Uma família de refugiados ucranianos, com seis crianças, ficou sem solução de alojamento no Porto, após uma noite paga graças a uma vaquinha entre voluntários. A vice‑presidente da Associação Casa Ucraniana no Porto, Lesya Laroulandie, lamenta que a ajuda de emergência seja tão precária e tão pouco duradoura. O casal, Artem e Rita, escapou da região de Kharkiv em 2023, fugindo aos bombardeamentos e chegou a Portugal com proteção temporária válida até 2026, mas continua sem uma casa estável. À medida que a atenção pública se dissipa, a resposta institucional parece ficar cada vez mais frágil.
"Na véspera, só conseguimos pagar uma noite de hotel com uma coleta entre amigos, mas isso não é sustentável", desabafa Lesya, visivelmente abatida. “Não é a primeira vez que vejo uma família que foge da guerra ser deixada pelo Estado sem alternativas reais.” A família tenta manter as rotinas, mas o cansaço é evidente e a incerteza pesa em cada decisão.
Rostos marcados
Durante dois anos, a Alemanha foi o primeiro ponto de chegada, onde nasceu o filho mais novo, simbolicamente chamado German. Acreditando que a sua vida seria melhor em Portugal, a família deslocou‑se para Lisboa em maio, iniciando um percurso de esperanças e contratempos burocráticos. Depois de uma passagem por um centro de acolhimento, foram expulsos e ficaram sem teto, situação que deixou marcas emocionais em todos, sobretudo nas crianças.
Rita garante que a família respeitou as regras, mostrando o aviso de desalojamento que recebeu, e denuncia episódios de violência e furto dentro da estrutura. A filha mais velha, de 16 anos, fala pouco, mas relata o roubo do seu telemóvel e noites sem sono por medo e ansiedade. “Tentámos fazer tudo certo, mas parecia que cada porta se fechava”, diz Rita, segurando os documentos com mãos trémulas.
Sem alternativas em Lisboa, decidiram seguir para o Porto, onde lhes disseram que poderia haver mais vagas e uma rede de apoio mais próxima. Artem, que trabalhava numa moagem na Ucrânia, procura qualquer oportunidade de emprego estável, mas sem morada fixa tudo fica mais difícil. A única luz de esperança é um atendimento marcado no CNAIM do Porto, onde esperam obter orientações mais concretas e um plano de acompanhamento.
Situação “emblemática”
Para Lesya Laroulandie, o caso é “emblemático” do acolhimento aos ucranianos em Portugal: há medidas no papel, mas a execução é dispersa e os meios são curtos. “Vemos bandeiras e muitas palavras de solidariedade, mas quando chega a hora do apoio efetivo, as famílias acabam aos cuidados de meia dúzia de voluntários”, critica a dirigente associativa. Os serviços estão sobrecarregados, as rendas são elevadas e a burocracia é lenta para quem precisa de respostas hoje.
As autarquias apontam a falta de habitação acessível e a pressão sobre as respostas sociais, enquanto os centros de acolhimento de emergência atingem a lotação rapidamente. Sem uma rede de transição entre hotelaria solidária, programas municipais e inserção no mercado de arrendamento, famílias numerosas como a de Artem e Rita ficam literalmente no limbo. “Quando um sistema depende de sorte e caridade, deixa de ser um sistema e passa a ser uma roleta”, sintetiza uma voluntária local.
Apesar de tudo, há espaço para ação imediata e para uma solidariedade mais estruturada. A associação apela a que a comunidade portuense se mobilize e transforme a empatia em respostas práticas e rápidas.
- Disponibilizar um quarto, anexo ou alojamento temporário com contrato simbólico e seguro.
- Doar cartões de transporte, vales de supermercado e apoio para fraldas e alimentação infantil.
- Acompanhar a família a serviços públicos, escolas e consultas de saúde.
- Oferecer apoio jurídico e mediação com senhorios para contratos de arrendamento.
- Garantir apoio psicológico para as crianças e aulas intensivas de português.
Num cenário de guerra prolongada e deslocações forçadas, não basta abrir a porta: é preciso garantir continuidade, acompanhamento e integração real. Para as crianças, cada semana sem escola e sem rotinas é uma semana de atraso e de insegurança que se acumula em silêncio. Para os pais, a ausência de uma morada trava o acesso a emprego, a formação e a documentos essenciais para a vida diária.
A cidade do Porto, com a sua tradição de acolhimento, pode transformar este caso numa oportunidade de aprendizagem coletiva. É urgente ligar os pontos entre Estado, autarquias, setor social e cidadãos, criando uma resposta coesa que não dependa da sorte de uma vaquinha. Enquanto isso, Artem, Rita e os seus seis filhos esperam, de malas arrumadas num canto, que o dia de amanhã traga um teto seguro e a possibilidade simples de recomeçar com dignidade.
