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Mistério em Viseu: que avião militar colossal se aproximou três vezes da pista do aeroporto — e nunca aterrou?

O burburinho começou com um rugido de hélices que ecoou sobre os telhados. Um avião de transporte militar, de dimensões pouco habituais para o Nordeste transmontano, executou três aproximações seguidas à pista do Aeroporto de Bragança e, em todas, voltou a subir sem tocar o tarmac. As passagens, a baixa altitude, chamaram a atenção de moradores e condutores que circulavam na variante norte, com muitos a apontar os telemóveis ao céu.

“Foi de arrepiar: quatro hélices, fuselagem enorme e um voo perfeito, mesmo sem aterrar”, contou um residente da zona de Vale de Álvaro, ainda com o entusiasmo estampado no rosto. Em poucas horas, imagens e vídeos correram as redes, somando partilhas e comentadores curiosos sobre o que, afinal, estava a acontecer acima de Bragança.

O avião e a sua missão

Tratava-se de um Airbus A400M Atlas, uma aeronave de transporte tático e estratégico concebida para levar carga pesada, pessoal e equipamento para quase qualquer pista. O perfil impõe respeito: quatro turboélices de grande diâmetro, trem robusto e uma cauda elevada, própria de quem nasceu para operar em cenários exigentes e, muitas vezes, fora dos grandes aeroportos.

Segundo fontes próximas da comunidade de entusiastas de aviação, a passagem integrou um treino rotineiro de “aproximação” e “arremetida” — em inglês, “touch-and-go” sem o touch. Em termos simples, o avião alinha-se com o eixo da pista, desce até muito perto do solo, estabiliza parâmetros críticos de voo e, no momento planeado, aplica potência e volta a subir para repetir a sequência.

Aproximação e arremetida: por que não aterrar?

Este tipo de exercício é essencial para afinar procedimentos de tripulação, testar respostas do avião em perfis específicos e consolidar a coordenação com a torre. Não há qualquer indicação de emergência: pelo contrário, é prática comum na aviação militar e até na civil, quando equipas precisam de treinar em ambientes e pistas com características particulares.

Bragança oferece uma conjunção de fatores interessantes: tráfego moderado, enquadramento orográfico desafiante e vento por vezes caprichoso. Somados, criam um laboratório ao ar livre ideal para pilotos e instrutores praticarem aproximações estabilizadas, arremetidas com potência e circuitos de tráfego com margens de segurança folgadas.

Por que Bragança e não uma base aérea?

É mais frequente ver grandes cargueiros militares a treinar em Beja — pelo comprimento de pista e espaço aéreo amplo — ou em zonas costeiras com menos restrições. Ainda assim, manobras em aeródromos regionais não são inéditas em Portugal. Para quem conduz o treino, passar por aeródromos como o de Bragança ajuda a replicar cenários de montanha, aproximações visuais exigentes e comunicações com controlo civil.

Durante a tarde, o avião terá ainda sobrevoado vales e encostas a norte da cidade, manobrando sobre a paisagem ondulante que separa o Parque Natural de Montesinho das ligações rodoviárias regionais. Para quem olhava de baixo, a sequência foi tão breve quanto marcante, e não terá afetado o funcionamento regular do aeroporto.

Spotters apanhados de surpresa

Na comunidade de “spotters” portugueses, a surpresa foi geral. Muitos lamentaram não ter sido avisados, mas os protocolos operacionais são claros: voos militares não são, por regra, anunciados com antecedência. A coordenação faz-se diretamente com os serviços de controlo quando a aeronave entra no espaço aéreo local, cumprindo separações e regras de segurança.

A concessionária do aeródromo e as autoridades locais não costumam receber alertas prévios para treinos deste género, precisamente para garantir flexibilidade operacional. Para os curiosos que correm a fotografar cada descolagem, vale o consolo de que estes exercícios voltam a repetir-se, ainda que sem convite.

O que distingue o A400M

  • Quatro turboélices de alta potência, capazes de gerar empuxo robusto e consumo relativamente contido.
  • Capacidade para transportar cerca de 37 toneladas de carga, incluindo viaturas táticas e paletes normalizadas.
  • Alcance de milhares de quilómetros com carga significativa, adequado a missões estratégicas.
  • Operação em pistas curtas e, em certos casos, não preparadas, incluindo terreno irregular.
  • Configurações MEDEVAC para evacuação médica, com macas e equipamentos dedicados.
  • Sistemas modernos de navegação e piloto automático, úteis em ambientes complexos.

Curiosidade satisfeita, rotina assegurada

Depois das três aproximações, o avião ganhou altitude e seguiu a sua rota, deixando atrás de si um rasto de comentários, fotos e um eco grave que demorou a dissipar-se. Para os especialistas, tratou-se de mais um dia de treino; para Bragança, um pequeno espetáculo aéreo com direito a banda sonora de turboprop de grande porte.

O essencial fica dito: manobras assim são sinal de rotina operacional, não de alarme. As equipas treinam onde faz sentido, quando é necessário, e o espaço aéreo português continua a ser um excelente terreno de aprendizagem — tanto para quem voa, como para quem não resiste a olhar para o céu e dizer: “lá vai ele outra vez”.

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