na Bicis, confiavam em mim, viam que eu trabalhava bem, encorajavam-me. Ofereciam formação, uma evolução. Sério, eu tinha um futuro bem traçado.
E em determinado momento, a música ficou mais apagada, como se eu tentasse me conformar totalmente com o que se esperava de mim. Mas o que eu chamo de vírus nunca desaparece. Ele pode entrar em hibernação, mas permanece ali, em algum lugar. E um dia, sem avisar, ele retorna com ainda mais força. E aí, não dá mais para fingir.
Justamente, esse vírus, como ele se instalou em você?
Instalou-se muito cedo, porém de forma natural e inocente. Em casa, havia sempre música. Não era necessariamente uma casa de músicos, mas havia uma cultura de escuta. Isso é fundamental. Tínhamos vinis, passávamos tempo ouvindo. E eu me alimentei disso. Meu primeiro instrumento foi a bateria. É algo que as pessoas costumam esquecer quando me veem hoje com a guitarra. Mas a bateria ensina uma coisa essencial: o ritmo. A relação com o tempo, com o espaço, com a coordenação.
Ainda hoje posso me sentar atrás da bateria e tocar, reencontrar os tons, o chimbal, as cymbales… Está enraizado. O problema é que isso fazia muito barulho (risos). E meu pai não tolerava aquilo. De certa forma, ele pôs fim a essa experiência. Talvez tenha jogado a bateria fora, talvez tenha feito desaparecer… em todo caso, a mensagem foi clara. Então, nos adaptamos. Voltamos para a guitarra, que era mais discreta e mais íntima. Você pode tocar no seu quarto, à noite, sem incomodar.
Meu irmão desempenhava um papel importante. Ele nos mostrava acordes, sem formalizar muito. Era tudo muito instintivo. E, paralelamente, havia toda essa música que ouvíamos. Fui mergulhando no jazz desde cedo, entre George Benson, Wes Montgomery, Joe Pass, mas também na soul e no R&B: The Isley Brothers, Commodores, Lionel Richie, Gloria Gaynor, os Jackson Five. E depois o jazz fusion, o jazz rock: Al Di Meola, Stanley Clarke, Chick Corea… É uma riqueza incrível. Ao crescer com isso, isso molda seu ouvido, seu gosto, sua maneira de pensar a música.
A partir de que momento a música realmente assumiu o controle?
Não foi um momento abrupto, nem uma ruptura clara. Foi uma virada gradual. Continuei meus estudos, cheguei a fazer o segundo ano de C, mas não me reconhecia mais nesse sistema. Fui formado num ambiente extremamente rígido, com horários fixos, disciplina rígida. E então descobri um funcionamento muito mais distribuído, com permanências e horários vagos… Era preciso me reorganizar de uma forma diferente, ser autônomo de maneira distinta. E isso me perturbou. Via estudantes saindo, voltando, às vezes abandonando a aula sem consequências aparentes.
Pensei: “O que é esse sistema?”. Não encontrava meus pontos de referência. E, nesse meio tempo, a música ia tomando cada vez mais espaço na minha cabeça, no meu dia a dia. Então tentei retornar a algo mais estruturado, com estudos econômicos. Mas por dentro, a escolha já estava feita. Eu seguia, mas sem convicção. A música, ela se tornara necessidade. Não apenas uma paixão, mas algo de que eu não conseguia mais abrir mão.
Você começou pela bateria, depois pelo baixo, antes de se tornar guitarra. O que esse percurso construiu em seu modo de tocar?
Isso construiu toda a minha forma de pensar a música. E eu penso que é uma riqueza enorme. Porque quando você começa pela bateria, você entende o ritmo por dentro. Não o sofre, o carrega. Depois, o baixo ensina outra coisa, como a estrutura, a relação entre ritmo e harmonia. O baixo é um instrumento fundamental. Ele sustenta, guia, dá direção. Eu tocava em um grupo chamado “Bataaxal”. Eram jovens, apaixonados, passávamos o tempo tocando. Não era um grupo profissional, mas trabalhávamos com seriedade. E eu era o baixista. Mas eu tinha uma particularidade: eu conhecia os acordes.
Eu poderia dizer “Dó maior”, “Fá maior”, “Sol maior”… Eu compreendia a harmonia. Em determinado momento, percebemos que nosso guitarrista fazia principalmente solos, mas não sustentava o acompanhamento. Isso é um problema em uma banda. Invertimos os papéis. Passei para a guitarra, e ele para o baixo. E ali encontrei meu lugar. Mas jamais perdi minha abordagem de baixista. Hoje em dia, quando toco guitarra, penso como baixista. Penso no conjunto, na construção da peça, no equilíbrio. Não toco apenas para mim, toco para o coletivo.
Seu modo de tocar é frequentemente descrito como fortemente influenciado pelo jazz. Como você articula isso com a música senegalesa?
