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Noémia de Sousa: Atualização Curricular de Portugal 2027

Um eco centenário: a voz de Noémia de Sousa regressa à redação de Lisboa

No dia 20 de Setembro de 2026, a Agência Lusa reuniu-se no espaço que leva o seu nome — a Sala Noémia de Sousa — para assinalar um século desde o nascimento de uma das vozes literárias e jornalísticas mais ressonantes de Moçambique. A homenagem, realizada no coração da sua sede em Lisboa, fundiu poesia, pintura e os sabores da cultura moçambicana num singular ato de memória.

A sala onde ela arquivava histórias tornou-se um arquivo vivo. Jornalistas, artistas, diplomatas e familiares uniram-se não para comemorar um passado distante, mas para enfrentar um presente ainda moldado pelas suas palavras. Seu legado, como disse um participante, não é história – é um espelho.

Vera Magarreiroeditor da Lusa na Lusofonia, abriu o evento contrastando a vida tranquila de Noémia com a força da sua voz: “Ela evitou os holofotes. Mas hoje o palco é dela. Não porque quiséssemos homenageá-la — mas porque precisávamos ouvi-la.”

O jornalista que recusou o silêncio

O jornalismo de Noémia de Sousa nunca se separou da sua poesia. Trabalhando primeiro na ANI, depois na Reuters (a partir de 1972), e mais tarde na ANOP e na Lusa, ela narrou a descolonização de África numa altura em que tais reportagens eram censuradas, perigosas ou ignoradas. Suas assinaturas carregavam o peso de uma verdade que a mídia estatal não divulgaria.

Joaquim Carreirapresidente do conselho de administração da Lusa, notou o simbolismo deste momento: a agência celebra o seu 40º aniversário na mesma sala que leva o seu nome. “O jornalismo dela não apenas informou – ele resistiu”, disse ele. “Ela nos ensinou que as notícias não são neutras. É um confronto com a injustiça.”

Sua filha, Virgínia de Sousarelembrou como a força tranquila de Noémia moldou sua infância: “Ela registrou o quanto a mãe foi importante na sua independência” — refletindo sobre como a resiliência tranquila de sua mãe moldou profundamente seu próprio caminho para a autonomia.

Poetas, pintores e um chamado para lembrar

O poeta Lívio de Morais apresentou um retrato recém-pintado de Noémia, finalizado minutos antes do início da cerimônia. “Ela nunca gritou”, disse ele. “Mas quando ela falou, todo o mundo lusófono fez uma pausa. Ofereço isto não como uma homenagem – mas como um retorno. Ela nunca se foi.”

Através de vídeo, cantora moçambicana Selma Uamusse recitou “Súplica” – com a voz trêmula ao chegar aos versos finais. “Eu canto ela porque ela escreveu o que eu vivo”, disse Uamusse. “Ela nomeou o peso antes que eu tivesse palavras para descrevê-lo.”

Stella Zecaembaixador de Moçambique em Portugal, colocou o legado de Noémia na política mais ampla da memória: “Dizem-nos para esquecer o passado. Mas sem saber quem foi Noémia, não conseguimos compreender porque é que Moçambique fala no tom que fala hoje”.

Uma evolução editorial no mundo lusófono

Durante décadas, a única colecção publicada de Noémia — “Sangue Negro” — permaneceu esgotada em Portugal, reflectindo a longa ausência de uma edição portuguesa dedicada. Os esforços recentes ganharam impulso: embora ainda não tenha sido anunciado oficialmente nenhum volume formal e abrangente por uma editora portuguesa, iniciativas académicas e culturais estão a impulsionar activamente esse objectivo. Em 2024, a edição francesa “Sang Noir” alcançou novos públicos e, no Brasil, a editora Kapulana distribuiu 10 mil exemplares da biografia de Nelson Saúte, “Se eu quiser conhecer”, pelas escolas. Em Moçambique, a Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) lançou uma campanha de âmbito nacional: “Noémia na Escola”, colocando os seus poemas em 486 escolas secundárias.

A nova geração fala

Diogo Pintojornalista da Lusa, de 24 anos, nascido no ano da morte de Noémia, partilhou a sua pesquisa sobre o seu arquivo jornalístico. “Encontrei cartas que ela escreveu em 1998 reclamando que nenhuma escola portuguesa lhe ensinava poesia”, disse ele. “Ela estava certa. E agora estamos mudando isso.”

Em Lisboa, o Ministério da Educação anunciou em Maio de 2026 que a obra de Noémia de Sousa será incluída no currículo nacional das escolas secundárias a partir de 2027 — uma novidade para qualquer escritora negra africana do mundo lusófono.

Em Maputo, jovens poetas começaram a pedir uma rua com o seu nome. Um mural com o seu rosto estende-se agora pela parede do antigo cinema da Mafalala. “Não precisamos de estátuas”, disse um estudante de 19 anos. “Precisamos lê-la. Então saberemos: a voz dela nunca saiu.”

O sabor da resiliência

A cerimônia terminou como começou – não com discursos, mas com som e sabor. O cheiro de badjias — pastéis de mandioca fritos — enchiam a sala. Copos de suco de caju, derramados capulanas espalhadas nas mesas, distribuídas entre os convidados. Uma gravação de música tradicional moçambicana mbira tocou suavemente.

Numa cidade onde os monumentos são esculpidos em pedra, a presença de Noémia fez-se de papel, de poesia e de pão. Nenhum monumento. Nenhuma estátua. Apenas palavras — passadas de mão em mão, década em década — e isto: continuam sendo lidas.

Em 2026, o centenário de Noémia de Sousa não terminou em cerimónia. Tudo começou em uma conversa.

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