Num país cada vez mais atento ao uso responsável da água, uma moradora de Guimarães recebeu uma fatura que a deixou em choque: 9 807 euros por 5 187 m³, o equivalente a duas piscinas olímpicas. Vive sozinha, usa água com parcimónia e alega ter alertado repetidamente os serviços. A história arrasta-se há anos, enquanto milhares de litros continuam a perder-se no subsolo.
Uma fatura que ultrapassa todos os limites
Quando viu o valor, a moradora — chamemos-lhe Marta para preservar a identidade — não ficou exatamente surpresa. Já antes recebera contas astronómicas, que decidiu contestar ou não pagar, por suspeitar de uma fuga oculta no trajeto da água até casa. Desta vez, porém, a paciência transbordou como um tanque sem válvula de segurança.
“É o equivalente a duas piscinas olímpicas”, desabafa, mostrando o contador que, segundo diz, “roda como um moinho mesmo quando há cortes de abastecimento na zona”. Para quem vive sozinha, a discrepância é difícil de explicar sem uma anomalia grave.
De quem é a responsabilidade?
Os serviços, contactados pela moradora, admitem a probabilidade de uma fuga significativa na secção privada a jusante do contador. A tubagem atravessa um terreno vizinho, enterrada sob pavimento antigo, o que complica qualquer intervenção sem licenças e acordos prévios. A empresa propôs um acordo com o proprietário do lote ou a derivação do ramal por uma rota alternativa, mediante obras por conta da utilizadora.
Marta recusa assumir despesas que considera indevidas. “Se o meu contador marca consumo durante um corte geral, o problema está a montante, no contador ou na rede pública”, afirma com convicção. A empresa contrapõe que as perdas são detetadas após o contador, pelo que o consumo é tecnicamente legítimo e deve ser faturado, ainda que com possibilidade de ajustamento se a fuga for reparada.
Seis anos de diálogo de surdos
A situação arrasta-se há quase seis anos, desde uma mudança de gestão intermunicipal na zona. A entidade diz-se disponível para recolocar o contador mais perto da habitação, mas apenas quando houver solução para a conduta privada. A moradora espera, pelo contrário, uma intervenção que prove a origem pública do problema antes de abrir um único metro de vala.
Entretanto, a água perde-se no solo, gota a gota, dia e noite. Em verões de seca, com restrições e apelos à poupança, o desperdício soa a paradoxo difícil de engolir. “Não podemos suportar incobráveis e, ao mesmo tempo, investir na rede por causa de um caso individual”, alega um técnico, pedindo discrição face ao litígio em curso.
O que está realmente em causa
Por trás da fatura desmedida há direitos, deveres e impactos que tocam toda a comunidade:
- Recurso escasso: cada metro cúbico perdido agrava a pressão sobre mananciais e reservas.
- Responsabilidade: a manutenção da rede predial é do proprietário; a infraestrutura pública cabe à entidade gestora.
- Prova técnica: testes com fechos de válvulas, data logging e ensaios de pressão ajudam a localizar fugas.
- Mitigação: muitas empresas ajustam consumo por fugas ocultas se houver reparação e prova documental.
- Prevenção: válvula de corte acessível, contador inteligente e auditoria de instalações evitam surpresas.
A lei, a técnica e o bom senso
Na prática, casos assim pedem mais do que argumentos: exigem medições rigorosas, registos e um plano de obras claro. Um teste coordenado — fechar a válvula de entrada no contador e monitorizar caudal — pode clarificar se a fuga está dentro da propriedade. Em paralelo, a leitura noturna com telemetria ou contador provisório em by-pass pode robustecer a prova.
Se ficar demonstrada a fuga em zona privada, cabe ao titular contratar canalizador credenciado e pedir, depois, revisão por fuga não detetada. Se os indícios apontarem a montante, a entidade deve intervir na via pública e creditar o consumo em excesso com base na perícia. Em última instância, há mediação nos Centros de Arbitragem de Consumo, que costumam dar desfechos mais rápidos e menos onerosos.
O próximo passo
Marta admite avançar para o Tribunal Administrativo e Fiscal, caso não haja uma solução equilibrada. “Não vou pagar por água que não usei”, insiste. A empresa diz manter a porta aberta para uma saída negociada, desde que se cumpra o roteiro técnico para eliminar a fuga.
Ninguém ganha com o impasse: perde o ambiente, perde a confiança no serviço e perdem os contribuintes, que esperam redes mais eficientes. Entre a letra fria do regulamento e a necessidade urgente de poupar cada gota, fica um apelo simples: que ambas as partes avancem, com transparência e boa-fé, para fechar a torneira do desperdício o quanto antes.
