Apesar de uma campanha repleta de obstáculos, o setor algodoeiro no Senegal confirma a sua recuperação, impulsionado por rendimentos em ascensão e apoios estruturais.
Apesar de uma campanha 2025-2026 marcada por constrangimentos reais, nomeadamente atrasos na disponibilidade de insumos e irregularidade das chuvas, com bolsões de seca, vários fatores indicam perspectivas promissoras. De facto, em 21.000 hectares semeados, a produção já recolhida até a metade de abril supera 25.000 toneladas de algodão em caroço, ou seja, mais de 60% do nível da campanha anterior. Esse progresso baseia-se, sobretudo, num potencial agronômico real.
Os rendimentos, claramente em melhoria, passaram de 800 kg para mais de 1,2 tonelada por hectare, posicionando agora o Senegal ao nível de alguns líderes regionais. Esse desempenho evidencia a qualidade dos solos, mas também um melhor domínio das práticas técnicas. Outro fator determinante: o papel da Sodefitex. Através de um apoio mais firme aos produtores, de uma seleção mais rigorosa dos exploradores e da melhoria das práticas culturais, a empresa contribuiu para estruturar uma produção mais eficiente e mais resiliente. A esse esforço soma-se o apoio firme do Estado.
A injeção de 3 bilhões de Fcfa na campanha em curso facilitou o acesso aos insumos e elevou o preço de compra aos produtores para 350 Fcfa/kg, por meio de uma subvenção direcionada. Esse sinal forte ajudou a restaurar a confiança dos cotonicultores e a estimular as primeiras lavouras. No contexto regional, marcado pela ascensão de países como Benim ou Mali, o Senegal dispõe de vantagens diferenciadoras, segundo um documento do Programa Regional de Produção Integrada do Algodão na África (Pr-Pica), que apresenta números encorajadores.
Por exemplo, em 21.000 hectares semeados, a produção já recolhida até 18 de abril de 2026 soma 25.072 toneladas de algodão em caroço, ou seja, mais de 60% do nível da campanha anterior. Entre a melhoria dos rendimentos, a organização dos agentes e o apoio público, o país parece empenhado numa trajetória de crescimento sustentável. Essa dinâmica, se se confirmar, poderia reposicionar de forma duradoura o Senegal como um ator credível e competitivo no cenário algodoeiro africano, indica o relatório.
Uma necessidade urgente de equipamentos agrícolas
Segundo Abdou Traoré, diretor da produção agrícola na Sodefitex, o setor algodoeiro no Senegal vem registrando uma dinâmica positiva há várias campanhas, porém continua ante constrangimentos significativos ligados ao déficit de equipamentos. Desde 2022, a produção tem apresentado melhoria contínua, atingindo hoje cerca de 25.100 toneladas, com um objetivo ambicioso de 35.000 toneladas para a próxima campanha. Um progresso considerado encorajador, mas que requer um acompanhamento mais robusto.
O principal desafio, afirma ele, permanece a falta de material agrícola, nomeadamente de semeadoras. As necessidades são estimadas em 2.000 unidades, enquanto apenas metade está atualmente disponível. Ora, o êxito da campanha depende fortemente do cumprimento do calendário agrícola. “Para obter bons rendimentos, é preciso semear já no mês de junho, com as primeiras chuvas. Semear em julho envolve riscos de queda de rendimento”, explica.
Nesse sentido, dispor de um número suficiente de semeadoras permitiria cobrir até 90% dos 30.000 hectares já a partir de junho, condição essencial para enfrentar o desafio de produção. Caso contrário, corre-se o risco de não conseguir semear toda a superfície a tempo, o que impactaria diretamente os rendimentos. Além disso, a renovação da frota de tratores é uma questão premente. “Desde 2017, a frota está obsoleta”, sublinha Abdou Traoré, lembrando que os agricultores, especialmente aqueles que cultivam perto de 50 hectares, precisam de equipamentos eficientes para melhorar a sua produtividade.
Para além da produção, o setor algodoeiro representa um importante eixo de criação de empregos. A instalação de uma pequena fiação poderia gerar até 1.000 empregos, ilustrando o potencial industrial do setor caso o Estado apoie mais fortemente os investimentos.
Também vice-presidente do programa regional de produção integrada de algodão na África, que reúne oito países, Abdou Traoré ressalta uma vantagem majeur do Senegal: a qualidade de sua fibra, reconhecida como uma das melhores da região. Recorda que o recorde de produção nacional continua em 52.000 toneladas, atingido em 2007, um nível que poderia ser novamente alcançado se as atuais restrições forem levantadas.
Oumar Fedior
