Em Dakar, existe uma orquestra que não se parece com nenhuma outra. No palco, a bateria, o baixo, a guitarra, o teclado, as percussões e os microfones estão exclusivamente nas mãos de mulheres. Batizada de « Jigeen Ñi » (As Mulheres, em wolof), esse coletivo é hoje o primeiro e único conjunto inteiramente feminino do Senegal e atua em todos os cantos do globo. Mais do que uma curiosidade, ele se impõe progressivamente como uma formação de pleno direito, conduzida por cinco musicistas que escrevem, compõem e interpretam suas próprias canções.
« É através de sua marca que se marca o território para se fazer notar », lembrava-nos um professor de marketing e comunicação. Essa reflexão casa-se perfeitamente com o Jigeen Ñi, esse conjunto composto exclusivamente por mulheres, fazendo da feminilidade, da excelência musical e da inovação artística os pilares de sua identidade.
No Senegal, as mulheres nunca estiveram ausentes do mundo da música. Elas abrigam algumas das mais belas vozes. No entanto, quando se trata de instrumentos, a presença delas é bem mais discreta. Guitarristas, baixistas, bateristas ou tecladistas continuam sendo raros nos palcos do país. Quanto aos conjuntos inteiramente femininos, até então eram inexistentes.
Foi neste espaço ainda pouco explorado que nasceu o Jigeen Ñi. O conjunto reúne cinco musicistas que optaram por assumir todas as dimensões de sua criação. Elas compõem, escrevem seus arranjos e interpretam individualmente suas músicas. Um posicionamento artístico que se afasta dos hábitos da cena senegalesa.
Seu repertório mescla influências tradicionais e sonoridades contemporâneas, mas sua maior singularidade está noutro lugar. Elas demonstram, com naturalidade, que o papel das mulheres não se encerra no microfone. Ele também fica atrás de uma guitarra, de um teclado, de um baixo ou de uma bateria, onde se constrói, nota a nota, a identidade de uma orquestra.
Mas é preciso notar sobretudo que a Orquestra Jigeen Ñi é antes de tudo uma história de complementaridade. Se cada uma possui seu próprio trajeto, todas compartilham a mesma ambição: fazer do seu grupo um espaço de expressão onde o talento prima sobre os estereótipos.
À frente da formação encontra-se Khady Dieng, pianista, cantora e diretora musical. Verdadeira peça-chave do grupo, ela cuida dos arranjos e zela pela coerência musical das composições. Seu papel vai muito além de claviériste. Ela coordena o trabalho coletivo e contribui para moldar a identidade artística da orquestra.
Ao seu lado, Évora Vaz mescla o baixo com a participação nos vocais. Seu toque traz profundidade e estabilidade às peças. Discreta em sua atitude, ela é, no entanto, um dos pilares da formação graças a linhas de baixo precisas que sustentam os outros instrumentos.
Às percussões, Ndèye Cissé imprime sua marca. Cantora e animadora do palco, muitas vezes é quem cria o vínculo com o público. Sua energia, seu senso de ritmo e sua presença contribuem significativamente para o clima dos concertos.
O acorde mais que perfeito
À bateria, Aïssatou Dieng assegura a pulsação do conjunto. Por trás dos tambores, impõe um estilo ao mesmo tempo potente e dominado que confere às composições a sua base rítmica. Ela também participa dos harmonies vocais.
A mais jovem do grupo, Aminata Sarr, conhecida como Amina, ocupa a guitarra e o canto. Sua entrada ilustra a vontade do Jigeen Ñi de acompanhar uma nova geração de musicistas. Sua frescura artística e sua curiosidade musical trazem uma cor adicional ao conjunto.
Além das individualidades, é a capacidade de funcionar como um coletivo que domina a atenção. Em palco como nos ensaios, essas cinco artistas formam uma equipe unida onde cada uma coloca seu talento a serviço do coletivo. É essa complementaridade, alimentada pelo trabalho, pela confiança e pelo respeito mútuo, que hoje fortalece o Jigeen Ñi.
