Em Almeirim, no Ribatejo, uma jovem horticultora vê, ano após ano, parte dos seus melões desaparecerem à beira da estrada. Automobilistas param, entram no campo e colhem como se fosse de todos. Na última semana, um vizinho fotografou um grupo a carregar uma dezena de frutos para a bagageira, em plena luz do dia. Para quem vive do que planta, cada peça furtada é mais do que dinheiro: é tempo, cuidado e esperança postos à prova.
A exploração à beira da estrada nacional
A propriedade de Júlia fica encostada à EN118, num troço muito movimentado, onde a produção fica literalmente à vista de todos. Os melões maduros brilham no solo, e a tentação de alguns “aproveitadores” é imediata. O vizinho, farto de assistir, tirou fotografias e enviou-lhas: “Quando vi aquilo, achei que não podia ser. É o trabalho de um ano inteiro”, lamenta a agricultora, de voz embargada.
Segundo Júlia, não é um episódio isolado. Em várias manhãs, surgem “clareiras” no meio das linhas, sinais de colheitas clandestinas feitas à pressa. “Algumas pessoas acham que o campo é terra de ninguém. Param o carro, espreitam, entram e saem como se fosse o seu quintal”, descreve, cansada de uma rotina que se repete todos os verões.
Vendas diretas, tentação à vista
Para sobreviver aos preços voláteis, Júlia aposta na venda direta, num pequeno banco à beira da estrada. O modelo aproxima-a dos clientes, mas deixa a produção exposta. De um lado, a honestidade da maioria; do outro, a “mão-leve” de quem prefere o atalho da ilegalidade. “Que ideia lhes passa pela cabeça? É a minha fonte de rendimento, não um self-service gratuito”, desabafa.
Os custos de produção sobem: água mais cara, combustível a pesar no orçamento, e mão de obra difícil de reter. Ver melões desaparecerem sem pagamento é mais uma pancada num ano já difícil. “Se cada semana somarmos dez, quinze peças, no fim da campanha a conta é pesada”, calcula, de bloco na mão e olhos no campo.
Mais do que prejuízo: desgaste emocional
O pai de Júlia, antigo gestor da exploração, confirma que sempre houve pequenos furtos, mas sente que o fenómeno se agravou. “Junta-se o stress da colheita, o clima a mudar, e agora isto. Para a minha filha que está a começar, não é encorajador”, diz, numa mistura de orgulho e preocupação. Para reduzir riscos, deslocaram o pomar de pêssegos para uma zona mais resguardada, longe dos olhares curiosos.
A vigilância constante desgasta. Noite sim, noite não, levantam-se com barulhos de carros na berma, luzes a varrer o talhão como faróis numa pista de descolagem. “É impossível ter sempre alguém no campo. Cercas robustas custam um mundo, e cães, além de cuidados, trazem outras responsabilidades”, resume Júlia, com a serenidade de quem já fez todas as contas.
O que está a ser feito
Perante as queixas, a GNR reforçou passagens de patrulha e aconselhou medidas de prevenção. A Junta local pondera sinalização de sensibilização e campanhas de civismo. Pequenas soluções podem travar grandes estragos:
- Colocar painéis visíveis com o preço por quilo e formas de pagamento.
- Criar “horas de venda” com presença regular no banco.
- Montar iluminação discreta e câmaras dissuasoras de baixo custo.
- Promover visitas guiadas e dias de colheita acompanhada para escolas.
A comunidade tem respondido com solidariedade. Clientes habituais deixam donativos, avisam quando veem movimentos suspeitos, divulgam o projeto nas redes e compram mais do que o planeado. “A maioria é exemplar. São meia dúzia a estragar o que é feito com tanto cuidado”, sublinha Júlia, sem perder a gratidão por quem a apoia.
“É o trabalho de um ano inteiro”
No meio do desalento, há espaço para uma mensagem simples. “É o trabalho de um ano inteiro. Cada melão tem água, sementes, gasóleo, dias de poda, noites sem sono. Se gostam do que veem, parem no banco e comprem. Não é só justo: é o que mantém o campo vivo”, diz, com a firmeza de quem não desiste.
O apelo volta-se também para quem circula na EN118: respetar o esforço de quem planta é respeitar a comida que nos alimenta. Um gesto apressado pode deitar por terra um ciclo de meses de cuidado. Comprar diretamente, além de sabor, traz preço justo ao produtor e dignidade ao trabalho que põe fruta fresca na mesa de tanta gente.
À medida que a campanha avança, Júlia mantém-se entre o otimismo e a prudência. Planta, rega, verifica os frutos, ajeita o banco e olha a estrada, como quem vigia e espera. O verão há de passar, mas a lição fica: quando a comunidade se une e protege o que é seu, o campo tem mais futuro e o melão sabe ainda melhor a Ribatejo.
