A rua estreita do centro de Leiria voltou a mergulhar no mesmo pesadelo. As últimas chuvas torrenciais encheram de lama e água os subsolos das lojas, e várias comerciantes passaram a manhã com botas de borracha, bombas de água e telefones a chamar seguradoras. “Com isto, qualquer dia fechamos as portas”, desabafa uma cabeleireira que, pela terceira vez em três anos, vê o negócio suspenso.
A noite que virou a loja do avesso
No número 3 da Rua dos Três Ferreiros, Valéria Ribeiro abriu a loja ao meio‑dia e encontrou o chão frio e o cheiro a humidade a anunciar o estrago. A água subiu no subsolo até cerca de metro e meio, deitando a perder esquentadores, tintas, escovas e parte da instalação elétrica. “Estou arrasada. Liguei a clientes a pedir desculpa e fiquei a olhar para o vazio”, diz, ainda a escorrer baldes para a rua.
Os quadros elétricos ficaram afetados, tomadas deixaram de responder e a contabilidade de setembro virou incógnita. O que a chuva não estragou, a humidade irá trair nos próximos dias, temem as trabalhadoras que improvisam ventilação com portas escancaradas.
Processos que nunca acabam
É a terceira inundação em três anos, repetem, cansadas, as moradoras e lojistas. “Os processos anteriores ainda nem fecharam, e já temos de recomeçar”, reforça Valéria, à espera do perito da seguradora para avaliar estragos e carimbar papéis. O desgaste emocional soma-se ao financeiro, e a incerteza sobre o próximo aguaceiro pesa em cada agenda.
A dois passos, Cláudia Daniel, dona de uma antiquária que substituiu uma antiga loja de brinquedos, mostra o piso da cave fendido. “A água chegou com tanta pressão que o betão rachou”, descreve, apontando a linha castanha que marca até onde o rio improvisado subiu durante a madrugada.
Trabalho parado, contas a somar
Mais acima, no número 1‑B, Emanuela Santos corre entre a sala de tratamentos e a cave do seu instituto de beleza. “Tive de cancelar todos os marcados. Comprámos um aspirador de líquidos e vamos tentar salvar o que der”, conta, com a mãe de galochas e o marido a conduzir o hidrolimpador. As marcas nas paredes denunciam mais de um metro de água; consumíveis, decoração e até uma mesa de estética, guardados em altura, vão para o lixo.
“Há que manter o ânimo e avançar”, insiste Emanuela, ainda assim a somar faturas de reposição e horas perdidas. A frase resume o estado de espírito no quarteirão: resiliência forçada, com um olho na nuvem e outro no telemóvel à espera do perito.
O que pedem às autoridades
Entre enxadas e rodos, as comerciantes alinham pedidos simples às autoridades:
- Diagnóstico independente da rede de drenagem e dos pontos de retorno.
- Medidas imediatas de mitigação (válvulas anti‑retorno, bombas de sumidouro, tampas reforçadas).
- Linha de apoio de emergência para repor equipamento essencial.
- Articulação com seguradoras para peritagens rápidas e adiantamentos.
- Plano de manutenção visível, com calendário e responsáveis.
- Espaços temporários de armazenamento em seco para comércios afetados.
“Se não vier uma solução clara, não há milagre que aguente as contas de fim de mês”, resume Cláudia, que teme perder o Natal — época crucial para quem vive de peças únicas e pequenas vendas.
Câmara e Proteção Civil no terreno
Durante a manhã, uma vereadora da Câmara de Leiria passou pela rua para verificar os danos e ouvir os relatos. Poucas horas depois, a Proteção Civil municipal ajudou a escoar água e lamas, enquanto os serviços de limpeza recolhiam detritos e móveis inutilizados. “Estamos em contacto com os serviços municipais de água e saneamento para identificar a causa e acelerar respostas”, confirmou fonte oficial por escrito.
A proximidade ao leito de água, a idade das infraestruturas e episódios de chuva cada vez mais intensos criam o cenário perfeito para o refluxo. Especialistas lembram que as cidades precisam de soluções de adaptação — bacias de retenção, pavimentos permeáveis, e manutenção rigorosa das condutas — para que a loja do bairro não pague a fatura do próximo temporal.
No fim do dia, a rua cheirava a detergente e paciência gasta. A água baixou, mas ficaram as marcas nas paredes e nos rostos de quem depende da porta aberta para viver. “Trabalhamos, pagamos impostos e lutamos por cada cliente. Só pedimos que a próxima chuva não nos leve o futuro”, diz Valéria, antes de fechar a luz e voltar a encher mais um balde.
