A piscina de um condomínio privado em Matosinhos tem sido, nos últimos anos, ocupada por intrusos que intimidam moradores, provocam danos e criam um clima de medo. No auge do calor, quando o espaço deveria ser de descanso, sucedem-se episódios de invasão, insultos e furtos. Numa carta enviada ao administrador, uma moradora relatou ouvir a ameaça: “Vamos voltar e queimar tudo”. Muitos residentes dizem estar “no limite” e pedem respostas urgentes.
Um sossego quebrado em Matosinhos
Ao fim da tarde, um carro de alta cilindrada estaciona num lugar para pessoas com mobilidade reduzida, a poucos metros da piscina. “Este não é daqui”, murmura uma vizinha, a olhar para o portão do condomínio. A piscina da Residência do Atlântico, em Matosinhos-Sul, tornou-se um ponto de atração para grupos de jovens de fora.
João, que vive ali há sete anos, lembra o início do problema. “Nos primeiros verões, ainda conseguíamos falar e convidá-los a sair. Cheguei a tirar dois da água e a acompanhá-los ao portão.” Hoje, aponta para um calção pendurado na vedação: “Ficou ali desde que o técnico de manutenção o apanhou. É quase um símbolo da impunidade”.
Os moradores descrevem tardes em que se juntam grupos de 10 ou 15 pessoas, que entram por cima do muro, ocupam as espreguiçadeiras, ligam colunas de som e fazem churrascos improvisados. “Quem reclama é enxovalhado e acaba por ir embora”, diz uma vizinha de andar térreo.
“Provaram e agora é difícil travar”
Este ano, os estragos começaram antes da abertura oficial. “Rasgaram a lona de inverno e mergulharam na água estagnada”, conta Isadora, moradora há cinco anos. O condomínio teve de substituir a cobertura, num custo de cerca de 860 euros. “É dinheiro que sai do bolso dos condóminos e nada garante que não volte a acontecer”, lamenta.
Os jovens têm, em geral, entre 14 e 25 anos, descrevem moradores e funcionários. “Mas nunca são sempre os mesmos”, acrescenta Isadora. Muitos associam a escalada de intrusões ao encerramento, no verão de 2023, da piscina municipal de Senhora da Hora para obras. “Fechou a municipal, deslocaram-se para as privadas. Provaram e agora é difícil travar”, afirma um residente. Uma petição pela reabertura circula desde fevereiro na freguesia.
Medo, furtos e insultos
Segundo relatos, os grupos levam comida, fumam shisha e ocupam a piscina durante horas, fazendo os residentes recuarem. Marta, mãe de duas crianças, diz ter sido intimidada no portão. “Disseram: ‘Vamos voltar e queimar tudo’. Fiquei a tremer. Preferi não descer com os miúdos durante uma semana.” Há registo de bicicletas furtadas e de portões forçados nas garagens do bloco.
A PSP foi chamada diversas vezes. “Eles aparecem, identificam, e os miúdos voltam mais tarde”, comenta João. A sensação de impunidade alimenta o receio de novos confrontos. “Isto não é só barulho. É a nossa segurança”, resume uma moradora.
O condomínio à procura de resposta
O administrador do condomínio, Miguel Tavares, confirma a pressão. “Na semana passada, numa tarde, de quinze pessoas em volta da piscina, apenas três eram residentes.” Queixas já foram apresentadas, mas a solução tarda. “Ponderámos segurança privada, mas os custos são muito elevados para as 27 moradias e 30 apartamentos.”
O espaço que deveria ser de convivência tornou-se motivo de tensão entre vizinhos. “Há quem defenda medidas duras, há quem tema conflitos. O resultado é um mal-estar constante”, nota o administrador.
Medidas em cima da mesa
Para tentar recuperar a tranquilidade, o condomínio está a analisar várias opções em conjunto com a PSP e a junta de freguesia:
- Instalação de câmaras com sinalética clara e conforme a lei de proteção de dados
- Reforço do sistema de acesso com cartões e código rotativo
- Aumento da altura da vedação e colocação de painéis anti-escala
- Equipas de vizinhança atenta, com canal direto para a PSP
- Regras visíveis sobre uso do espaço, com coimas internas e comunicação imediata de ocorrências
- Presença pontual de um vigilante em fins de semana críticos, em modo piloto
“Não há solução mágica”, admite Miguel Tavares. “Mas um conjunto de medidas consistentes pode reduzir o problema e devolver o sossego.”
Entre o verão e o receio
Para famílias com crianças e idosos, a piscina era o coração do condomínio. Hoje, muitos evitam o local. “Só quero levar os meus filhos a dar um mergulho sem medo”, diz Marta. Outro morador acrescenta: “A piscina é privada, não é um parque público. Respeito é o mínimo.”
À medida que o verão avança, os residentes aguardam a instalação dos novos dispositivos e uma presença policial mais visível. A expectativa é simples e, ao mesmo tempo, urgente: transformar outra vez a piscina num lugar de descanso, antes que o calor traga mais invasões e que a ameaça de “voltar e queimar tudo” pese sobre cada fim de tarde.