A orquestra reivindica uma identidade musical aberta. Suas composições buscam primeiro os ritmos africanos antes de se abrirem a outras influências. O reggae ocupa um espaço importante, mas dialoga naturalmente com o mbalax, o jazz, a soul, o blues, o zouk ou a salsa. Essa mistura de estilos não se resume a um simples exercício de fusão. Ela traduz a trajetória das musicistas, nutridas tanto pelos sonoridades do Senegal quanto pela música do mundo.
Cada faixa busca assim seu próprio equilíbrio entre tradição e modernidade. Os arranjos privilegiam os instrumentos tocados ao vivo. Bateria, baixo, guitarra, teclado e percussões constroem composições onde as vozes vêm prolongar o diálogo musical em vez de dominá-lo. Essa abordagem confere à orquestra uma identidade sonora imediatamente reconhecível.
O grupo também atribui grande importância ao trabalho das harmonias vocais. As cinco artistas alternam os papéis, deixando às vezes uma voz liderar antes de ser integrada pelas outras. Essa forma de cantar reforça a ideia de um coletivo onde nenhuma personalidade procura impor-se de forma duradoura.
Mas se a música ocupa o primeiro lugar, as letras nunca ficam ao acaso. As canções do Jigeen Ñi costumam abordar os direitos das mulheres, a educação, a emancipação, a solidariedade ou ainda a paz. As musicistas abordam esses temas com simplicidade, privilegiando o relato e a emoção em detrimento de um discurso militante.
A própria escolha do nome do grupo traduz essa orientação. Ao apresentarem-se sob a designação « Jigeen Ñi », as cinco artistas assumem a vontade de tornar as mulheres mais visíveis num universo onde as instrumentistas ainda são minoritárias. Para elas, a melhor maneira de defender essa causa consiste sobretudo em subir ao palco, instrumento na mão, e demonstrar que as habilidades musicais não dependem nem do gênero nem dos hábitos.
Ao longo de suas atuações, a orquestra atrai tanto os amantes da música quanto as jovens meninas que descobrem outra maneira de ocupar o palco. Muitos veem em Jigeen Ñi um exemplo do que é possível realizar quando as mulheres investem em áreas onde ainda são pouco representadas. O grupo contribui assim para mudar a visão sobre as profissões da música.
Por trás de uma bateria, de um baixo ou de uma guitarra elétrica, as musicistas mostram que a virtuosidade não tem gênero. Essa visibilidade assume uma importância particular num país onde os modelos femininos instrumentistas ainda são raros. Ao se apresentarem em festivais, casas de espetáculo ou em eventos culturais, Jigeen Ñi participa do surgimento de uma nova geração de musicistas.
Para as cinco artistas, a orquestra não se limita a uma sequência de concertos. Elas desejam inscrever seu percurso ao longo do tempo, desenvolver seu repertório e levar sua música além das fronteiras do Senegal. O grupo também pretende acompanhar as jovens mulheres que desejam aprender um instrumento ou ingressar numa carreira musical. Uma forma de transmitir a experiência adquirida e incentivar outras vocações.
Através dessa démarche, Jigeen Ñi constrói progressivamente seu lugar no cenário cultural senegalês. Não reivindica um status de exceção, mas afirma, concerto após concerto, que uma orquestra exclusivamente feminina pode cativar tanto pela qualidade de sua música quanto pela força de sua mensagem.
Num cenário musical em constante evolução, as cinco musicistas demonstram que é possível conciliar exigência artística, criação coletiva e engajamento. A singularidade delas não se prende apenas ao fato de serem mulheres. Ela reside sobretudo na capacidade de transformar essa singularidade numa proposta musical coerente, ambiciosa e resolutamente voltada para o futuro.
Por Adama NDIAYE
