Selecionado na seção oficial «Un Certain Regard», o filme «Congo boy» teve um enorme sucesso e tornou-se o grande acontecimento do Festival de Cannes 2026.
O músico rapper que também se tornou cineasta Rafiki Fariala conta no filme «Congo boy» a sua própria história: nascido no leste da República Democrática do Congo, foi obrigado a fugir da guerra com os pais. Eles estabeleceram residência na África Central, em Bangui, e é ali que ele cresceu. Contudo, sempre foi visto como um estrangeiro. Como indica o título do filme, ele reivindica ser um jovem como os outros, com a única diferença de ter nascido no Congo. O filme é marcante, movido pelas canções escritas pelo diretor e por uma narrativa empolgante que mistura dificuldades e improvisação. Um sucesso, ao mesmo tempo profundamente enraizado na realidade e autônomo na sua abordagem, livre de qualquer cliché. Com o seu ator principal Bradley Fiomona e os membros da equipa que puderam juntar-se a eles apesar dos problemas de visto, viveram a sessão como uma consagração coletiva. «É uma grande honra», sublinha Bradley, lembrando a raridade de uma trajetória tão singular para um filme da África Central.
Rafiki insiste na dimensão exemplar dessa presença em Cannes: «sendo jovens, africanos, podemos sonhar em chegar a Cannes!». Essa trajetória é também fruto de um longo aprendizado, iniciado com ateliers documentários em Bangui, depois confirmada pelo seu primeiro longa-metragem «Nós, Estudantes!», selecionado em Berlim. A escrita de «Congo Boy» desenvolveu-se num diálogo estreito com o roteirista francês Tommy Baron. Rafiki conta: «eu escrevia em primeira pessoa, contava apenas a minha vida». Juntos, transformaram esse material bruto em ficção, ao mesmo tempo preservando a sua autenticidade. Essa abordagem está refletida na atuação de Bradley, alimentada tanto pelo roteiro quanto pela improvisação: «tentávamos improvisar com uma certa liberdade».
Essa hibridização entre escrita e espontaneidade, herdada do documentário, confere ao filme a sua força e a sua verdade. No coração da narrativa desenrola-se um conflito geracional típico: entre as expectativas dos pais centradas nos estudos e as aspirações pessoais do jovem herói. Rafiki evoca «um confronto entre a nova e a velha geração», defendendo ao mesmo tempo a escuta dos sonhos das crianças. O filme também explora a solidariedade familiar, sobretudo através da relação entre o personagem principal e a sua irmã, bem como cenas do cotidiano que misturam humor e pudor, como aquela dos absorventes higiênicos, uma cena hilariante que revela «a timidez, a inocência, a vergonha».
Realidade social exigente
Mas «Congo Boy» descreve sobretudo uma realidade social exigente, onde «todo mundo quer arriscar» sobre os parcos recursos do herói. Nesse universo, apenas a amizade e a música oferecem apoio. Ainda assim, Rafiki defende uma mensagem de esperança: «mesmo que haja dificuldades, alguns conseguem sair disso». A questão dos refugiados é central. Rafiki recorda: «eu não escolhi ser refugiado». Descreve uma condição paradoxal: «você é livre… mas é prisioneiro», constrangido pelas limitações administrativas e pela ausência de reconhecimento. Ele insiste numa realidade frequentemente invisibilizada: os deslocamentos intra-africanos, que por vezes se estendem por várias décadas de precariedade. A sua própria vivência, longamente oculta, tem sido fonte de sofrimento, entre estigmatização e ameaças.
Hoje ainda, apesar do seu estatuto de refugiado na França, ele constata que «é sempre a mesma coisa», mas afirma uma forma de resiliência: «orgulho de ser refugiado… a vida está à frente». O filme apresenta-se assim como muito mais do que um simples filme vindo de Bangui. É a prova inequívoca de que um jovem refugiado, partindo de uma mini-câmera e de ateliers de fortuna, pode abrir caminho até Cannes ao contar a sua vida, sem suavizá-la nem traí-la.
Esta ficção alimentada pelo documentário, conduzida pela energia de Bradley Fiomona e pela lucidez obstinada de Rafiki Fariala, transforma a miséria, o medo e o exílio em desejo de cinema — e em desejo de viver.
Saímos da sessão com a sensação de que uma porta se abriu: para o cinema da África Central, para os relatos de refugiados, mas também para toda uma juventude africana a quem o filme sussurra, muito simplesmente: sonhar é um direito, e às vezes funciona.
Por Olivier BARLET
