A divulgação dos resultados do projeto Behind the Scenes (Nos Bastidores) Senegal no Museu Théodore Monod de Arte Africana da Ifan-Ucad destacou as fissuras que atravessam as indústrias culturais e criativas: baixa presença de jovens mulheres em determinadas malhas da cadeia de valor, assédio sexual, deficiências do arcabouço jurídico e incertezas quanto ao financiamento público da cultura.
Por trás das imagens sedutoras de um setor cultural frequentemente apresentado como um formidável reservatório de empregos, de criatividade e de inovação, existem zonas sombrias que os números e os relatos de campo vêm agora esclarecer. No Senegal, as jovens que atuam nas indústrias culturais e criativas nem sempre recebem as mesmas oportunidades que seus homólogos masculinos. Além disso, algumas enfrentam formas de assédio cujo alcance, conforme a definição adotada, pode chegar a proporções consideráveis. Este é um dos ensinamentos centrais da pesquisa Behind the Scenes Sénégal, cujos resultados foram apresentados nesta terça-feira, 11 de agosto, no Museu Théodore Monod de Arte Africana da Ifan-Ucad, durante uma sessão de disseminação e partilha com atores da pesquisa, da cultura e das instituições. O projeto, conduzido internacionalmente pelo International Center for Research on Women (ICRW), com o apoio da Mastercard Foundation, interessa-se pelas indústrias culturais e criativas na África, mas sobretudo pela forma como as jovens mulheres podem encontrar espaço, aproveitar as oportunidades que se lhes apresentam e superar os obstáculos que se interpõem em seus caminhos.
No Senegal, a pesquisa foi coordenada pelo Laboratoire de recherche sur les mutations économiques et sociales (LREM) da Université Cheikh Anta Diop de Dakar, em parceria com o Institut supérieur des arts et de la culture (ISAC). Reuniu 13 jovens pesquisadoras com menos de 35 anos, dentre as quais dez eram mulheres. “Fizemos uma investigação aprofundada sobre o setor das indústrias criativas e culturais no Senegal”, afirmou o Dr. Ousmane Faye, pesquisador principal do LREM e coordenador do projeto. A principal conclusão da pesquisa aponta que as mulheres continuam sub-representadas na cadeia de valor da produção criativa. Essa situação pode parecer paradoxal em um mundo onde as jovens mulheres estão cada vez mais presentes nos ofícios ligados à cultura. Contudo, a presença delas no setor não significa necessariamente que ocupem as mesmas posições, nem que possuam os mesmos instrumentos de decisão, visibilidade ou acesso aos recursos.
É exatamente essa distinção que a pesquisa convida a considerar. Estar presente em um setor não implica automaticamente exercer um poder econômico equivalente, ter acesso às mesmas oportunidades ou beneficiar das mesmas condições de trabalho.
Por trás dessa estatística surge uma realidade mais complexa: a de um setor em que a criatividade nem sempre é suficiente para garantir igualdade de oportunidades. As trajetórias profissionais são moldadas pelo acesso às redes, aos financiamentos, aos espaços de produção, à formação, aos contratos/mandatos e ao reconhecimento.
A questão, portanto, não é apenas quantas mulheres trabalham nas indústrias criativas. Também se trata de determinar onde elas ocupam posições nessa cadeia de valor, quais responsabilidades exercem, quais recursos controlam e quais obstáculos marcam seus percursos. Este mergulho nas realidades profissionais das jovens mulheres revela um dado preocupante: a experiência do assédio sexual. O número apresentado pelos pesquisadores é impressionante.
Uma presença feminina ainda em retraimento
“75 % das jovens mulheres no setor afirmam ter vivenciado uma experiência de assédio sexual”, indicou Ousmane Faye. Esse número exige uma precisão metodológica. Ele corresponde a uma concepção ampla de assédio sexual adotada na pesquisa. Quando se recorre a uma definição mais clássica do fenômeno, diz ele, a proporção diminui, mantendo-se, porém, preocupante. Aproximadamente 26 % das mulheres entrevistadas declararam ter vivido uma situação de assédio. Para documentar um setor tão mutável quanto o das indústrias culturais e criativas, os pesquisadores optaram por não se apoiar em uma única fonte de informação. Eles combinaram pesquisas qualitativas, pesquisas quantitativas e um método participativo denominado “photovoice”. Este último permite que as pessoas envolvidas contem suas experiências por meio da imagem, revelando realidades que por vezes escapam aos questionários tradicionais. A escolha de mobilizar jovens pesquisadores constitui um sinal. Treze pesquisadores com menos de 35 anos participaram do trabalho, entre eles dez mulheres. Essa vontade de aproximar a pesquisa universitária da realidade social foi elogiada por Amy Kébé Mané, representante do reitor da Université Cheikh Anta Diop. Ela ressaltou o alcance institucional de uma iniciativa desse tipo. Para a Ucad, a pesquisa não pode ser dissociada das questões de justiça social, inclusão e igualdade de oportunidades. Segundo ela, essa orientação está integrada à criação, dentro da universidade, da Direção de Inclusão, Bem-Estar e Desenvolvimento Humano. Por meio dessa estrutura, a instituição pretende colocar as questões ligadas à inclusão e ao bem-estar no centro de seu funcionamento e de sua missão. A pesquisa não permanece confinada aos auditórios ou às publicações científicas. Ela retorna à sociedade, com seus números, seus testemunhos, suas contradições e suas expectativas.
Adama NDIAYE
