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Bento, sobrevivente da tragédia no trilho Pico do Areeiro–Pico Ruivo (Madeira), recorda o dia mais negro da sua vida

No alto da cordilheira da Madeira, entre o Pico do Areeiro e o Pico Ruivo, uma trovoada súbita transformou um trilho de liberdade em um cenário de caos. Dez anos depois, Benoît — a quem os amigos chamam de Bento — um dos três sobreviventes daquele dia, aceita revisitar as memórias que ainda lhe pesam nos ombros. O seu relato fala de amizade, de medo e de um regresso lento a uma vida possível, depois de a montanha mostrar toda a sua força.

Benoît Cristin. • © FTV

Um grupo que virou família

No início eram apenas três, mas, a cada curva, novos companheiros se juntavam. Arthur, Céline, Léopold, Didier, Thibault, Bernard… uns com muita experiência, outros com menos, todos com respeito pela serra. O caminho era um sopro de liberdade, uma celebração de passos e paisagens. “Partilhávamos comida, histórias e um silêncio bom”, recorda Bento, que ainda sente a vibração daqueles dias luminosos.

A tempestade inesperada

Naquela manhã, o céu parecia estável, apesar de trovoadas nas vésperas. Cruzaram equipas de rescaldo e outros caminheiros sorridentes, sinais que pareciam tranquilizadores. A descida para um vale pedregoso, com cabos e escadas, começou com passo seguro, mas nuvens escuras cresceram depressa. A primeira chuva trouxe hesitação; decidiram recuar até à crista, tida como mais segura. Bento demorou a ajustar as polainas e subiu por último — detalhe que, acredita, lhe salvou a vida.

Ilustração - Cirque de la solitude.
Ilustração – Cirque de la solitude. • © ROBERT PALOMBA / ONLY FRANCE

Minutos suspensos no abismo

Com o trovão a calar as conversas, o grupo encostou-se à parede rochosa, ombro com ombro, à espera da bonança. Quando Bento chegou já quase não havia espaço, por isso ficou um pouco afastado. A chuva engrossou, e ao tambor da água juntou-se o som seco das pedras a cair. “Foi assustador: vimos regueiros nascer em segundos, uma teia de água a escorrer por toda a encosta. E, de repente, o clarão, os gritos.”

“Tentei agarrar o meu amigo, mas era impossível — o peso do corpo e da mochila levaram-no para baixo.”

À frente, um vazio de 25 metros; à direita, um regato virou torrente; à esquerda, uma língua de rocha e lama rolava sem trégua. “Pensei que era o único vivo. Não via ninguém, não via saída. Estava convencido de que seria o próximo.” Quando a trovoada aliviou por instantes, avistou Pascal e Léopold, feridos, numa fenda abaixo. Chamou os socorros — e, por milagre, o sinal de telemóvel chegou.

Os socorristas recuperam uma quarta vítima.
Os socorristas recuperam uma quarta vítima. • © FILIPPI JEANNOT

O resgate e o depois

Quando a equipa de montanha chegou, o corpo de Bento tremia inteiro. A ideia de alívio custava a entrar — depois de tanta pressão, o cérebro demora a acreditar que o perigo passou. Foi içado por helicóptero para o abrigo e, depois, para o posto de comando, onde tendas brancas formavam um pequeno hospital de campanha. “Havia uma dignidade enorme em cada gesto. Aqueles profissionais salvaram-me a vida.”

Culpa, risco e reconciliação

Os dias seguintes foram uma travessia de culpa: o sobrevivente que se pergunta “porquê eu?”. Bento admite que se sentiu invulnerável durante algum tempo, como se o que restava do seu tempo não lhe pertencesse. “Com pensamentos destes, a gente força os limites.” Atirou-se a saltos de canyoning que antes nunca tentaria — e partiu duas vértebras. Só mais tarde entendeu que viver não é desafiar a sorte, é aprender a cuidar do que a sorte lhe deu.

Ilustração - O anfiteatro rochoso.
Ilustração – O anfiteatro rochoso. • © GUIZIOU FRANCK / HEMIS.FR

O que mudou para quem caminha na montanha

Bento hesitou muito antes de pensar em voltar ao trilho. O passado continua perto, e o clima, cada vez mais volátil, complica as decisões. As variações são mais bruscas, as encostas mais instáveis, a chuva mais curta e intensa. “Só regressarei se me disserem que não há risco nenhum — e, na montanha, isso não existe.” O seu conselho é simples e firme: preparar-se, respeitar a previsão, e aceitar voltar para trás quando a montanha disser que é hora.

“Demorei a voltar a ser quem era — talvez nunca volte inteiramente. Mas aprendi a escutar a montanha e o meu próprio medo.”

Como se preparar para trilhos de alta montanha

  • Consultar várias fontes de meteorologia e reavaliar a cada etapa.
  • Transportar material de progressão e abrigo ligeiro, mesmo com céu limpo.
  • Evitar zonas de parede exposta durante trovoadas; procurar alternativas.
  • Planejar saídas com margem de tempo e pontos de retorno definidos.
  • Comunicar o itinerário e levar dispositivo de emergência com bateria de reserva.
  • Em grupo, treinar sinais de comunicação e regras de decisão coletiva.

Bento fala hoje com uma serenidade nova, erguida sobre perdas que o marcaram para sempre. O que fica, diz, é a amizade dos que partiram, o profissionalismo de quem socorreu e a certeza de que a montanha é mestra exigente: dá-nos beleza sem promessa de segurança. Cabe-nos a nós devolver-lhe respeito, passo a passo, com humildade e cuidado.

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