Para mim, não há contradição. Pelo contrário, há continuidade. As pessoas costumam opor estilos, mas, na prática, eles se apoiam em bases comuns. A tônica, a subdominante, a dominante. O famoso “2-5-1”. É universal. Quer você esteja no gospel, no rumba, no pop ou na chamada música senegalesa, você encontra essas estruturas.
A diferença está na interpretação, no ritmo, no fraseado. Alguém como Youssou Ndour integrou isso de forma muito boa. Ele tem uma compreensão quase instintiva das melodias. Lembro dele ter mostrado acordes simples, Dó, Fá, Sol. E, muito rápido, ele fez algo como a introdução de “Dem Bercy”. Porque a base está aí. Depois, é claro, há o trabalho dos arranjadores, dos músicos, do estúdio. Mas a fundação é simples. E é isso que é bonito na música. Você pode partir de algo muito simples e construir algo muito rico.
E no mbalax, concretamente, qual é o papel da guitarra?
Antes de tudo, é preciso esclarecer uma coisa. O mbalax não é uma música, é um ritmo. Isso muda tudo. Porque se você não entende isso, perde o essencial. O ritmo é a base. É ele que estrutura tudo. Você pode ser extremamente técnico, tocar muito rápido, fazer coisas impressionantes… mas se você não estiver ritmicamente em sintonia, não adianta. A guitarra deve se inserir nesse quadro, dialogar com as percussões, apoiar o canto. A partir disso, você pode enriquecer. Pode buscar influências no jazz, no reggae, na bossa nova… Mas sempre respeitando essa base. É como uma arquitetura: você pode decorar o quanto quiser, mas se as fundações não forem sólidas, tudo desmorona.
Você colaborou com muitos artistas. O que essas experiências lhe ensinaram?
Elas me ensinaram, acima de tudo, a abertura. A música não é algo que se possa prender a uma definição. Você dá, você recebe, e, às vezes, você nem sabe exatamente o que trouxe ou o que recebeu. Mas você sai transformado. Se artistas vêm até você, é porque sentem que você tem algo a oferecer: um timbre, uma sensibilidade ou uma experiência. Eu venho com minha bagagem: o jazz, o clássico, todas as músicas que ouvi. São minhas duas grandes escolas. Elas me deram ferramentas. E com essas ferramentas, você pode ir a qualquer lugar. Você pode se adaptar, compreender e propor. Isso é o que importa.
Hoje, qual é a sua visão sobre a música e sua evolução?
Acredito que vivemos uma época em que a música anda muito rápido. Às vezes, rápido demais. Produz-se muito, consome-se muito, porém nem tudo dura. Existem faixas que bombam por dois, três meses e depois somem. Acredito numa música que possa resistir ao tempo. Uma música que tenha profundidade, exigência. Cada nota precisa contar algo. É preciso trabalhar, buscar e, sobretudo, experimentar. A música é uma ciência, mas também uma filosofia, um modo de vida. No Senegal há um potencial enorme. Sério.
Mas é preciso estruturar mais. Formar jovens, organizar o setor, proteger os direitos autorais. É fundamental. Não se pode criar uma obra e não ter como viver dela. Mas continuo otimista. Porque vejo energia, vejo criatividade. Existe uma riqueza incrível, especialmente no aspecto rítmico. Não se deve reduzir o mbalax a uma simples etiqueta. É preciso explorar, valorizar todas as tradições, todas as influências. A música africana precisa ocupar plenamente o espaço na música do mundo. Não como curiosidade, não como folclore, mas como uma força de pleno direito. E isso é possível. Porque tudo já está aí.
Você costuma mencionar suas influências. O que aprendeu com os grandes nomes que o antecederam?
Aprendi muito com os mais velhos. São verdadeiras escolas por si sós. Eles me ensinaram uma lição fundamental: o baixo não está ali apenas para sustentar; ele pode falar. Pode conduzir uma melodia, dialogar com os outros instrumentos, contar uma história.
Quando você ouve com atenção, entende que a música é uma conversa. Mas, ao mesmo tempo, não se pode ficar apenas imitando. Em certo momento, é preciso trazer algo novo. A música evolui sem cessar, como a ciência ou a medicina. Hoje falamos em inteligência artificial, novas formas de produzir, compor… tudo isso são ferramentas. A verdadeira criação não vem da máquina. Vem do humano, do que ele sente.
Justamente, com as novas tecnologias, a música mudou profundamente…
Sim, de modo radical. Antes, gravar uma faixa era toda uma história. Era preciso recursos, um estúdio, engenheiros, equipamento caro. Era privilégio. Hoje, você chega em casa, conecta o computador, a interface de áudio, os microfones, e pode gravar. Os jovens entenderam isso. Eles constroem seus estúdios domésticos, compram bancos de sons, samples, instrumentos virtuais. Tudo é acessível.
