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Investigadores portugueses criam enzima para reciclar plástico sem incineração

A revolução silenciosa de Portugal na reciclagem de plásticos: enzimas, não incineradores

O Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) desenvolveu uma enzima geneticamente melhorada capaz de decompor o poliuretano – o plástico durável usado em sapatos, colchões e esponjas de cozinha – sem a necessidade de altas temperaturas ou produtos químicos agressivos. Este avanço, validado na Dinamarca e publicado em Catálise Química em setembro de 2026, oferece um novo caminho promissor para gerir os resíduos plásticos sem incineração ou exportação para aterros. Para Portugal, poderá significar liderar a Europa na transformação de resíduos em materiais reutilizáveis ​​– de forma sustentável.

Por que isso é importante

Não é necessário derreter: A enzima degrada o poliuretano em sua forma original, evitando a trituração que consome muita energia, os banhos químicos ou os processos de alta temperatura usados ​​na reciclagem tradicional.

O desafio oculto dos resíduos em Portugal: Os resíduos de poliuretano — em grande parte provenientes de calçado e mobiliário — são abundantes em Portugal, sem que exista um sistema de reciclagem generalizado. O descarte atual geralmente envolve queima em fornos de cimento ou exportação para manuseio não regulamentado.

Vantagem de baixa energia: A enzima opera à temperatura ambiente e à pressão normal do ar, representando uma grande redução na demanda de energia em comparação aos métodos industriais.

Potencial futuro: Estão em curso discussões iniciais para dimensionar a tecnologia, com esforços-piloto previstos nos centros industriais do norte de Portugal — incluindo áreas centradas no setor do calçado.

A Ciência: Do Composto Dinamarquês aos Laboratórios do Porto

A jornada começou com uma bactéria, Chelatococcus compostiisolado de composto orgânico na Dinamarca, conhecido por sua rara capacidade de digerir poliuretano. Embora descoberto no estrangeiro, investigadores da FCUP analisaram a sua estrutura genética recorrendo a recursos computacionais de alto desempenho. Através de extensas tentativas e erros, eles refinaram a enzima para melhorar sua eficiência. O resultado é um biocatalisador que tem como alvo as cadeias moleculares resistentes do poliuretano, decompondo-as em monômeros reutilizáveis ​​— sem pré-tratamento ou solventes tóxicos.

Ao contrário da reciclagem tradicional, que luta contra os plásticos termofixos, esta enzima funciona em condições diárias. Ele dissolve espuma de poliuretano, solas de sapatos e até núcleos de colchões multicamadas em seus componentes de base, prontos para reutilização.

O problema português: o plástico que ninguém sabe reciclar

Embora as garrafas PET sejam amplamente recolhidas e recicladas em toda a Europa, o poliuretano continua a ser um ponto cego. Uma vez endurecido, não pode ser derretido, impossibilitando a reciclagem convencional. Como resultado, muitos dos resíduos de poliuretano de Portugal acabam queimados ou exportados.

A indústria do calçado, centrada em regiões como Vila do Conde, Marco de Canaveses e Mondim de Basto, gera uma parcela significativa destes resíduos. Os fabricantes de colchões também contribuem substancialmente. Atualmente, não existem sistemas de devolução nem soluções circulares em vigor.

Esta enzima oferece uma nova possibilidade: imagine produtos antigos sendo devolvidos às lojas, tratados com uma solução enzimática suave e convertidos em matéria-prima para novos produtos. Embora ainda não esteja operacional, esta visão está a ser explorada pelas partes interessadas da indústria.

O que isso significa para os residentes

Você não verá novas lixeiras para reciclagem de poliuretano amanhã. Mas nos próximos anos, os consumidores poderão encontrar produtos rotulados como feitos com materiais reciclados — ou beneficiar de novos programas de devolução. Os municípios poderão eventualmente reduzir os custos de eliminação de resíduos se a reciclagem se tornar mais eficiente.

Mais importante ainda, esta inovação está alinhada com as regras de responsabilidade alargada do produtor de 2027 da UE. Os fabricantes portugueses que adoptem esta tecnologia poderão em breve conseguir demonstrar uma verdadeira circularidade — fortalecendo a confiança na marca, especialmente entre os consumidores ambientalmente conscientes.

O caminho a seguir: Portugal, não Vale do Silício

O verdadeiro potencial reside na construção de um ecossistema localizado e sustentável. Enquanto muitos inovadores globais procuram alternativas sintéticas, Portugal está agora posicionado para ser pioneiro numa das primeiras cadeias biocirculares completas da Europa para um plástico difícil de reciclar. As colaborações com centros de investigação internacionais estão a promover esforços de expansão. Na próxima década, o objectivo é estabelecer uma instalação piloto regional – processando resíduos locais e fornecendo monómeros reciclados às indústrias portuguesas.

Não se trata apenas de reduzir o desperdício. Trata-se de redefinir o futuro industrial de Portugal – substituindo a eliminação por design e os insumos fósseis por soluções baseadas na biologia. Da próxima vez que calçar um par de sapatos portugueses, poderá perguntar-se: são feitos de petróleo… ou de resíduos de ontem? A resposta poderá em breve refletir uma inovação nova e local.

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