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Ou ela, ou eu…” Guerra pela fibra ótica na Amadora: moradores desligam os cabos dos vizinhos para se ligarem — “é a lei do talião

Em Vila Nova de Santo André, no concelho de Santiago do Cacém, as quebras no serviço de fibra tornaram-se rotina. Há semanas em que a internet funciona aos solavancos, e dias em que desaparece por completo. Cansados da espera e da inconsistência, alguns moradores decidiram agir por conta própria: abrem a caixa de distribuição, seguem os cabos e reconectam‑se — mesmo que, para isso, tenham de desligar um vizinho. Para muitos, é a lei do talião aplicada à era digital.

Técnicos improvisados, solução arriscada

“Ou é ela, ou sou eu”, resume um morador que, de tanto ficar sem serviço, comprou uma caneta VFL — um apontador a laser para identificar fibras — e aprendeu a ler os rótulos do armário de rua. Diz que já jogou às “cadeiras musicais” com as portas disponíveis, porque a caixa está lotada e não há lugar para todos. Em cada intervenção, alguém volta a perder a ligação.

A prática é tão rápida quanto ilegal. Basta abrir o PBO (ponto de terminação), mover um conector, fechar a tampa e esperar que os leds do router voltem ao verde. Até que um outro vizinho, em desespero semelhante, repita o ritual. A frustração cresce à medida que a ligação se torna uma roleta — nunca se sabe quem terá internet no dia seguinte.

“A manutenção torna-se ingovernável”

Um responsável técnico de uma operadora grossista com presença no Alentejo, que prefere não ser identificado, confirma o padrão. “É a lei do talião. Há subcontratados que, na pressa de desenrascar um cliente, trocam ligações sem documentar. Quando são os particulares a mexer, a manutenção torna-se ingovernável: perde-se o histórico, multiplicam-se as falhas e a rede fica numa espécie de anarquia.”

O problema é estrutural: armários subdimensionados, ligações provisórias que se eternizam e uma teia de subcontratações que dilui responsabilidades. Em zonas onde a adesão à fibra excedeu as previsões, faltam portas nos splitters e pontos de terminação nas fachadas. É o cenário perfeito para que pequenos “ajustes” de campo virem desastres em cadeia.

Vidas e negócios em suspenso

As consequências são bem reais. Uma lojista do mercado local conta que esteve duas vezes quinze dias sem internet. “Sem faturação eletrónica, sem MB Way, sem encomendas. Os meus filhos sem tarefas online e eu a usar os dados do telemóvel para o básico”, lamenta. Um café da avenida central passou um fim de semana a recusar pagamentos por TPA, perdendo clientes e paciência. Na escola secundária, professores e alunos relatam plataformas que caem nos piores momentos.

Os contactos para a assistência técnica acumulam-se, mas muitas equipas só conseguem “corrigir” o último sintoma. O resultado é um problema que se move de porta em porta, como um curto-circuito errante. Autarcas locais pedem reforço de capacidade e auditorias rápidas às instalações.

Porque é que isto está a acontecer?

  • Armários de rua e splitters com menos portas do que a procura real.
  • Planeamento de rede que não acompanhou o boom de adesões pós‑teletrabalho.
  • Cadeias longas de subcontratação, com prazos agressivos e pouca fiscalização.
  • Caixas abertas, fichas mal etiquetadas e cabos expostos à intempérie.
  • Falta de inventário atualizado e selagem deficiente contra manipulação.

“Se não houver capacidade, as equipas chegam, resolvem um, desligam outro e seguem viagem”, admite o técnico. “Sem mapa fiel do que está no terreno, cada intervenção é um tiro no escuro.”

Cabos que pendem, fachadas marcadas

Passear por algumas ruas revela o resto da história: cabos que pendem como guirlandas, braçadeiras soltas, derivação por cima de janelas e entradas de prédios. São sinais de obras feitas à pressa, onde a urgência de ligar “mais um” venceu o zelo. Moradores queixam‑se de fachadas marcadas e caixas que abrem com um toque de unha. As brigadas municipais, sem competência para intervir na rede, limitam‑se a registar ocorrências e a pressionar as operadoras.

O que pode mudar já

Há soluções que não exigem anos de obra. As autarquias pedem um plano de choque coordenado entre grossistas e operadores comerciais, com prazos e métricas públicas. Técnicos defendem reforço de splitters, regularização de cabos “a voar” e inventário digital por porta, atualizado em tempo real. Armários com fecho inteligente, lacres numerados e alertas de abertura ajudariam a travar o “desenrasque” clandestino.

Para os utilizadores, há passos simples que reduzem o caos: reportar avarias com número de porta quando houver, fotografar a etiquetagem original e exigir relatórios de intervenção. E, sobretudo, evitar mexer na caixa: além de ilegal, transforma um problema técnico numa guerra de vizinhança.

Como agir se ficar sem fibra

  • Verifique cabos, ONT/router e o estado das luzes de serviço.
  • Registe a avaria na app/linha do seu operador, com data e hora.
  • Fotografe a etiqueta da porta/caixa e anexe ao pedido.
  • Peça número de incidente e prazo de resolução por escrito.
  • Se houver reincidência, reclame na ANACOM e no Livro de Reclamações.

“Não queremos heróis com alicates; queremos portas para todos e regras cumpridas”, resume um representante da associação de moradores. A fibra chegou para ligar as pessoas; quando falta gestão, liga‑as a um conflito que ninguém quer — e que a lei do talião apenas agrava.

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