Os habitantes de São Lourenço da Montaria, no concelho de Viana do Castelo, acordaram sobressaltados depois de uma madrugada de temporal que deixou marcas profundas. Uma parte da parede lateral da igreja matriz cedeu durante a noite, entre rajadas de vento e descargas de trovoada, projetando pedras para o adro e abrindo uma ferida simbólica no coração da freguesia. As autoridades locais confirmaram que não houve feridos, mas a comoção é grande.
A Junta de Freguesia e a Proteção Civil isolaram de imediato o perímetro, montando um cordão de segurança e interditando o acesso ao edifício. Técnicos municipais realizaram uma primeira avaliação visual, assinalando fissuras, humidades antigas e sinais de fragilidade estrutural acentuados pelas últimas chuvas intensas. A paróquia pede calma e colaboração, lembrando que a prioridade é proteger pessoas e património.
“Foi como levar um murro no estômago; esta é a nossa casa de fé, mas também de memória”, desabafou uma moradora, emocionada, à porta do templo. Segundo o pároco, celebrações e ensaios do coro ficam “suspensos até nova indicação”, com possibilidade de transferência para o salão paroquial.
Igreja totalmente encerrada
Perante o risco de novos desprendimentos, a Câmara Municipal recomendou o encerramento total da igreja, incluindo o adro e o aditamento lateral. A decisão vigora até à peritagem de engenheiros estruturais e técnicos da Direção-Geral do Património Cultural, que avaliarão causas, extensão dos danos e soluções de reabilitação.
“Antes da passagem dos peritos, temos de manter tudo fechado e garantir que ninguém se aproxima da zona afetada”, explicou fonte municipal. A autarquia admite avançar para uma intervenção de emergência, com escoramentos e remoção de elementos instáveis, antes de um projeto de restauro mais profundo.
A comunidade católica organiza-se para deslocar missas e batizados para espaços alternativos, enquanto a freguesia articula com a Proteção Civil um plano de sinalização reforçada. A prioridade, dizem, é manter o património salvaguardado e a população em segurança.
Tempestade ou sismo?
Os primeiros indícios apontam para a conjugação de chuvas persistentes com rajadas fortes de vento, que terão saturado a alvenaria e desagregado argamassas antigas. Moradores recordam um pequeno sismo, sentido nos últimos dias no Alto Minho, e perguntam-se se as vibrações não terão contribuído para o desabamento.
Especialistas sublinham que construções históricas apresentam vulnerabilidades específicas, sobretudo quando a manutenção é irregular e as águas pluviais não são corretamente escoadas. A combinação de infiltrações, variações térmicas e sobrecargas hidráulicas pode acelerar processos de fenda e perda de coesão.
O município garantiu um relatório técnico com análise de fundações, qualidade da alvenaria e eventuais patologias ocultas. Só com dados objetivos será possível definir responsabilidades, estimar custos e calendarizar obras de reabilitação.
O que muda para a comunidade
Enquanto decorrem avaliações e medidas de mitigação, as autoridades locais pedem colaboração e bom senso. Estão em vigor as seguintes orientações para moradores e visitantes:
- Evitar aproximar-se do perímetro vedado e respeitar toda a sinalização de segurança.
- Reportar rapidamente qualquer indício de nova fissura ou ruído estrutural anómalo nas imediações.
- Encaminhar fotografias e vídeos da noite do temporal para a Junta, a fim de apoiar os peritos.
- Acompanhar os canais oficiais da freguesia para atualizações sobre celebrações, eventos e prazos.
- Não realizar trabalhos de “bricolage” ou remoção de entulho por conta própria, para evitar acidentes.
“Esta igreja é o nosso ponto de encontro, e vamos reconstruí-la com a mesma força com que a tempestade a tentou derrubar”, afirmou um voluntário do rancho local, refletindo o espírito de entreajuda que já mobiliza vizinhos e associações.
Património, clima e próximos passos
As últimas semanas trouxeram episódios de chuva intensa e trovoadas mais severas, um padrão que se tem repetido em várias regiões de Portugal. Técnicos lembram que a adaptação do património às novas realidades climáticas passa por projetos de drenagem, revisão de coberturas e reforço de estruturas discretamente integrados.
A autarquia estuda candidaturas a fundos de emergência e programas de conservação patrimonial, em parceria com a paróquia e entidades regionais. O objetivo é conciliar o respeito pela traça histórica com padrões atuais de segurança, minimizando o impacto visual das intervenções.
Nos próximos dias, espera-se a chegada dos peritos, a instalação de andaimes de contenção e a definição de uma solução de culto provisório. A comunidade, magoada mas determinada, promete não baixar os braços. Numa terra onde a fé e a vizinhança andam de mãos dadas, a reconstrução será também um gesto de identidade partilhada.
