Os comerciantes do Mercado do Bolhão estão em choque. A notícia da morte de João Pedro Ribeiro, aos 64 anos, correu pelos corredores como um sussurro pesado, daqueles que nos cortam a respiração. Figura carismática, com a boina preta bem assente e um sorriso franco por trás da sua banca de queijos, ele transformava cada manhã numa celebração de sabores e cumplicidades. A sua ausência deixa um vazio difícil de preencher, não só entre quem vendia ao lado, mas também entre os clientes que nele encontravam conversa, conselhos e um pedaço autêntico da cidade.
Uma figura do Bolhão
Durante mais de duas décadas, João Pedro foi sinónimo de Bolhão: madrugador, atento, sempre pronto a puxar pela memória de quem procurava o tal queijo “igual ao de outrora”. Com uma pronúncia do Norte e um humor de travessura, enfrentava chuva, frio e vento com a mesma teimosia boa de quem sabe que o mercado é um palco de vida. Entre chamadas de vendedores, risos partilhados e provadores hesitantes, o seu balcão era paragem obrigatória para visitantes e habitués.
A fama vinha do seu rigor e da sua alegria: sabia explicar a cura, a origem do leite, a textura e o ponto de sal como quem conta uma história. E, quando alguém hesitava em provar, ele piscava o olho e arrancava um sorriso, transformando cada fatia num convite à descoberta.
Do berço à banca de queijo
Nascido a 31 de julho de 1961, em Vila do Conde, João Pedro andou por vários ofícios antes de encontrar, em 2003, a sua grande vocação: o queijo. Começou no mercado de Matosinhos, entre cheiro a mar e pregões de peixe, afinando a arte de escolher e cortar queijos como quem esculpe uma peça de autor. Pouco depois, chegou ao Bolhão, onde a alma popular e a cadência dos dias bateram com o seu jeito de estar, firme e generoso.
Ao longo dos anos, construiu uma rede de produtores e afinadores, visitando quintas, cavando confiança e aprendendo com mestres que prezavam a qualidade acima de tudo. O resultado estava no prato: queijos afinados no ponto, com aromas de campo e uma persistência que fazia os clientes voltarem, fiéis e entusiasmados.
Amor, planos e um humor irrecusável
Em 2012, conheceu Koï Hoahan, uma história de amor com perfume tailandês que trouxe novas cores ao seu cotidiano. O casamento chegou em 2019, já com a certeza de que, um dia, haveria de descansar ao sol da Tailândia, entre sabores exóticos e lembranças do Bolhão. Ele dizia que o coração podia ser de queijo, mas batia com sotaque português, pronto para amar sem medida.
“Todos os dias ele desafiava a chuva, o frio e o vento para abrir a banca há mais de vinte anos,” recorda o filho Alexandre. “Os seus queijos eram uma autêntica bomba de sabor e, se alguém recusava provar, ele ria-se e dizia aos turistas: ‘Atenção, vou chamar a polícia!’”.
Uma presença que fará falta
João Pedro era o vizinho que assobiava, cantava baixinho e puxava conversa com quem precisava de um sorriso. A sua boina preta e o seu velho Peugeot 403, que conduzia com orgulho de quem aprecia o clássico, tornaram-se parte do postal vivo do Porto. Para muitos, ele representava a ternura das rotinas partilhadas e a firmeza de um carácter bondoso e brincalhão.
A sua partida deixa memórias claras, daquelas que se saboreiam devagar, com respeito e uma pontinha de saudade. Quem o conheceu recordará pequenos rituais, como o aperto de mão forte, a navalha sempre afiada e o conselho certeiro para o queijo da tábua de domingo.
- Um riso sempre pronto e uma palavra amiga para cada cliente.
- Uma seleção de queijos irrepreensível, afinada com paciência e sabedoria.
- Histórias contadas ao balcão, com humor maroto e afeto genuíno.
- Respeito pelos produtores e pelo tempo que o sabor exige.
- Um exemplo de trabalho honesto e dedicação ao mercado tradicional.
Despedida e legado
Pai dedicado, transmitiu o amor pelo queijo aos filhos Tomás e Alexandre, que já pegaram no testemunho e mantêm viva a banca no coração do Bolhão. Eles prometem honrar o gesto do corte, a escolha do ponto de cura e a conversa que faz do mercado uma casa de todos. Cada fatia servida será também um tributo ao mestre, numa continuidade que mistura respeito e vontade de inovar.
As cerimónias fúnebres terão lugar na terça-feira, 6 de janeiro, às 16h, no Crematório de Paranhos, no Porto, num adeus que se quer sereno e agradecido. A família agradece as muitas mensagens e a presença de quem queira prestar uma última homenagem. No corredor dos sabores do Bolhão, entre o pão quente e o cheiro das ervas, ficará sempre o rasto da sua alegria, a lembrança da sua boina preta e o silêncio doce de um “obrigado” dito com o coração cheio.
