As estradas senegalesas registraram 868 mortos em 2025, de acordo com os números da Agência Nacional de Segurança Rodoviária (ANASER). A seguir, o que revelam os números globais, bem como as causas e as regiões mais atingidas.
A incidência de acidentes de trânsito continua a ser um dos problemas de saúde pública mais preocupantes no Senegal. Este constatado acompanha o da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recorda que quase 90% das mortes ligadas a acidentes de trânsito no mundo ocorrem em países de renda baixa ou média. Apesar das políticas públicas implementadas pelas autoridades senegalesas para estancar esse fenômeno, a tendência permanece alarmante: o número de mortos nas estradas continua a crescer de ano para ano.
O balanço 2025 da Agência Nacional de Segurança Rodoviária (ANASER), publicado em fevereiro de 2026, traça um retrato edificante. Ao longo do ano, foram registrados 15.407 acidentes em todo o país, resultando 868 mortos, 5.592 feridos graves e 9.536 feridos leves. Esses números traduzem uma realidade diária: em média, mais de 42 acidentes ocorrem todos os dias nas estradas senegalesas, causando em média 2 a 3 mortes diárias.
Dacar, o epicentro
A distribuição geográfica dos acidentes revela uma concentração extrema ao redor da capital. A região de Dacar concentra sozinha 8.503 acidentes, ou seja, 55,5% do total nacional, mais da metade dos sinistros do país em um território, contudo, restrito. Ela também registra mais de 19% dos feridos graves, e mais de 25% dos feridos leves a nível nacional.
Thiès e Saint-Louis completam o trio de frente com, respetivamente, 1.432 e 1.016 acidentes. Do outro lado, a região de Matam aparece como a menos atingida, com 177 acidentes (1% do total), 19 mortos, 182 feridos graves e 271 feridos leves.
Um ensinamento merece, no entanto, ser destacado: o número de acidentes não está sempre correlacionado com a gravidade. A região de Thiès ilustra esse paradoxo de forma contundente. Enquanto registra um número de acidentes seis vezes menor do que o de Dacar, totaliza 163 mortos contra 107 para a capital. Em outras palavras, os acidentes ocorridos em Thiès são, em proporção, muito mais letais do que os de Dacar, um sinal provável de velocidades mais altas e de uma circulação menos densa, porém mais perigosa por choque. Globalmente, são as regiões que concentram a maior parte das atividades econômicas e dos fluxos de mobilidade (Dacar, Thiès e Saint-Louis) que pagam o preço mais alto à insegurança rodoviária.
Décembre et les grandes vacances, période à hauts risques
A análise mensal dos dados revela uma sazonalidade marcante. O mês de dezembro é o mais grave em termos de acidentes, com 1.558 casos, ou seja, mais de 10% do total anual. É seguido pelo mês de agosto (1.384 acidentes) e por outubro (1.380 acidentes), cada um representando quase 9% dos casos do ano.
Em comparação, o mês de janeiro registrou apenas 1.108 acidentes. A diferença é significativa: dezembro contém 450 acidentes a mais que janeiro, o que equivale a um aumento de quase 40%, enquanto agosto apresenta 276 acidentes a mais (cerca de 25% a mais). Este recrudescimento sazonal coincide com os períodos de festas de fim de ano e férias, marcados por um aumento de deslocamentos interurbanos e de mobilidade da população por todo o território.
No que diz respeito às vítimas, aparece um desfasamento “interessante”. É o mês de outubro que concentra o maior número de mortes, com 102 óbitos (mais de 11% do total anual). É seguido de perto por janeiro e fevereiro, com 82 mortes cada um (mais de 9%). Este desfasamento entre o mês mais propenso a acidentes (dezembro) e o mês com maior mortalidade (outubro) sugere que a gravidade dos acidentes não acompanha necessariamente a frequência e que depende provavelmente de outros fatores como a velocidade praticada, o tipo de veículo envolvido ou as condições de circulação próprias de cada período.
Os grandes eixos rodoviários, corredor da morte
As estradas nacionais e autoestradas concentram sozinhas 6.431 acidentes, isto é, mais de 41% do total nacional. A classificação de perigosidade desses eixos é incontestável.
A estrada nacional número um (RN1), que liga Dacar à fronteira com o Mali ao longo de 646 km, ocupa amplamente o topo com 1.458 acidentes, ou 23% dos acidentes ocorridos em grandes eixos. Isto corresponde a uma densidade de 2,25 acidentes por quilômetro. Do ponto de vista humano, esse eixo é também o mais mortal, com 141 mortos e mais de 2.200 feridos acumulados.
A autoestrada A1, que liga Dacar a Mbour, em pouco mais de 90 km, classifica-se em 2.º lugar com 21% dos acidentes dos grandes eixos. A sua densidade de acidentes é, na realidade, muito mais elevada do que a da RN1 em relação ao seu comprimento: 15,1 acidentes por quilômetro, frente a 2,25 para a RN1, um número que interroga a segurança desta infraestrutura, ainda que mais recente e supostamente mais segura.
As estradas nacionais nº 2 e nº 3 concentram, respetivamente, 10% e 15% dos acidentes dos grandes eixos, trechos caracterizados por tráfego denso e pela forte presença de pesados que asseguram o transporte de mercadorias.