A tecnologia democratizou a música, e isso é algo positivo. Mas há um limite. Uma máquina pode te propor acordes, gerar estruturas, imitar estilos… mas ela não pode criar uma melodia que toque de verdade. A verdadeira melodia vem do coração. Vem de uma experiência, de uma emoção, de uma vivência. E isso, nenhuma máquina pode substituir.
Você é descrito como um “músico de músicos”. O que isso significa para você?
É uma expressão que interpreto como a capacidade de revelar os outros. Um músico de músicos é alguém que pode fazer emergir no outro aquilo que ele tem no seu âmago. E para isso, a versatilidade é essencial. Sou baixista, mas entendo de guitarra, teclado, bateria, voz. Quando você está num grupo, não pode se limitar ao seu instrumento.
Você precisa compreender o conjunto. Costumo compará-lo a uma rodovia. Cada um tem sua faixa. Se você começa a seguir caminhos à direita ou à esquerda sem respeitar os demais, há colisão. Na música, é a mesma coisa. Você precisa conhecer seu lugar, respeitar o espaço do outro e, ao mesmo tempo, contribuir para o equilíbrio global.
Essa versatilidade também permite corrigir ou orientar outros músicos?
Sim, com certeza. Quando você tem essa visão global, percebe de imediato o que não está funcionando. Uma nota que não encaixa, um acorde inadequado, uma harmonia desequilibrada… isso se ouve na hora. Você pode orientar um guitarrista, um tecladista, mesmo um vocalista.
Hoje, muitos cantores sentem a música, mas nem sempre conseguem explicar o que estão fazendo. Eles percebem que há um problema, mas não sabem dizer: “é esse acorde que não funciona”. Ora, a criação depende disso: acordes, harmonia, estrutura. Sem essas bases, você fica limitado.
Isso também impacta a forma como a música é produzida hoje?
Claro. E até mesmo no campo dos negócios. Quando você não domina as bases, você depende inevitavelmente dos outros. E isso pode criar desequilíbrios. Antes, a música era coisa de grupo. Falava-se de formações, de orquestras. Havia uma identidade coletiva. Hoje, cada um quer estar na frente, cada um quer carregar o projeto sozinho. E às vezes isso gera tensões, especialmente na divisão de receitas ou no reconhecimento do trabalho de cada um.
Como nasce a inspiração em você? É algo sob seu controle?
Não, a inspiração não se domina totalmente. Ela está no ar. Você pode chegar ao estúdio cansado, nem sempre bem, e tocar algo magnífico. E no dia seguinte, em plena forma, nada sai. Isso nos transcende. É quase metafísico. Mas atenção: não significa que não haja trabalho.
Ao contrário. O instinto sozinho não basta. É preciso bases sólidas, disciplina, ferramentas. Você precisa trabalhar seu instrumento, praticar escalas, manter-se em constante formação. Porque quando a inspiração chega, é preciso estar pronto para recebê-la.
Qual a diferença entre o trabalho em estúdio e o palco?
São dois mundos distintos. O estúdio é precisão. Você pode recomeçar, corrigir, aperfeiçoar cada detalhe. É um trabalho minucioso e cirúrgico. O palco é o direto. É como o teatro. Não há segunda tomada. Você precisa ser responsivo, presente, capaz de transformar um erro em um momento potente. Existem músicos que são excelentes em estúdio, mas não se sentem à vontade ao vivo, e vice-versa. São duas disciplinas diferentes, embora se complementem.
Qual é a sua visão sobre a evolução da música senegalesa?
Há avanços, mas também perdas. Antes havia mais pesquisa, mais exigência. Havia um trabalho profundo. Hoje tudo acontece muito rápido. Podemos produzir várias faixas em um dia. Mas a música precisa de tempo. Uma grande obra requer pesquisa, amadurecimento. Também perdemos em intercâmbio cultural. Em outra época, grandes artistas internacionais vinham, havia diálogo. Hoje é mais limitado. E isso se reflete na riqueza musical.
Para você, qual é o papel do artista na sociedade?
O artista tem um poder enorme. Pode influenciar, despertar consciências, acalmar tensões. Não é político, mas tem um papel social. Deve levar uma mensagem. A música não é apenas entretenimento. É também uma forma de falar de justiça, de paz, da sociedade. Muitos grandes artistas fizeram isso ao redor do mundo.
O que a música permite expressar que as palavras não conseguem dizer?
Cada nota conta uma história, e essa história vem do coração. É como uma pintura. Duas pessoas podem olhar para a mesma obra e ver coisas completamente diferentes. A música é essa liberdade.
O que a música lhe ensinou sobre si mesmo?
Ela me ensinou duas coisas essenciais: emoção e concentração. Sem concentração, você erra. Sem emoção, você não toca ninguém. E sem trabalho, você não progride. A rotina é perigosa. Sempre é preciso se questionar, aprender, evoluir. Porque a música, assim como a vida, está em movimento permanente.
Entrevista realizada por Amadou KEBE
