A Câmara Municipal da Maia lançou um alerta de segurança à população, depois de vários relatos de apontadores laser dirigidos a aeronaves que operam no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. O gesto, frequentemente encarado como uma brincadeira, é tudo menos inofensivo. As autoridades sublinham que pode provocar ofuscamento dos pilotos, distrações críticas e, em última instância, pôr em perigo a vida de quem está a bordo e no solo.
Sinais junto ao aeroporto
Nos últimos dias, a PSP – Unidade de Controlo Aeroportuário e serviços ligados à ANAC transmitiram à autarquia registos de vários episódios ao cair da noite e ao início da madrugada. As ocorrências concentram-se nas zonas de aproximação e descolagem, fases em que a carga de trabalho no cockpit é mais elevada e qualquer perturbação tem impacto imediato.
As equipas lembram que um feixe laser dirigido ao cockpit pode causar “flash blindness” (cegueira momentânea), perda de referências e reação de sobressalto. Em altitudes baixas, um piloto ofuscado pode perder a estabilização da aproximação em segundos, degradando margens de segurança que já são muito estreitas.
Um risco real para pilotos e passageiros
A aparência “inócua” dos apontadores de bolso é enganadora. Mesmo dispositivos de baixa potência, quando usados à noite e com colimação intensa, conseguem projetar luz a grandes distâncias e atingir as cabinas com ângulos diretos. O impacto vai de um simples encandeamento a lesões oculares, sobretudo quando o feixe permanece estável no alvo por alguns segundos.
“Apontar um laser a uma aeronave não é uma brincadeira; é um ato que pode ter consequências trágicas”, sublinha um responsável da Proteção Civil da Maia. “Pedimos a todos os residentes que denunciem imediatamente comportamentos deste tipo e que guardem qualquer dispositivo de laser fora do alcance de crianças.”
Para além da segurança, há o fator operacional. Tripulações ofuscadas podem abortar aterragens, desviar rotas e solicitar assistência, gerando atrasos, consumo extra de combustível e custos que acabam por recair em toda a comunidade.
Enquadramento legal e sanções em Portugal
A legislação portuguesa e europeia impõe regras rigorosas à comercialização e ao uso de apontadores laser, com particular ênfase nos equipamentos acima da Classe 2. Em contexto de aviação, dirigir um feixe a uma aeronave pode configurar crime, dado o perigo criado para a segurança da navegação aérea. As autoridades recordam que os infratores enfrentam coimas substanciais e, em casos graves, penas de prisão.
Os municípios e forças de segurança reforçam a necessidade de conformidade com a marcação CE, rotulagem de classe e utilização exclusivamente responsável. O uso recreativo em espaço público, sobretudo em zonas de trajetória de aeronaves, é fortemente desaconselhado e pode levar à apreensão do equipamento.
Uma moda perigosa que cresce lá fora
O problema não é exclusivo de Portugal, nem da região do Porto. Em 2023, a FAA norte‑americana recebeu 13 304 relatórios de pilotos sobre raios laser a atingir os cockpits, um aumento de 41% face a 2022. Desde 2010, mais de 300 pilotos nos Estados Unidos reportaram lesões oculares associadas a estes incidentes. Tendências semelhantes têm sido assinaladas por autoridades europeias, levando a campanhas de sensibilização em múltiplos aeroportos.
Estes números mostram como uma ação aparentemente banal se transformou numa ameaça sistémica para a aviação. A normalização social desta “brincadeira” é o verdadeiro perigo: quanto mais pessoas a experimentam, maior é a probabilidade de um acidente grave.
Como agir e prevenir
Para reduzir riscos e proteger a comunidade, a autarquia e as autoridades recomendam:
- Nunca apontar um dispositivo laser para aeronaves, viaturas ou pessoas, em nenhum contexto.
- Guardar os apontadores fora do alcance de crianças e adolescentes, explicando os riscos de forma clara.
- Verificar a classe do equipamento e a marcação CE; evitar comprar dispositivos sem rotulagem.
- Reportar imediatamente ao 112 ou à PSP qualquer uso de laser direcionado ao céu perto de rotas de aproximação.
- Em eventos e festas, optar por efeitos de luz certificados operados por profissionais em ambiente controlado.
A Câmara da Maia apela a um esforço coletivo. A colaboração entre moradores, escolas, comerciantes e forças de segurança é essencial para travar um comportamento que, sendo evitável, pode custar vidas. Mantendo a vigilância e promovendo a educação, a região poderá prevenir incidentes e garantir que o céu do Grande Porto continue seguro para todos.
