Oustaz Mor Kébé mostra uma disponibilidade rara quando se trata de abordar esse tema que ele considera como um dos flagelos morais mais corrosivos de nossa época. Assim que a palavra «falsos marabutos» é proferida ao telefone, sua voz se endurece e ganha gravidade. O Sr. Kébé disseca esse fenômeno que ele acusa de devastar silenciosamente o tecido social senegalês.
Para ele, o fenômeno não é fruto do acaso nem de uma simples deriva marginal. É o produto de um caldo social, religioso e econômico profundamente fissurado. Em um fluxo de fala preciso, às vezes cortante, ele enumera os mecanismos que, segundo ele, alimentam essa indústria do místico, que se tornou um verdadeiro mercado de credulidade. «Existem vários fatores que incentivam esse fenômeno em nossa sociedade», avisa, antes de direcionar o olhar para alguns ensinamentos desviados ministrados em daaras.
Segundo ele, após o aprendizado clássico do Alcorão, algumas crianças são iniciadas em práticas esotéricas totalmente alheias aos fundamentos do islamismo. «Entregam-lhes livros místicos, cheios de escritas árabes, que remetem mais à magia do que aos textos religiosos», denuncia com severidade quase descarada. Para o religioso, essa confusão savammentemente alimentada entre o sagrado e o ocultismo constitui uma das maiores imposturas espirituais de nossa época.
Em sua análise, ele aponta também uma realidade social frequentemente silenciada: o desocupamento de muitos jovens à saída das daaras. «Muitos têm dificuldade em encontrar emprego. Tendo já aprendido o Alcorão e outras práticas do mesmo tipo, alguns acabam por fazer disso um meio de subsistência. «É um atalho para o dinheiro fácil», lamenta. O espiritual, afirma, transformou-se progressivamente em vitrine comercial onde o sofrimento humano se torna uma matéria-prima monetizável. «Isso se torna um fundo de comércio», insiste, antes de pedir o fim da transmissão desses saberes que ele considera perigosos.
Mas, para além dos iniciadores, Mor Kébé também responsabiliza a disposição psicológica de uma parte da sociedade senegalesa, que ele julga excessivamente permeável ao charlatanismo. «Os senegaleses acreditam demais nessas coisas», sussurra. Segundo ele, mesmo quando conseguem um emprego, passam em um concurso ou iniciam um projeto, muitos sentem a necessidade irrefreável de consultar um marabuto para assegurar o seu sucesso. Uma prática que ele considera uma desvio profundo da relação com a fé: «Não é uma oração. No Islã, rezamos a Deus, não a um homem.»
O guia toma então cuidado de estabelecer uma distinção clara entre o verdadeiro «Salat al-Istikharah» recomendado pelo Islã, essa oração efetuada para pedir a Deus que guie uma escolha, e os rituais místicos vendidos por alguns pseudo-guia religiosos. «Cada muçulmano pode fazer um Salat al-Istikharah ao realizar uma oração voluntária de duas rak’ahs e pedir a Deus para o orientar. Isso não tem nada a ver com essas práticas ocultas», preocupa-se em esclarecer. O outro veneno, prossegue, é a ignorância religiosa. «Muitos nunca aprenderam realmente o Islã. Eles não sabem distinguir a religião das práticas que se aproximam dela», lamenta o Sr. Kébé. Em uma sociedade fascinada por símbolos, explica ele, a simples presença de escritos árabes ou de versículos corânicos costuma bastar para conferir uma aparência de legitimidade. «Assim que veem árabe, pensam imediatamente no Alcorão», suspira. Uma ingenuidade da qual, segundo ele, tiram proveito vigaristas hábeis, capazes de maquiar práticas ocultas sob as vestes do religioso. «O Alcorão não é um fundo de comércio», conclui, com uma frase seca. Oustaz Kébé também menciona a banalização midiática do fenômeno: anúncios na televisão, promoções agressivas nas redes sociais, promessas de riqueza, de casamento ou de cura.
« A fé, em essência, não pode ser nem monetizada nem condicionada… »
Ele observa com estupor essa mercantilização pública do sagrado. «O que está a acontecer hoje no Senegal é extremamente preocupante», lamenta.
Para o abade Stanislas Diouf, antigo professor de teologia espiritual no Grand Séminaire de Sébikotane, a fronteira entre fé e comércio espiritual está hoje perigosamente turva em certos espaços religiosos. Uma deriva que ele julga ainda mais grave por afetar crentes muitas vezes fragilizados, em busca de respostas imediatas para seus sofrimentos. «A palavra de Deus não pode tornar-se uma ferramenta de comércio», afirma. Para o homem da igreja, a vocação dos textos sagrados é acompanhar o ser humano em sua relação com Deus, e não servir de alavanca a interesses financeiros, a promessas de cura condicionadas ou a lógicas de mercantilização do sagrado. A Bíblia, lembra ele, permanece acima de tudo a palavra de Deus a serviço da santificação do homem. Qualquer tentativa de instrumentalizá-la para fins de poder ou de enriquecimento pessoal constitui, segundo ele, uma traição de seu sentido profundo.
Abordando a questão dos milagres, o abade Stanislas Diouf adota uma posição de prudência teológica. Embora reconheça o papel central deles na tradição cristã, ele lembra que não pertencem a nenhum poder humano dominável. Mostra-se particularmente crítico diante de práticas espetaculares em que certos pregadores prometem curas instantâneas em troca de atos de fé ou de doações financeiras. Para ele, essas encenações revelam uma confusão grave entre espiritualidade e performance: «A fé, em essência, não pode ser monetizada, nem condicionada, nem transformada em instrumento de cálculo.»
Por A. NDIAYE
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