No Cais do Sodré, em Lisboa, muitos comerciantes dizem que as obras já deixaram de ser um simples incómodo para se tornarem uma ameaça. Desde julho de 2024, máquinas, tapumes e desvios ocupam a frente ribeirinha, e no fim de setembro de 2025 foram suprimidos vários lugares de estacionamento. O trânsito circula muitas vezes numa única faixa, no sentido de saída do centro. O projeto promete melhor mobilidade até 2027, mas a paciência está a chegar ao limite.
Clientes em queda e portas entreabertas
Na esquina da Rua do Alecrim, o gestor de um café-tabacaria, Manuel Ferreira, suspira diante da caixa quase vazia. “Como querem que as pessoas venham até aqui? Nem todos vêm de bicicleta ou a pé”, desabafa. Diz ter perdido mais de 600 clientes desde a remoção do estacionamento. “Daqui a cinco anos, talvez já não esteja aqui. 2027 está longe.”
Ao lado, numa pastelaria de bairro, a fila das 8h ficou mais curta. Os habituais ainda compram a bica e o pastel de nata, mas o fluxo de escritórios e turistas caiu. “As viaturas já não podem encostar para uma paragem rápida, e os estafetas evitam a zona”, lamenta a gerente, que revê a sua previsão de faturas ao decréscimo.
Uma obra, vários impactos
A autarquia garante que se trata de um “projeto estruturante” para requalificar a marginal e preparar um corredor dedicado ao elétrico e aos autocarros. Haverá ciclovias, novos passeios e mais árvores para reduzir o ruído e o calor. Até lá, há gruas, poeira e passagens alternadas que desorientam residentes e visitantes. A conta, dizem os lojas, chega todos os dias.
“Os clientes não conseguem parar, e quem vem de táxi pede para ficar mais longe”, conta Lauriana Rocha, dona de uma casa de sandes. “A rua parece um corredor de passagem, e não um sítio onde apeteça ficar.” Para outros, porém, há um lado de esperança. Kévin Pereira, que repara bicicletas, relativiza: “É um mal por um bem. Vai custar agora, mas depois ficaremos melhor servidos.”
Promessas e frustrações
Segundo fontes municipais, houve reforço de sinalização, criação de pontos temporários de cargas e descargas e divulgação de rotas alternativas. Pequenos comerciantes reclamam que as medidas são “insuficientes” e chegam “tarde e a más-horas”. Pedem mais diálogo, apoios à tesouraria e um calendário com marcos de obra realmente cumpridos.
Num e-mail enviado aos lojistas, a Câmara admite “condicionamentos relevantes” e promete acelerar frentes de trabalho sensíveis. Mas quem vive do dia a dia diz que cada semana conta, e que descontos pontuais na via pública não compensam meses de portas a meio-gás.
O que pedem os comerciantes
Muitos estabelecimentos do Cais do Sodré e da Avenida 24 de Julho organizaram-se em grupo informal para pressionar as autoridades. Entre as exigências, destacam-se:
- Mais zonas de paragem rápida “kiss & ride” perto das portas.
- Redução temporária de taxas municipais e isenção de esplanadas.
- Fundo de compensação por quebras de faturação comprovadas.
- Melhor sinalização pedonal e campanhas de promoção ao comércio local.
- Janela horária alargada para entregas e recolhas.
Quando o futuro parece demasiado longe
Para quem paga salários e renda, a promessa de uma cidade mais verde em 2027 é um horizonte distante. O receio é que as lojas que resistem ao inverno não cheguem ao verão, e as que resistem ao verão não cheguem ao Natal. “A cada dia fechamos mais cedo”, diz um livreiro, “porque não vale a pena manter as luzes acesas.”
Há, no entanto, quem tente reinventar-se. Alguns apostam em entregas próprias, outros criam menus de almoço mais baratos ou eventos com música ao vivo para captar vizinhos. As soluções são criativas, mas custam tempo e dinheiro, dois recursos cada vez mais escassos.
Entre a necessidade e o desgaste
A cidade precisa de melhor transporte coletivo, de passeios seguros e de sombra. Mas também precisa de vida ao rés-do-chão, de cafés, livrarias e oficinas que dão caráter ao bairro. O equilíbrio, por agora, está frágil, e a fadiga é real. “Não somos contra as obras”, resume Manuel Ferreira. “Somos contra desaparecer antes de ver o resultado.”
Enquanto o cronómetro avança para 2027, fica a pergunta que ecoa de porta em porta: quantos negócios terão fôlego para lá chegar? Entre prazos, mapas e desvios, a resposta depende de mais do que boas intenções — depende de medidas rápidas, de escuta ativa e de um compromisso que não deixe ninguém para trás.
