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Pânico em Chelas, Lisboa: moradores ficam duas horas presos no prédio e escapam por um triz a uma catástrofe

No final de tarde de quinta-feira, 12 de junho, dezenas de moradores ficaram encurralados durante quase duas horas num prédio do chamado Bairro da Solidariedade, na Amadora. Entre elevadores avariados e escadas bloqueadas por barreiras de obra, muitos sentiram que tinham “frôlado a catástrofe”. O relógio marcava as 16h, com crianças a regressar da escola, trabalhadores a chegar a casa e idosos à espera de poder descer para as compras. Ninguém conseguia sair. Ninguém conseguia entrar.

O pânico num fim de tarde

A situação começou com a avaria dos dois elevadores, única forma habitual de circulação para quem vive nos andares superiores. Tiago (*), morador no 7.º piso, descreve os minutos de angústia. “Se alguém tivesse um mau-estar? Se houvesse um incêndio? Estávamos presos, sem rota de fuga”, desabafa, ainda a tremer com a lembrança do que chama “uma tarde de horror”.

O prédio tem seis apartamentos por piso, com muitas famílias e vários residentes de mobilidade reduzida. Sem elevadores, as escadas deveriam ser a alternativa. Mas, ao empurrar a porta do patamar, Tiago encontrou um emaranhado de barreiras metálicas a travar cada lanço de escadas.

Escadas bloqueadas por barreiras

As barreiras, usadas para delimitar obras no edifício, estavam presas umas às outras com cadeados e cabos de aço. O corredor, já estreito, ficava totalmente tapado. “Olhei para cima e para baixo e percebi que não havia passagem”, conta o morador, entre o espanto e a revolta. Vizinhos de vários andares reuniram-se junto à porta das escadas, mas a barreira inicial parecia intransponível.

Alguém ligou para os Bombeiros Voluntários da Amadora e para a PSP, esperando uma intervenção rápida. Entretanto, o desespero crescia, com crianças a chorar, idosos a pedir calma, e o som de telemóveis a tocar a toda a hora.

Moradores pegam em serras para se libertar

Minutos tornaram-se quase duas horas, sem uma solução visível. Foi então que alguns moradores desceram às garagens à procura de ferramentas. Surgiram serras manuais, uma rebarbadora de obras e até um alicate de corte. Com cuidado e turnos improvisados, conseguiram abrir uma fresta no primeiro conjunto de barreiras.

“Não queríamos danificar nada, só queríamos sair”, explica Cátia, mãe de duas crianças. “Houve muita entreajuda, mas também muito medo.” Quando finalmente cederam os primeiros cabos, formou-se uma pequena passagem. Por ela passaram, devagar, idosos, carrinhos de bebé e quem precisava de medicação.

“Percebe-se a gravidade quando a única saída é uma barreira de metal”, resume outro morador. “A dada altura, senti que estávamos a contar com a sorte.”

Quem é responsável?

Contactada no local, a polícia tomou registo das ocorrências e garantiu o encaminhamento para a entidade gestora do edifício. Os bombeiros verificaram as condições de segurança e recomendaram a remoção imediata das barreiras das escadas. A empresa que faz a manutenção dos elevadores foi alertada para uma intervenção urgente.

A Câmara Municipal e a empresa municipal de habitação anunciaram a abertura de um inquérito interno para apurar quem decidiu bloquear as escadas com material de obra e porque não foram previstas rotas de evacuação. Técnicos de segurança lembram que as escadas constituem uma saída de emergência, que nunca deve ser obstruída, mesmo temporariamente.

Medidas imediatas e lições a tirar

No dia seguinte, equipas de manutenção removeram o que restava das barreiras e deixaram as escadas totalmente livres. Foram afixados avisos sobre a proibição de bloquear rotas de fuga, e os moradores receberam um contacto de emergência dedicado, para acionar equipas de primeira resposta.

Em reunião com os residentes, a autarquia comprometeu-se a rever os procedimentos de obras e a criar auditorias periódicas às zonas comuns. Especialistas defendem ainda planos de evacuação, simulacros anuais e formação de vizinhos em noções básicas de segurança.

“Não queremos culpados eternos”, diz Tiago. “Queremos soluções para que ninguém volte a sentir esta impotência.”

Para muitos, a noite trouxe alívio, mas também um aviso claro. A combinação de elevadores avariados e escadas bloqueadas mostrou como a segurança pode falhar no detalhe mais básico. E como, em segundos, o quotidiano de um bairro pode transformar-se num teste de resiliência.

  • Garantir que todas as escadas estão sempre desobstruídas e sinalizadas como saídas de emergência.
  • Assegurar manutenção preventiva e redundância nos elevadores, sobretudo em prédios altos.
  • Definir um responsável de obra com contacto visível para qualquer ocorrência imediata.
  • Promover simulacros anuais e formação básica em segurança para moradores.
  • Criar um canal de comunicação direto entre residentes e serviços municipais.

O episódio termina sem feridos, mas com um sentimento de “por pouco” a ecoar pelas escadas. Entre promessas de correção e a memória do susto, os moradores exigem que o que aconteceu sirva de exemplo. Porque, num prédio cheio de vidas, a linha entre a rotina e a tragédia é, por vezes, fina. E porque a segurança, quando falha, não aceita segundos erros.

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