A região de Sédhiou está repleta de oportunidades artísticas e culturais de grande relevância. Conhecida por sua diversidade e pelos vestígios coloniais, Sédhiou continua subexplotada, uma tendência que Moustapha Kambay, técnico de artes em couro, especializado em calçados, tenta inverter. Diante de sua galeria, ele partilha sua trajetória e o desafio de valorizar os aportes artísticos e culturais da região.
SÉDHIOU – Na entrada da pequena galeria de arte, a única da cidade, sapatos de couro, cintos, cabaças adornadas com contas, bem como instrumentos musicais africanos – tam-tam, kora, balafon – chamam a atenção do visitante. Estamos no bairro Julescounda, na região conhecida pelos moradores como o “rotatória Julescounda”, um cruzamento no qual pneus foram dispostos para facilitar o tráfego. Em cada esquina, o pequeno comércio volta a tomar conta, sob um sol intenso que avança para o zênite. É nessa hora que as mulheres e os mototaxi se reúnem quase todos no mercado central.
Enquanto isso, Moustapha Kambay, um homem de estatura média, observa e recoloca discretamente cada obra de arte no seu lugar habitual. O dia começou bem para este artesão, um dos poucos da região, apesar de tão rica em oportunidades para essa profissão. “Acabo de entregar uma kora aos agentes das Águas e Florestas. É um presente que eles vão oferecer a alguém. Eles encomendaram há alguns dias”, conta ele com um leve sorriso, forçado a elevar a voz para cobrir o ronco das motos-táxi.
Nessa galeria também figuram chifres de bovinos nos quais está ilustrado o cotidiano da mulher sédhiouense em seu lar, bem como cestos fabricados com folhas de rônier. “É arte, certamente, para decorar. Mas esses cestos também têm utilidade na tradição. Alguns os utilizam para esconder objetos de proteção em seus escritórios ou na mesa de centro de suas salas”, explica Moustapha Kambay.
« Ele me fez refém »
Na parede estão penduradas cabaças ornamentadas com contas, um objeto frequentemente usado pelas mulheres na Casamancá. Segundo Moustapha, quase todas as etnias utilizam esse objeto de arte. “Ele tem um significado que varia de grupo para grupo. Entre os Mandingues, por exemplo, quando uma mulher não consegue procriar, atribuem-lhe um nome e essa cabaça que ela deve usar na cabeça como um chapéu. É um ritual entre muitos outros destinados a favorecer a procriação”, conta ele. Se esta galeria de arte hoje lhe permite ganhar o pão, Moustapha, no entanto, parecia destinado à mecânica, profissão que exerceu por dois anos. Mas tudo mudou quando ele foi passar férias na casa de seu tio na Guiné-Bissau. Este, sapateiro de profissão, exercia uma atividade tradicionalmente reservada a algumas famílias, incluindo os Kambay. “Ele era o sapateiro da aldeia. Ele me prendeu. Eu o acompanhava ao seu local de trabalho. Foi assim que me tornei sapateiro primeiro”, lembra-se.
Consciente de que a prática tradicional da sapataria está obsoleta, ele se lança à procura de uma formação. Natural de Sédhiou, ele ingressa na Câmara de Ofícios e beneficia de uma formação oferecida pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Foi em 1985. “O setor de couro foi introduzido nas ofertas de formação. Naquela época, praticamente não havia formadores locais nesta área. Recebemos formadores vindos do Ocidente”, lembra.
As formações eram itinerantes. Os aprendizes reuniam-se em Ziguinchor, às vezes em Kolda ou em Sédhiou, que na época era um departamento.
Melhor da sua turma
Com o certificado na mão, ele instala-se em Dakar, onde trabalha por três anos em um ateliê no Plateau. Após um desentendimento com seus empregadores, ele deixa o emprego e abre seu próprio ateliê de sapataria na Médina, rua 29, esquina com a 28. “Foquei-me na fabricação de calçados. Tinha cinco funcionários”, confessa.
Esta etapa abriu um caminho promissor para Moustapha. Como melhor da sua turma na Câmara de Ofícios, obteve depois uma bolsa de formação de dois anos no Marrocos, ao fim da qual tornou-se técnico em artes do couro, especializado em calçados. Segundo ele, essa formação deveria ter levado à criação de um instituto de artes do couro.
De volta ao Senegal, Moustapha Kambay e os quatro demais beneficiários deveriam transmitir os conhecimentos adquiridos no Marrocos, onde também tinham sido formados como formadores. “Infelizmente, essa parte do projeto não teve continuidade. Cada um ficou na sua”, lamenta.
Promotor da cultura Mandingue
Desde o seu retorno à terra natal, Moustapha continua a trabalhar pela promoção da arte e da cultura. Na sua galeria, ele fabrica tam-tams, djembês, koras e balafons. “Não consigo compreender que sédhiouenses encomendem objetos de arte a Dakar para presentear outros sédhiouenses em Sédhiou”, lamenta.
Hoje, os habitantes compram mais obras em sua galeria, mas o ritmo das vendas permanece baixo. Segundo ele, essa situação deve-se ao fato de Sédhiou tirar quase nenhum proveito do turismo, embora “existam bilhões a ganhar nesse setor”.
Para ele, um turista escolhe um destino com base em três critérios: os sítios a visitar, as infraestruturas de acolhimento e as produções artísticas que pode levar como lembrança.
No entanto, apesar de um patrimônio rico – o forte Pinet-Laprade, a Ilha do Diabo (cujo nome ele defende mudar), o tata de Fodé Kaba Doumbouya, o rio Casamance, o pôr do sol nos vales de Madina Bourama, ou ainda o sussurro das folhas de rônier em Sibicouroto –, “nada de tudo isso foi cartografado”, lamenta Moustapha Kambay, que dirige também o Syndicat d’initiative du tourisme, uma organização de cerca de vinte membros.
Convencido de que a arte e a cultura são indissociáveis, ele também se envolve na preservação da cultura Mandingue. Através do Diombondo, uma associação que organiza a saída de circuncis na comuna de Sédhiou, ele participa todos os anos na organização de um carnaval importante durante as férias. Um meio de promover a cultura ao mesmo tempo em que valoriza as produções artísticas. Diante da magnitude desse evento, Moustapha Kambay defende a sua inclusão na agenda cultural da região de Sédhiou.
