A ofensiva aérea ucraniana ganhou novo fôlego com a destruição de dois aviões anfíbios russos Be-12 Chayka, avaliados em cerca de 20 milhões de euros cada. O feito, reivindicado pela inteligência militar ucraniana (HUR), ocorreu na Crimeia ocupada e foi apresentado como um marco operacional sem precedentes. Enquanto a Otan se reúne para discutir incursões russas no Báltico, Kiev envia uma mensagem de alcance e de capacidade.
Como a operação aconteceu
Segundo o HUR, a ação foi conduzida pela unidade especial Prymary, conhecida como “fantasma” por suas incursões discretas. As imagens divulgadas mostram um drone em câmera embarcada atingindo, com precisão, os aparelhos estacionados em solo. Além dos Be-12, as forças ucranianas relataram danos a um helicóptero Mi-8 durante a mesma investida.
“Trata-se do primeiro ataque já realizado contra um Be-12 na história”, afirmou o HUR, destacando o valor estratégico do alvo. A operação evidencia a crescente proficiência ucraniana em golpes de oportunidade contra plataformas de alto valor. Em termos militares, reduzir a disponibilidade de aeronaves antissubmarino limita a vigilância russa sobre o Mar Negro.
Imagens reutilizadas: ver o post em vídeo e fotos do HUR via Ukrinform (Twitter/X): https://twitter.com/UKRINFORM/status/1970000679876935882
O que é o Be-12 Chayka
De concepção soviética, o Be-12 (designação “Mail” na Otan) é um avião anfíbio projetado para missões antissubmarino e de busca e salvamento. Sua fuselagem robusta e o casco em “barco” permitem operações próximas à água, inclusive pousos em pistas de litoral. Em termos de sensores, a plataforma integra sistemas de detecção de submarinos e armamentos específicos para engajar contatos.
Embora a produção tenha sido encerrada há décadas, unidades modernizadas permanecem em uso para patrulha e reconhecimento. O avião tem envergadura de cerca de 33 metros e velocidade máxima superior a 600 km/h, o que o torna ágil para cobrir longos trechos do litoral do Mar Negro. Para Moscou, perder duas aeronaves dessa classe significa reduzir cobertura em setores críticos de aproximação marítima.
O valor estimado próximo de 20 milhões de euros por unidade reflete o custo de manter plataformas antigas com sistemas atualizados e manutenção complexa. Mesmo não sendo “invisíveis”, tais aeronaves cumprem um papel nicho que não tem substitutos imediatos em número suficiente. Para Kiev, neutralizar esses meios vale tanto pelo efeito tático quanto pelo impacto simbólico.
Impacto tático e simbólico
Ao atingir os Be-12 em solo, a Ucrânia demonstra inteligência precisa, coordenação de drones e capacidade de penetração em áreas contestadas. A mensagem é clara: bases antes consideradas seguras na Crimeia estão ao alcance e sujeitas a interrupções periódicas. Isso força a Rússia a dispersar ativos, endurecer defesas e aceitar degradação gradual de sua presença aérea.
Do ponto de vista simbólico, é um “primeiro da história” que alimenta a moral ucraniana e a narrativa de resiliência. Para Moscou, a perda pública de aeronaves especializadas adiciona pressão sobre a cadeia de comando e sobre a já disputada logística de manutenção. Em guerras de atrito, efeitos cumulativos sobre ativos escassos podem alterar cálculos operacionais.
Repercussões na Crimeia
No mesmo dia, uma série de ataques com drones atingiu áreas da península, com relatos de mortos e feridos. Autoridades locais pró-Rússia mencionaram três mortos e 16 feridos na região de Foros, alegando danos a um sanatório e a uma escola. O Ministério da Defesa russo classificou a ação como “ataque terrorista deliberado” contra alvos civis, reforçando a disputa de versões típica da informação de guerra.
A conjugação entre golpes de alto valor militar e pressão psicológica mantém a Crimeia em constante estado de alerta. Para Kiev, a capacidade de atingir infraestruturas e aeronaves na retaguarda amplia a margem de manobra no front. Para Moscou, proteger bases, dispersar ativos e endurecer perímetros exigirá mais recursos e mudanças de rotina operacional.
Pontos-chave
- Dois Be-12 Chayka russos foram destruídos pelo HUR na Crimeia, em ação apresentada como a primeira da história.
- A unidade especial Prymary conduziu a operação com uso de drones e atingiu também um Mi-8.
- O Be-12 é uma plataforma antissubmarino de alto valor, ainda relevante no teatro do Mar Negro.
- O impacto é simultaneamente tático (perda de vigilância) e simbólico (degradação da confiança russa).
- Ataques paralelos com drones causaram vítimas civis, intensificando a disputa por narrativas e a pressão na península.
O que observar a seguir
A reunião da Otan sobre incursões aéreas perto da Estônia ressalta um quadro regional de tensão crescente. Espera-se que a Rússia fortaleça defesa de bases, melhore camuflagem e acelere a dispersão de aeronaves vulneráveis. Kiev, por sua vez, deve expandir o emprego de drones de longo alcance e munições planadoras com foco em “alvos de valor”.
Se novos ataques repetirem o padrão contra ativos especializados, o efeito cumulativo sobre a vigilância marítima russa poderá ser substancial. Em paralelo, o controle da informação e a exploração de vitórias simbólicas continuarão sendo ferramentas centrais dos dois lados na disputa pela percepção pública e pelo momentum no campo de batalha.
