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Lisboa: bairro de Belém entra em polvorosa com post viral que anuncia “mega projeto” — afinal, era tudo falso

Um desenho que incendiou o bairro

Num fim de semana de outubro, um simples esboço publicado nas redes acendeu os ânimos em Alvalade, em Lisboa. O desenho, feito por moradores da Avenida da Igreja, mostrava a via mais verde, com árvores, floreiras e uma discreta seta de sentido único. Ao lado, três eixos de trabalho em letras pretas: “Laboratório Cívico, Pedido à Câmara e eventos cívicos”. A intenção era celebrar um projeto de vegetação aprovado no Orçamento Participativo, mas o efeito foi uma tempestade de suspeitas.

Em poucas horas, a imagem replicou-se em grupos locais do Facebook e do WhatsApp do bairro. Alguns utilizadores leram o esboço como prova de um “grande anel de sentido único” com pista ciclável obrigatória e cortes ao trânsito. O tom subiu depressa, entre alertas de “bairros fechados” e ameaças de “comércio a morrer”. O que era um rascunho de vizinho transformou-se em bandeira de protesto.

A petição que ganhou fôlego

A Associação de Moradores de Alvalade (AMA) entrou logo em cena. Em poucas horas, lançou uma petição online a denunciar o alegado regresso do “grande anel de sentido único” no bairro. O texto citava o desenho e mencionava reuniões com a Junta e a Câmara, lendo nele um plano em marcha e uma ameaça ao cotidiano local.

Em menos de três dias, a petição somou mais de 1.800 assinaturas. Entre os comentários, repetiam-se receios de engarrafamentos, perdas para o comércio e a “expulsão” de carros residentes. Alguns comerciantes da zona da Avenida relataram quebra no fim de semana, temendo “obras iminentes”. Havia quem pedisse um “referendo de bairro”, como se decisões estivessem já fechadas.

“Não queremos ver Alvalade virar laboratório de mobilidade sem ouvir quem aqui vive”, escreveu um dos proponentes, exigindo “paragem total do processo”. A palavra “laboratório” saiu do rascunho e ganhou vida própria, usada ora como ameaça, ora como esperança.

O que diz a autarquia

Contactada, a Câmara Municipal de Lisboa foi clara na resposta. “Não está em curso qualquer processo de consulta sobre a Avenida da Igreja. O evento referido foi um momento de convivência promovido por associações e moradores”, afirmou fonte oficial, sublinhando que nenhum projeto de sentido único estava em apreciação.

A Junta de Freguesia reforçou a mesma posição. Recordou que o desenho nasceu num encontro comunitário, na sede de uma associação, com canetas de cor e ideias livres, longe de mapas técnicos. O objetivo era imaginar mais sombra, menos ilhas de calor e microintervenções de baixo custo. O resto, garantem, foi um efeito de eco digital.

Um dos organizadores do encontro, residente na avenida, assegura que não há “plano secreto” nem “ataques ao carro”. “Queríamos só discutir floreiras, bancos e duas ou três árvores bem colocadas”, diz, entre surpresa e cansaço. “Bastou uma seta para nascer uma conspiração.”

Como nasce um mal-entendido

O caso expõe o curto-circuito entre rascunhos participativos e leitura de redes. Um desenho, por natureza aberto, pode ganhar ar de plano final quando partilhado fora do seu contexto. Palavras como “laboratório” ou “pedido à Câmara” soam a decisão, mesmo quando descrevem apenas etapas de caminho.

Também revela a ferida ainda aberta na discussão sobre mobilidade urbana. Em Lisboa, como noutras cidades europeias, a memória de projetos mal explicados amplifica receios e cria trincheiras. O bairro sente-se, por vezes, palco de experiências, e qualquer seta vira prova de soslaio.

O que fica por aprender

Entre alarmes e desmentidos, há lições a tirar para o debate público:

  • Esboços precisam de legendas bem claras, com data e grau de maturidade.
  • Publicações devem indicar o autor e o âmbito do encontro ou oficina.
  • Autarquias podem criar canais rápidos de esclarecimento nas redes.
  • Associações devem antecipar dúvidas mais sensíveis (trânsito, estacionamento).
  • Antes da partilha, validar linguagem e símbolos que sugiram decisão.

Vozes do bairro

“É legítimo querer mais árvores, mas não à custa de virar tudo do avesso”, diz Maria João, comerciante há 20 anos na avenida. “Se houver um plano, que seja com contas feitas e conversa aberta.” Já Rui Antunes, jovem morador e utilizador de bicicleta, pede calma: “Ninguém aprovou nada em segredo. Falta-nos um vocabulário comum para falar de rua.”

Entre as duas vozes, instala-se uma verdade simples: a cidade muda melhor quando muda com todos. Nem tudo o que se desenha vira obra, mas tudo o que se partilha tem efeito no coletivo.

E agora?

A AMA promete manter a petição até receber garantias por escrito de que não haverá alterações de trânsito. A Câmara, por sua vez, admite promover uma sessão de esclarecimento sobre o Orçamento Participativo na freguesia, explicando fases, limites e formas de participar. Pode nascer daí um compromisso útil: qualquer proposta futura na avenida terá consulta prévia, calendário público e documentação em linguagem acessível.

Entretanto, o desenho que lançou faíscas cumpre, ironicamente, uma função cívica. Lembra que a confiança precisa de transparência, que o medo pede respostas e que a imaginação urbana, quando bem guiada, é combustível de pertencimento. Se Alvalade conseguir transformar o ruído em diálogo, o bairro sairá mais verde — e, sobretudo, mais coeso.

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