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Viseu em alvoroço: construção de uma escadaria monumental, prestes a arrancar, gera polémicas e promete transformar a cidade

A polémica em torno da futura escadaria monumental que ligará a Baixa de Viseu ao adro da Sé está a ganhar fôlego. O investimento, orçado em 3,2 milhões de euros, promete reconfigurar fluxos pedonais e a imagem do centro histórico. Mas múltiplas vozes levantam dúvidas sobre acessibilidade e salvaguarda do património.

Património arqueológico em risco?

Arqueólogos e associações de património criticam a ausência de escavações preventivas na zona de intervenção. Argumentam que o adro da e a encosta envolvente são áreas de elevada sensibilidade arqueológica. À superfície, tudo parece discreto, mas no subsolo poderão persistir vestígios romanos e medievais.

“Estamos perante um sítio altamente arqueológico, e surpreende a falta de escavação prévia para mitigar riscos”, afirma uma responsável de uma sociedade local de arqueologia, pedindo avaliações mais exigentes. Para estes especialistas, o impacto de fundações e anexos pode ser irreversível sobre estratos frágeis.

A Câmara de Viseu garante estar a cumprir a legislação vigente e a orientação das autoridades nacionais. “É a DGPC que determina a necessidade de trabalhos arqueológicos. Face ao conhecimento atual e ao impacto previsto, não foi prescrita arqueologia preventiva”, indica um porta-voz municipal. Segundo a autarquia, haverá condicionantes técnicas para reduzir ao mínimo a intrusão subsuperficial.

Fontes oficiais referem ainda a opção por preservação in situ com acompanhamento contínuo em obra. “A solução não passa por escavação exaustiva, mas por proteger os vestígios no local, adaptando o desenho para evitar intrusões desnecessárias”, lê-se numa nota informal. Está previsto um técnico de arqueologia em permanência no terreno.

Os críticos receiam que razões económicas expliquem a ausência de escavação sistemática. Argumentam que, sem registo científico completo, parte da memória urbana pode ficar perdida. “Se surgir algo sério, será tarde para correções profundas”, alertam, pedindo maior transparência.

Acesso para todos ou escadaria para poucos?

As associações de defesa das pessoas com deficiência questionam a opção por uma escadaria monumental como eixo de ligação. Lembram que até 40% da população enfrenta limitações funcionais temporárias ou permanentes ao longo da vida. Sem rampa, elevador ou funicular, o percurso torna-se excludente.

“Construir só degraus é desenhar um acesso para os fortes e deixar os restantes para trás”, afirma um dirigente da APD, defendendo soluções de mobilidade universal. A organização considera que, num projeto novo, seria viável integrar um equipamento de elevação discreto e eficiente.

A Câmara confirma que avaliou um elevador, mas descartou por custo e impacto visual no conjunto classificado. Em alternativa, serão reforçadas ligações por autocarro entre a Baixa e o topo, operadas pelo sistema MUV Viseu com frequências ajustadas às horas de ponta. A autarquia promete também sinalética clara e passagens pedonais melhor protegidas.

Opções debatidas ao longo do processo:

  • Elevador vertical discreto junto à escadaria: integração difícil, mas solução mais inclusiva.
  • Rampa de grande extensão: viável tecnicamente, porém com impacto volumétrico relevante.
  • Funicular de encosta: forte capacidade e apelo turístico, mas custos elevados.
  • Escadas rolantes cobertas: uso prático, manutenção exigente e risco de vandalismo.
  • Passadiços alternativos com pendentes suaves: percurso mais longo, mas melhor acessibilidade.

Impacto urbano, turismo e comércio

Entre comerciantes da Baixa, há quem veja na obra uma oportunidade de trazer mais fluxo pedonal. Uma escadaria icónica pode tornar-se postal, criar novas rotinas e dinamizar a restauração de proximidade. A aposta em programação cultural no adro da Sé também é apontada como motor de atração.

Moradores, porém, temem a pressão do turismo e o encarecimento do alojamento no centro. Pedem medidas de apaziguamento do tráfego, mais arborização e gestão do ruído noturno. Urbanistas sublinham que grandes gestos arquitetónicos devem respeitar o tecido existente e a escala humana.

Especialistas em mobilidade lembram o conceito de desenho universal: o melhor projeto é aquele que serve o maior número de pessoas sem soluções paralelas. Uma escadaria pode ser peça nobre, mas necessita de um “plano B” verdadeiramente equivalente para quem não usa degraus.

Calendário e próximos passos

As obras preliminares já avançaram, e a construção estrutural da escadaria arranca no próximo mês. A conclusão está prevista para fevereiro de 2026, seguindo-se a execução de uma passarela para tornar acessíveis os jardins sob a . A autarquia garante um plano de acompanhamento arqueológico e rotas pedonais provisórias mais seguras.

Está marcada uma reunião entre a Câmara e a APD para afinar soluções de acesso equivalente. Prevê-se ainda uma sessão pública de esclarecimento com partilha de estudos, cronograma e mitigações. O sucesso do projeto dependerá da capacidade de conciliar memória urbana, inclusão plena e qualidade do espaço público.

Enquanto as máquinas preparam o terreno, a cidade observa, questiona e propõe ajustes. O desafio é erguer uma peça emblemática que some à história sem apagar camadas do passado. E que seja, sobretudo, um lugar para todos, de passo leve e horizonte aberto.

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