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Setúbal, sete anos depois: o destino comovente da família imigrante sem documentos deportada neste verão

No final de agosto de 2025, um serralheiro, um oficial de justiça e agentes policiais bateram à porta de um T2 no bairro do Bela Vista, em Setúbal. Ali vivia uma família do Bangladesh, há sete anos em Portugal, que acabou por ser despejada após a recusa definitiva do pedido de asilo. Sonya, 30 anos, antiga professora, faz limpezas num restaurante e está grávida. Ahad Ma, 36, ex-bancário e opositor político, tem feito trabalhos sazonais de jardinagem. A filha, de seis anos, entrou no 1.º ano e conhece a cidade como a sua casa.

Segundo os vizinhos, desde julho, com novas orientações sobre acolhimento de requerentes de asilo, os alojamentos de emergência deixaram de os aceitar. Em poucas semanas, a família passou de um arrendamento precário a noites em sofás, de um canto de quintal a um campismo improvisado junto a uma rotunda.

Da casa à rua: a espiral de precariedade

A mudança foi brusca e a margem de manobra quase nula. Sem documentos, um contrato de trabalho formal é difícil, e sem contrato de trabalho não chega o título de residência. O ciclo repete-se, com efeitos diretos na renda, no acesso à saúde e no bem‑estar da criança.

Num apartamento emprestado, a família ficou três noites, partilhando uma sala com um colchão fino e uma pequena mala. Depois, voltou a sair, carregando sacos com duas mudanças e uma panela já amolgada. “A cada toque na campainha, temíamos outra ordem”, conta Ahad, olhando para a filha que aperta um caderno cor‑de‑rosa.

Uma rede de ajuda que estica até ao limite

A solidariedade existe, mas é frágil e exaustiva. Patrícia, moradora no bairro, acolheu a família durante alguns dias. “Dei‑lhes o meu quarto e dormi na sala, mas não era sustentável”, diz, emocionada, enquanto dobra um lençol. “Eles trabalham, não fazem nada de mal. Não percebo como chegámos aqui.”

Grupos de vizinhos cozinharam sopas, trouxeram roupa de criança e um carrinho de bebé. Associações como a Solidariedade Imigrante e o JRS articularam consultas jurídicas, mas os prazos são curtos e os postos de atendimento enchem logo de manhã. A cada nova tentativa, a família ouve um “volte amanhã” que pesa mais do que uma mala.

Silêncio oficial e críticas da sociedade civil

A autarquia pediu explicações ao Ministério da Administração Interna e à AIMA, sem resposta pública até agora. “Uma expulsão sem alternativa de alojamento para uma família integrada localmente não é responsável”, lê‑se numa missiva enviada pelo executivo municipal. O gabinete da tutela não comentou.

Do lado das ONG, multiplicam‑se as críticas. Falam numa política “punitiva e ineficaz”, que empurra pessoas para a invisibilidade e sobrecarrega as redes de apoio informal. Em Setúbal e nos concelhos vizinhos, os voluntários estimam entre “uma dezena e duas dezenas” as famílias em risco de despejo por perda de elegibilidade para respostas de emergência.

O que pode acontecer agora?

Sem um plano claro, a família vive dia a dia, apoiada por uma teia de solidariedade que pode romper a qualquer momento. Eis os caminhos que os técnicos apontam, todos cheios de condicionantes:

  • Regularização por trabalho, se houver contrato e descontos constantes.
  • Recurso jurídico à decisão final de asilo, quando existirem novos elementos.
  • Programa de retorno voluntário, com apoio logístico e reinserção no país de origem.
  • Acesso a alojamento temporário via IPSS locais, sujeito a vagas e critérios estritos.
  • Proteção reforçada para a criança, garantindo escola, saúde e psicologia.

“Não pedimos privilégios, pedimos tempo e uma oportunidade de trabalhar com documentos”, diz Sonya, pousando a mão na barriga. “A nossa filha só conhece Portugal; Setúbal é a sua escola, o seu parque, os amigos de futebol.”

Uma cidade entre a compaixão e a lei

Setúbal move‑se entre a compaixão dos vizinhos e a rigidez da lei. No mercado do Livramento, há quem ofereça fruta ao fim do dia; na estação de autocarros, há quem evite olhares. No meio, os serviços públicos, pressionados por pendências antigas e plataformas que falham às segundas‑feiras, tentam gerir o impossível.

O que aconteceu nesta rua não é um caso isolado, avisam os que estão no terreno. Quando a paperada decide o teto de uma família, tudo o resto fica em suspenso: o sono, a escola, a rotina da sopa e o riso no baloiço do jardim. A cidade, porém, tem memória longa. Já acolheu quem veio de longe para trabalhar nas docas, nas linhas de montagem e nos restaurantes que enchem as praças ao cair da tarde.

Se há algo que este verão ensinou, foi isto: sem uma resposta estável, a caridade cansa e a dignidade sofre. Entre papéis, portas e prazos, fica uma pergunta teimosa, escrita no caderno cor‑de‑rosa da menina: “Amanhã vamos para casa?”

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