Em termos de mortalidade, a RN2 regista 92 mortos, logo atrás da RN1. Pelo contrário, os trechos menos acidentogénicos da rede nacional são a RN8 (trecho Rufisque-Saint-Louis), a RN7, a RN4, a RN6 e a Via de Desvio Norte (VDN), que registam apenas um óbito no ano. Convém ainda sublinhar o peso da via urbana, que sozinha registou 131 mortes e 789 feridos graves, revelando que a periculosidade não se limita aos grandes eixos interurbanos, mas afeta massivamente o tráfego quotidiano nas áreas urbanas.
O fator humano, uma causa esmagadora dos acidentes
A análise das causas de acidentes confirma uma realidade já bem documentada na literatura sobre segurança rodoviária: o erro humano domina amplamente as causas técnicas ou ambientais. O não respeito das regras de condução, que engloba a distração ao volante, o não respeito das prioridades nas interseções, a condução sob efeito de álcool e o não cumprimento da sinalização, constitui a primeira causa de acidente, com 30% dos casos registrados. Ainda mais grave, essa categoria de causas é responsável por perto de 40% das mortes registradas em 2025.
O defeito de domínio do veículo chega em 2º lugar com 25% dos acidentes, seguido do excesso de velocidade (20%) e da imprudência (16%). A eventual falha mecânica, frequentemente apontada pela opinião pública, representa na realidade apenas 4% das causas de acidente, um número claramente inferior ao comportamento individual dos usuários das vias. As causas diversas não classificadas nas categorias anteriores somam 5%. Essa hierarquia de causas confirma que a luta contra a insegurança rodoviária no Senegal repousa antes de tudo sobre uma mudança de comportamentos de condução mais do que sobre o estado da frota automóvel ou das infraestruturas.
O entardecer e a tarde, faixas horárias mais críticas
Nos grandes eixos rodoviários, a repartição de acidentes segundo a hora do dia desenha um perfil claro. O intervalo horário das 18h00 às 00h00 concentra por si só 37% dos acidentes, seguido pelo intervalo das 12h00 às 18h00 com 33%. Juntas, estas duas faixas da tarde e da noite representam, portanto, 70% dos acidentes ocorridos fora da aglomeração, uma proporção explicável pela mobilidade intensa de veículos nesses horários, associada a uma circulação mais fluida, portanto mais propícia à velocidade, fora das zonas urbanas.
O intervalo das 6h00 às 12h00 representa 25% dos acidentes. Por sua vez, o período noturno 00h00-6h, que corresponde ao horário de proibição de circulação imposto aos veículos de transporte público, regista apenas 5% dos acidentes, confirmando a eficácia dessa medida regulatória na redução do tráfego noturno de risco.
Os usuários vulneráveis, primeiras vítimas de colisões urbanas
A análise dos tipos de colisão em ambiente urbano evidencia uma exposição muito desigual dos usuários da via face aos riscos rodoviários.
As colisões entre ciclomotores constituem o tipo de acidente mais frequente na cidade, com 30% dos casos registrados. São também responsáveis por uma participação desproporcional da mortalidade e das lesões: 34% das mortes e 63% dos feridos em ambiente urbano estão relacionados a esse tipo de colisão. Este constatante traduz o papel preponderante ocupada pelas duas rodas motorizadas na mobilidade urbana senegalesa, bem como a vulnerabilidade intrínseca de seus condutores, pouco protegidos em caso de choque.
As colisões entre veículos automóveis, embora frequentes (25% dos acidentes urbanos), apresentam paradoxalmente uma contribuição muito mais modesta para a mortalidade, com apenas 4% dos mortos, a carroçaria e os equipamentos de segurança dos automóveis oferecendo proteção bastante superior à dos ocupantes de bicicletas e de ciclomotores.
Os peões e os ciclistas aparecem como as grandes vítimas da estrada. Os peões atropelados por um veículo representam apenas 4% dos acidentes urbanos, mas concentram 17% das mortes e 17% dos feridos graves. Uma relação de gravidade extremamente elevada para esse grupo de usuários. Da mesma forma, os ciclistas atropelados por um veículo representam apenas 9% dos acidentes, mas 19% das mortes, confirmando a sua exposição extrema na ausência de infraestruturas cicláveis adequadas.
Ainda, o relatório sinaliza um fenómeno emergente a vigiar: acidentes envolvendo veículos hippomóveis ainda marginais (9% dos acidentes, 3% das mortes, 6% dos feridos graves), mas cuja presença progressiva no tráfego urbano e periurbano constitui um desafio novo para a segurança rodoviária.
O balanço de 2025 da ANASER traça o retrato de uma acidentalidade rodoviária senegalesa ao mesmo tempo massiva e concentrada: concentrada geograficamente ao redor de Dacar e dos grandes eixos estruturantes (RN1, autoestrada A1), concentrada no tempo em torno de períodos de elevada mobilidade (festas de fim de ano, férias), e concentrada do ponto de vista das causas, já que os comportamentos humanos (desrespeito às regras de condução, excesso de velocidade, imprudência) explicam a esmagadora maioria dos sinistros, longe das falhas mecânicas ou do estado das vias.
Esta leitura dos dados convida a uma ação direcionada: reforço de fiscalizações nos eixos mais letais, sensibilização acrescida durante os períodos de maior afluência, proteção reforçada dos usuários vulneráveis (pedestres, ciclistas, condutores de duas rodas), e sobretudo, um trabalho de base sobre o respeito às regras de condução, identificado como o fator mais determinante na ocorrência de acidentes mortais no Senegal.
Oumar Boubacar NDONGO e Cheikh Tidiane NDIAYE


