Nos arredores de Aveiro, na freguesia de Esgueira, um conflito silencioso tomou conta do estacionamento do Largo Alberto Delgado. Desde o fim do verão, uma dezena de caravanas e veículos ocupa o espaço que serve de acesso único à Sala Jaime Dias, um pequeno teatro privado recém-recuperado por João Marcos Dourado. O regresso da programação, previsto como sinal de renovação, esbarrou numa barreira feita de rodas, incerteza e receio.
O impacto na bilheteira é imediato: a cada espetáculo, parte do público hesita, telefona a confirmar as condições, e por fim cancela. “As pessoas têm medo de aparecer, sobretudo ao fim da tarde”, desabafa Dourado, que transformou o antigo armazém em palco para a sua quarta cena cultural na região. O empresário garante que a segurança dentro da sala é exemplar, mas reconhece que a primeira impressão, no parque, pesa mais do que qualquer cartaz.
Estacionamento bloqueado e programação em risco
Segundo o proprietário, a ocupação começou discretamente e ganhou dimensão em poucos dias. A autarquia tinha instalado blocos de betão para proteger as entradas, mas alguns foram deslocados e um pequeno talude foi cortado, deixando o acesso aberto. Sem o parque disponível, o teatro orienta os espectadores para ruas adjacentes e para o seu pequeno jardim interior, que rapidamente fica lotado.
A logística, diz Dourado, encarece cada apresentação e torna frágil a confiança do público. “Sem estacionamento, é como abrir portas para meia plateia”, resume, sublinhando que a equipa tem recebido com empatia representantes das famílias itinerantes, mas precisa de uma solução que respeite todos os direitos.
- Quebra de receitas e de reservas antecipadas
- Atrasos na entrada e filas confusas antes dos espetáculos
- Custos extra com vigilância e sinalética temporária
- Tensões pontuais com a vizinhança e comerciantes do largo
Um imbróglio administrativo e jurídico
Na câmara municipal, o tom é de prudência e paciência. A presidente da junta de freguesia, Cátia Martins, diz “compreender a exasperação”, mas lembra que a primeira providência cautelar para desocupação foi anulada por um vício de forma. “Foi um detalhe de redação, um termo trocado que a juíza considerou insuficiente”, reconhece a autarca, que aguarda agora a correção do texto e nova deliberação.
Até lá, a autarquia mantém diálogo com as famílias e com o teatro, tentando mitigar riscos e evitar confrontos. Uma das medidas previstas é a instalação de um pórtico limitador de altura, para impedir o acesso de veículos acima de determinada dimensão. O equipamento, porém, só poderá avançar após parecer favorável da Direção-Geral do Património Cultural, dado que o largo integra a zona de proteção de um imóvel de interesse municipal.
Planeamento atrasado e soluções provisórias
O dossiê arrasta-se também porque o novo plano intermunicipal para zonas de acolhimento temporário de grupos itinerantes está em revisão. O documento, que define áreas adequadas, infraestruturas mínimas e regras de permanência, não deverá ser aprovado antes de meados de 2026. Sem esse quadro, cada ocupação transforma-se num caso excecional, dependente de decisões cautelares e de negociações ao dia a dia.
Enquanto isso, acumulam-se contas com custas processuais, notificações por via de solicitadores e reforços de policiamento preventivo em horas de maior movimento. “Estamos a pagar para ganhar tempo, quando precisávamos de ganhar clareza”, lamenta Martins, que admite avançar com uma solução transitória numa zona industrial próxima, com água, sanitários e recolha de resíduos, mediante período de estada limitado.
Direitos, deveres e a delicadeza da convivência
No centro do debate está o equilíbrio entre o direito à mobilidade e o direito ao uso ordenado do espaço público. Organizações locais lembram que sem áreas preparadas de acolhimento, a ocupação de parques é quase sempre a única alternativa para quem está de passagem. Ao mesmo tempo, proprietários e moradores pedem previsibilidade, horários e limites, para que a vida económica e cultural não fique paralisada.
Dourado propõe um pacote de mediação: transporte gratuito desde um estacionamento alternativo, presença de assistentes de apoio ao público junto ao largo e um calendário de saída, debatido com representantes das famílias itinerantes, que permita manter a temporada em curso. “Este bairro ganhou um teatro e não quer perdê-lo”, diz, sublinhando que a sala é pequena, mas tem um papel social importante para escolas, associações e criadores locais.
Um desfecho à vista?
A câmara garante que haverá novidades “nos próximos dias”, e que todas as partes serão informadas antes de qualquer mudança. Se o tribunal validar a nova providência, o desalojo será acompanhado por equipas de mediação, com encaminhamento para um espaço transitório e calendário de revisão. O pórtico de altura, se autorizado, ficará como barreira preventiva, para evitar repetições do mesmo impasse.
Para o teatro, cada semana conta, e cada lugar vazio pesa como um alerta. “Queremos que o público entre e respire arte, não ansiedade”, conclui o proprietário. Entre burocracias e boas vontades, a recuperação cultural de Esgueira espera, de luzes acesas, por um estacionamento livre e por um acordo que respeite todos os intervenientes.

Às portas de Sintra? Está tudo a dormir?
Realmente devem estar
Às portas de Sintra, arredores de Aveiro, na freguesia de esgueira com uma foto estrangeira!
Tenho de atualizar o meu GPS, anda tudo avariado.
Agradeço a correção da noticia, é AVEIRO e não Sintra!!!!!!