A dois passos da Rua de Santa Catarina, no Porto, uma loja de disfarces que fez parte da paisagem urbana prepara-se para fechar. Durante 42 anos, a “Viva Samba” vestiu miúdos e graúdos, acompanhou modas e tradições, e encheu de cor as noites de Carnaval e o São João. Agora, por motivos de saúde, a proprietária, Maria Fernandes, decide baixar a porta com um misto de alívio e saudade.
Quatro décadas de fantasia à moda do Porto
Ao longo de quatro décadas, Maria acordou cedo para abrir a loja e ficou até tarde para atender os últimos clientes. Fez compras, tratou da contabilidade, arrumou perucas, máscaras e chapéus. Diz que nunca faltou uma sugestão nem um sorriso, mesmo nos dias mais apertados.
“Comecei aqui aos 16 anos, a dar uma mão depois das aulas, e nunca mais saí”, recorda, encostada ao balcão que viu milhares de histórias acontecerem.
Os disfarces atravessaram gerações e mudaram ao ritmo das festas da cidade. Houve quem viesse para um baile de finalistas, para a Queima das Fitas, para as rusgas de São João ou para um Carnaval à moda de Ovar e Torres Vedras. A cada pedido, um novo personagem ganhava vida.
Modas que passam, vontade de brincar que fica
As tendências foram-se transformando, mas a vontade de brincar manteve-se. No início, reinavam os clássicos – palhaços, piratas, mágicos e arlequins. Hoje, mandam as séries, os jogos e as estrelas das redes sociais, que chegam à montra quase à velocidade de um clique.
O perfil de consumo também mudou. Se nos anos 80 a loja empregava dúzias de pessoas na semana de Ano Novo, agora a equipa encolheu, e a procura concentra-se em peças rápidas e versáteis. As perucas, por exemplo, disparam em vendas: é o acessório que transforma com pouco e dura a noite inteira.
“Dizem que vendia tralha, mas na verdade vendi alegria”, comenta Maria, num riso onde cabe tanto orgulho como cansaço.
Quando o mundo entra pela porta dentro
A globalização entrou nas caixas e nas etiquetas. Muitos fatos deixaram de vir de oficinas em Itália ou Espanha para chegarem de fábricas longínquas, com preços mais baixos e prazos mais curtos. A qualidade é diferente, admite Maria, mas a criatividade continua a ser o ingrediente que não pode falhar.
“Antes, um chapéu de feltro custava um mundo e durava anos; agora é barato, leve, e perfeito para uma noite de folia”, resume, enquanto endireita um cabide de lantejoulas.
Mesmo assim, a loja foi abrigo para colecionadores, teatros amadores e escolas que procuravam uma peça especial. E foi, sobretudo, o lugar onde muitos se permitiram experimentar outra pele, trocar a timidez por uma máscara e sair para a rua com uma dose extra de coragem.
“Quando as pessoas entram, deixam o **pudor** à porta e levam um bocadinho de **liberdade** na sacola.”
Memórias à prova de tempo
Há pedidos que ficaram na memória. O grupo de amigos que quis recriar um filme de culto para o São João. A avó que voltou para comprar o mesmo chapéu do baile de 1989 para a neta que adora vintage. O professor que precisava de dez capas iguais para uma peça escolar e acabou a aplaudir de peruca cor-de-rosa.
- Um desfile improvisado na rua, com vizinhos a bater palmas.
- Uma noiva que levou véu de brilho para a despedida de solteira.
- Um miúdo que entrou tímido e saiu capitão de navio.
E houve, claro, os recados emocionados quando se soube do fecho. “Sem a tua montra, o Porto perde uma cor”, lê-se numa mensagem que Maria guarda no telemóvel.

Fechar a porta, deixar a luz acesa
Sem reaproveitamento à vista, a “Viva Samba” prepara liquidações até ao Halloween, data que, nos últimos anos, se tornou imprescindível no calendário de vendas. Depois, a porta fecha, mas a luz que acendeu no imaginário de tantos vai continuar a brilhar.
“É uma casa que exigia um corpo que já não aguenta”, diz Maria, honesta e serena. “Levo comigo uma cidade de sorrisos.”
No final, fica a ideia de que as lojas de bairro fazem mais do que vender: constroem comunidade, juntam vizinhos e criam histórias que se contam de pais para filhos. O Porto perde uma montra, mas ganha um legado que não cabe numa fatura nem se mede em palmos de tecido.
Talvez, um dia, outra porta se abra e volte a soprar confettis pela rua. Até lá, quem passou por aqui saberá que, mesmo fechada, esta casa continua, discretamente, a vestir a cidade de fantasia.
