Provavelmente foi necessário um alfaiate veterano para entender com tanta precisão que um «carro rápido» senegalês é, acima de tudo, uma arquitetura humana. Para Cheikh Diallo, esse veículo popular deixa de ser apenas um meio de transporte urbano para se tornar uma metáfora monumental do Senegal contemporâneo. Nesta obra têxtil magistral, o artista transforma a carroçaria multicolor em espaço filosófico, em teatro social, em cartografia mental de um país lançado a toda velocidade nas turbulências de sua época.
O primeiro choque é cromático. O amarelo vívido do teto e dos contornos acerta como uma luz bruta no espaço expositivo. Essa cor solar entra em colisão com um azul denso e profundo que invade toda a parte inferior do veículo. Este azul absorve literalmente o olhar e cria uma massa visual pesada. O fundo bordô sobre o qual flutua o carro acentua ainda mais essa sensação de tensão. E então aparecem esses rostos. Por trás de cada janela surgem figuras fragmentadas, máscaras. « No museu, vi as máscaras e senti uma emoção profunda. Reuni máscaras provenientes de vários países africanos para mostrar que a arte não conhece fronteiras. A ligação entre o veículo e as máscaras é simples: num veículo, descemos uma vez no destino; da mesma forma, no museu, os visitantes passam diante das máscaras, as contemplam e, em seguida, dão lugar a outros olhares », explica ele.
Entre as máscaras no veículo, destacam-se, sobretudo, « Életi » do Nigéria, originária da cultura iorubá, bem como « Kanaga », emblemática da tradição dogon do Sudão. Esses passageiros são também uma metáfora urbana. A frase inscrita no centro « Le chemin est le but » atua como uma deflagração filosófica. No universo do transporte popular, essa fórmula poderia passar por mais uma decoração. Mas, colocada no contexto da exposição « Xel mooy dawal », ela adquire uma profundidade vertiginosa. Ela questiona o movimento permanente de uma sociedade que avança às vezes sem saber exatamente para onde ela está indo. A obra impressiona também pela sua sofisticação técnica. Cheikh Diallo trabalha o têxtil com uma grande inteligência plástica. As costuras visíveis, as superposições de tecidos e as quebras entre os materiais criam uma vibração permanente.
Essa materialidade confere ao carro uma presença física surpreendente. Não se trata mais de uma representação plana, mas de um organismo vivo. Os motivos decorativos, flores, pavão, figuras geométricas, introduzem uma poesia popular no meio do caos visual. Mesmo os detalhes mais ínfimos participam dessa sensação de sobrecarga da realidade.
Mas a grande força de Cheikh Diallo permanece a capacidade de ir além do simples folclore do «carro rápido». Muitos artistas já representaram esse objeto emblemático; poucos conseguiram transformá-lo em um pensamento sobre o Senegal contemporâneo.
A. NDIAYE
